No final de Ano Pastoral 2024-2025, o primeiro do Biénio Pastoral “Peregrinos de Esperança” que a Arquidiocese de Évora está a viver, a Esperança Multimédia esteve à conversa com o Arcebispo de Évora para fazer o balanço deste ano decorrido e para projetar a segunda etapa do Biénio. Na conversa foi ainda abordada Pastoral Vocacional, assim como o tema da ordem do dia, a imigração em Portugal, temas que serão desenvolvidos em próximas edições de Ser Igreja.
Esta conversa estará disponível na íntegra para ser vista e ouvida no canal de Youtube da Arquidiocese a partir das 16h00 do dia 8 de agosto.
Num Ano Pastoral que foi vivido em pleno, muitas atividades foram desenvolvidas pelos Departamentos da Pastoral, com a orientação da Coordenação Pastoral, assim como pelas Paróquias, pelos Institutos religiosos e pelos Movimentos. Nos canais de comunicação da Arquidiocese demos conta das atividades desenvolvidas, dos encontros e iniciativas desenvolvidas.
“Ano desafiante”
Sobre este primeiro ano do Biénio Pastoral, o Prelado resume-o com a expressão “ano desafiante”.
“O ano tem decorrido com muitas iniciativas, com muito dinamismo, mas desejamos sempre mais e melhor. Porque, de facto aquilo a que somos chamados é para maior exigência na nossa atitude de serviço, afim de oferecermos a este Povo Santo de Deus propostas credíveis pela nossa coerência de vida como pastores da Igreja em contínua consonância com o único e eterno Bom Pastor. E lembro que afinal todos somos pastores, ovelhas pastoras, chamando-nos e entusiasmando-nos uns aos outros porque levamos em nós o fogo do amor de Cristo”, aponta.
“Depois de fazermos a avaliação, percebemos que há experiências interessantes, há, de facto, mais valias de outras comunidades que ainda temos que compreender, experimentar, assimilar e oferecer. Portanto, eu estou muito edificado com o trabalho realizado, mas o Senhor pede-nos tudo, que ponhamos a render todos os talentos”, apela.
“Queremos, comprometemo-nos e estamos em caminhada”
Desde o início do Ano Santo, em 28 de dezembro de 2024, o Ano Pastoral da Arquidiocese tem sido marcado por diversas peregrinações. Neste olhar para o que já aconteceu, o Arcebispo de Évora sublinha o “sinal que a Igreja de Évora deu de si mesma: queremos, comprometemo-nos e estamos em caminhada”.
“Foi surpreendente a adesão de muitos ao Ano Santo que verificámos logo desde o primeiro dia, na celebração vivida nesse dia 28 de dezembro. Uma multidão considerável reuniu-se na Sé de Évora, foi, de facto, um recado de toda a Igreja arquidiocesana que proclamou: estamos aqui para dar e estamos aqui para receber; vamos juntos! Este apelo tornou-se simultaneamente um compromisso e um entusiasmo. Foi alguma coisa que trouxe alento à nossa dinâmica”, explica.
“As orientações do Papa Francisco definiram que não teríamos Porta Santa, mas sim Lugares de Esperança nos diversos Santuários da Arquidiocese. A Catedral é referência, como Igreja Mãe, e nós escolhemos, como tradição da nossa Arquidiocese, os Santuários (acrescentar santuários), que são já marcados por outros Anos Santos”, acrescenta.
“Foi muito interessante perceber como surgiram novos pedidos, por exemplo, vindos de Fronteira: aquela igreja tão bela, repleta de pinturas murais e de frescos, a Igreja de Nossa Senhora de Vila Velha, proposta como um Lugar de Esperança, um lugar marcado pelo Ano Santo. E a mesma coisa aconteceu em Mourão, com a igreja de Nossa Senhora das Candeias”, recorda, acrescentando que “temos uma presença considerável de Santuários, que são uma das riquezas da nossa Arquidiocese, quer santuários marianos, quer santuários cristológicos como o Senhor Jesus da Piedade em Elvas e o Senhor dos Mártires em Alcácer do Sal”.
“Precisamos de ter uma Igreja orgânica”
“Uma das coisas muito importantes no Ano Santo é que não podemos ter uma espécie de estratos, como quando fazemos um corte arqueológico na terra. Aí se notam as várias diferenças de cada uma das camadas. Não, nós não podemos ter uma Igreja assim. Nós precisamos de ter uma Igreja orgânica nas formas como a Palavra do Novo Testamento nos apresenta: Corpo de Cristo; a cepa da videira com os seus ramos… Ou seja, somos um só, somos membros do mesmo corpo. E, por isso, quando estamos em comunhão, a seiva que circula em nós é única e faz de nós um só corpo”, aponta.
“Foi esta experiência que trouxemos para o Ano Santo e que Francisco nos pôs na mochila, de uma maneira impressionante, com o tema da sinodalidade. Não posso deixar de ver no tema ‘sinodalidade’ os companheiros de Emaús, o bom samaritano e mesmo o cireneu”, recorda.
“A sinodalidade é também este partilhar o sofrimento do outro, a compaixão. Ora, o Ano Santo é uma chegada desta caminhada que o Santo Padre Francisco fez com a Igreja e que nós agora experimentamos no concreto, porque a peregrinação é, no fundo, a sinodalidade, é ir com o outro, é caminhar, é a estrada de Emaús”, explica.
“Estamos como peregrinos a fazer a experiência do reconhecimento das nossas culpas e do perdão, porque vivemos numa sociedade onde compartilhamos também sinais de indignidade, como foram as questões tão dolorosas dos abusos, que também aconteceram na Igreja. Desta constatação percebemos que como cristãos somos peregrinos e nunca os melhores, não podemos fazer proselitismo mas compartilhar a alegria libertadora da fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, o sorriso da misericórdia do Pai. Não nos autocentramos na Igreja nem a idolatramos. Sabemos que a sua cabeça é santa, mas que nós, seus membros, somos pecadores. A partir desta constatação experimentamos uma igualdade que nos fraterniza no desejo de sermos todos pecadores perdoados. É fundamental regressarmos de uma peregrinação com a experiência vivida do arrependimento e da reconciliação”, refere, acrescentando que “nesta atitude de verdade há uma dimensão muito bela, que o Ano Santo transporta nos desafios e exigências do Papa Francisco continuados no nosso querido Papa Leão XIV.
“Não temos estado parados, temos trabalhado muito”
“Na Arquidiocese, o Ano Santo tem sido vivido a partir das diversas iniciativas que nascem da Coordenação Arquidiocesana, dos Departamentos Arquidiocesanos e, ao mesmo tempo, desta pastoral vivida e proposta pelas Paróquias, pelos Movimentos Eclesiais e pelas Associações de Fiéis. Não temos estado parados, temos trabalhado muito”, afiança.
“É interessante verificar que a alegria brota com a dádiva da vida, do trabalho e o consequente cansaço. No final podemos estar fatigados, mas com uma alegria enorme por servir. Ainda não vi nenhuma experiência celebrada neste Ano Santo em que as pessoas não viessem plenas de felicidade, ainda que muito fatigadas. Mesmo que tenham passado por experiências exigentes nas peregrinações, repete-se a alegria do Jubileu. Precariedade, mas dádiva e amor”, sintetiza o Prelado eborense.
O próximo Ano Pastoral será marcado pelo final do Jubileu e pelos seus frutos
O segundo ano do Biénio Pastoral que iniciaremos em setembro próximo, será marcado pela vivência da reta final do Jubileu 2025, que terminará a 28 de dezembro, na Festa da Sagrada Família. “Voltaremos certamente à nossa Catedral e Igreja Mãe para com Maria entoar o Magnificat da nossa gratidão”, aponta.
Depois, de janeiro até agosto de 2026, o Ano Pastoral incidirá sobre os frutos do Jubileu e para o qual o Arcebispo de Évora convida a olharmos todos como um tempo mistagógico, ou seja, “recordar os momentos vividos, saborear e contemplar o mistério de Deus neles presente”. “A mistagogia é olhar para o que Deus fez em nós, para o dom que foi o Ano Santo, para a minha ida a Roma ou outros Santuários, afinal para aquilo que Deus fez na minha vida, levando-me ao encontro com a beleza e por consequência com a paz”, explica.
“Queremos que esta dimensão mistagógica seja empenhativa em duas perspetivas”, revela, explicando que “desejamos olhar para a nossa Arquidiocese e perguntar: E agora, que posso eu dar de mim? Há duas palavras que se abraçam, comunhão e serviço, ou seja, servir na comunhão”.
“É importante que muitos e muitas sintam perante as belezas que com Deus experimentaram pronunciar a sua decisão: SERVIREI!”, refere.
“Este servir será importante que aconteça no contexto da fraternidade, ou seja, no serviço aos irmãos, a nível social, caritativo, nas dinâmicas da catequese, e também ao nível celebrativo da fé”, sublinha
“A nossa Igreja diocesana tem enormes extensões de território despovoado, permanecendo nele muitos sós. O dinheiro não responde a tudo. Só o abraço da verdadeira amizade pode preencher o vazio da solidão. Eis um desafio para jovens e adultos: o acompanhamento dos sós, dos idosos, dos doentes, afinal de todos os frágeis. Porque não organizar um voluntariado dinâmico nas nossas comunidades paroquiais com este olhar novo e comprometido?”, questiona, acrescentando, “afinal não podemos concluir a nossa experiência cristã nos eventos vividos e repletos de riqueza, precisamos de nos doar à radicalidade do amor que passa pelo acompanhamento quotidiano, permanente e fiel. E nesta realidade quantos desafios, quantas necessidades…”
“São estes três grandes pilares: anunciar, celebrar, testemunhar”, sintetiza, apelando “que nascessem, de facto, grupos de formação de adultos para conhecer melhor a Palavra de Deus e grupos de formação de adultos para agentes pastorais”, aponta, acrescentando que “nós precisamos, nas nossas comunidades, de catequistas preparados; precisamos de quem celebre a Palavra de Deus ao domingo na ausência dos presbíteros; visitadores de doentes; cuidadores das pessoas que vivem lutos difíceis na solidão…”
“Temos ministérios tão importantes que são serviços e que podiam despontar no coração de algumas pessoas para que pudessem dar a vida assim nessa atitude de serviço”, apela.
“Neste sentido, a Arquidiocese deve continuar a disponibilizar formação concreta para pessoas que queiram servir”, afiança.
“Servir e formar também para o diaconado permanente”, acrescenta o Prelado, adiantando que “precisamos muito de homens que assumam este Ministério do Diaconado Permanente”.
“Tivemos 32 diáconos permanentes. Saudosa memória do diác. Amâncio Mouquinho e do diác. Fernando Santana. E agora contamos com 30 diáconos permanentes. Alguns já estão com idade, já estão cansados, contudo, estão dando tudo até ao fim. Mas temos de pensar neste Ministério precioso que é pertença do ADN da Igreja”, aponta, recordando que “a Igreja nasceu assim. A Didaqué apresenta a primeira hierarquia: o bispo, o diácono, o leitor ou evangelista e depois o doutor que era o catequista”.
“A partir de 2026, nós faremos estas propostas à Arquidiocese de pensar em conjunto, sinodalmente. Não de um modo de cima para baixo, mas perceber nas comunidades as possibilidades existentes e encontrar de facto esta entrega de pessoas que, a partir do Ano Santo, contando muito com os jovens, dissessem: eis-me aqui. E à maneira de Maria servissem para que tivéssemos uma renovação dos agentes de pastoral e, ao mesmo tempo, preparássemos os ministérios instituídos já propostos pelo Papa de catequistas, leitores e acólitos, a um ritmo conveniente e sólido nesta caminhada de 8 anos que nos levará até 2033, que vai ser o próximo Ano Santo, o ano em que Jesus deu a vida e ressuscitou. E que celebraremos como o Ano da Redenção, com todas as etapas que o Papa Leão XIV nos vai propor”, apela.
“O dia-a-dia da Arquidiocese faz-se na unidade das Paróquias e na comunhão de cada comunidade cristã”, afiança, apelando que “precisamos de quem entregue a sua vida para que tenhamos comunidades participativas e não centralizadas num clericalismo doentio. Precisamos de uma Igreja sinodal, família de famílias, onde eclésia quer dizer comunidade na comunhão”, conclui o Arcebispo de Évora.
Texto de Pedro Miguel Conceição
