Na festa de São Pedro, dois jovens disseram “sim” ao serviço da Igreja

Na solenidade de São Pedro e São Paulo, a Arquidiocese de Évora acolheu dois novos diáconos. Na homilia, D. Francisco Senra Coelho recordou que toda a vocação nasce da resposta à pergunta de Cristo e que o diaconado encontra a sua verdadeira identidade no serviço aos irmãos.

    Rosário Silva

No dia em que Évora celebrou São Pedro, o seu padroeiro, a Igreja voltou a ouvir a pergunta que atravessa os séculos e continua a ecoar em cada geração de cristãos: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”

Foi a partir desta interrogação do Evangelho que o arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, conduziu a homilia da solenidade de São Pedro e São Paulo, celebrada na Igreja de São Francisco, em Évora, numa Eucaristia marcada pela ordenação diaconal dos seminaristas Manuel Godinho e David Novo, do Seminário Redemptoris Mater.

Mais do que uma cerimónia litúrgica, foi um momento de alegria para a Igreja eborense, que viu dois jovens responderem ao chamamento de Deus através da disponibilidade para servir.

Perante uma assembleia onde se encontravam familiares, amigos, sacerdotes, diáconos, religiosos e muitos fiéis, os dois candidatos percorreram os passos do rito de ordenação: a apresentação e eleição, o compromisso público, a imposição das mãos pelo arcebispo, a oração consecratória, a entrega da estola e da dalmática e, por fim, a entrega do Livro dos Evangelhos, sinal da missão de anunciar a Palavra e de a testemunhar pela própria vida. Entre a solenidade dos gestos e a emoção contida de quem os acompanhava, a celebração recordou que cada vocação continua a ser um dom para toda a comunidade.

A pergunta que muda uma vida

Na homilia, o Prelado começou por recordar as figuras de São Pedro e São Paulo, “dois homens muito diferentes em temperamento e missão, mas unidos por um mesmo amor: Cristo”. Se Pedro representa a fé que confessa, Paulo simboliza a fé que anuncia. Diferentes nos percursos, ambos deixaram que a graça transformasse as suas fragilidades em força e fizeram da própria vida um testemunho até ao martírio.

Foi, porém, a pergunta dirigida por Jesus aos discípulos em Cesareia de Filipe que se tornou o verdadeiro fio condutor da reflexão. “É a pergunta decisiva de toda a vida cristã, aquela que define não apenas o que queremos, mas também quem somos.”

Depois de olhar para os apóstolos, o arcebispo trouxe essa mesma pergunta para o presente, dirigindo-a à Igreja de Évora e, de forma muito particular, aos dois jovens que se preparavam para receber a ordenação. “A pergunta do Senhor também se dirige a vós. E vós, quem dizeis que Eu sou? A vossa vida é um modo de resposta.”

  1. Francisco descreveu, ainda, a vocação como um caminho silencioso que amadurece com o tempo. “Toda a vocação é um ato de amor que nasce na simplicidade de um desejo, de uma admiração, de uma inquietação, que vai revelando a sua presença dia após dia, como a flor que se abre sem percebermos o movimento dessa abertura.”

Grande parte da homilia foi dedicada ao significado do diaconado, frequentemente entendido apenas como uma etapa antes da ordenação sacerdotal. O Arcebispo de Évora procurou desfazer essa ideia, insistindo que o diaconado possui uma identidade própria e permanente na vida da Igreja. “Este ministério ordenado não deve ser considerado um estado temporário de acesso ao sacerdócio, mas sim um verdadeiro e permanente sacramento que perpetua na vida de cada um de vós a missão da Igreja.”

Explicou que o diácono é chamado, antes de tudo, a assumir o estilo de Cristo Servo: “Serei teu servidor. Servir-te-ei em todos os irmãos. Serei proclamador da tua Palavra com a minha vida e, quando necessário, com a minha voz.”

Na tradição da Igreja, acrescentou, compete ao diácono fazer a ponte entre aquilo que se celebra no altar e aquilo que se vive no quotidiano: “O diácono é aquele que ajuda a comunidade a traduzir a liturgia celebrada para a vida quotidiana, ocupando-se, sobretudo, das necessidades dos mais pobres.”

É precisamente no exercício da caridade, explicou, que o diácono aprende a compreender mais profundamente a Palavra de Deus e a riqueza da liturgia. O serviço não surge como consequência da fé; é a forma concreta de a viver.

Embora Manuel Godinho e David Novo prossigam agora o seu caminho rumo ao sacerdócio, o arcebispo recordou-lhes que essa dimensão de serviço deverá permanecer para sempre: “Sereis sempre presbíteros diáconos, servidores fiéis da Igreja.”

Uma Igreja que continua a gerar vocações

Na parte final da celebração, D. Francisco Senra Coelho convidou toda a Arquidiocese a perseverar na oração pelas vocações, lembrando que a Igreja continua a precisar de homens e mulheres disponíveis para responder ao chamamento de Deus. “Rezemos sem desanimar pelo dom das vocações ordenadas para o serviço da Igreja de Évora”, pediu.

Confiou esse pedido à proteção de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Arquidiocese, e à intercessão dos apóstolos Pedro e Paulo, pedindo que nunca faltem servidores para a missão da Igreja.

A celebração revestiu-se também de um significado pessoal para o Prelado. Foi precisamente neste 29 de junho, solenidade de São Pedro e São Paulo, que o arcebispo assinalou os 40 anos de ordenação sacerdotal e os 12 anos de ministério episcopal. Fê-lo da forma que melhor traduz o seu próprio percurso: presidindo à ordenação de dois novos ministros da Igreja e convidando-os a fazer do serviço o centro da sua missão.

Na festa do padroeiro de Évora, a sucessão apostólica deixou, assim, de ser apenas memória dos primeiros discípulos para ganhar novos rostos. Tal como Pedro respondeu um dia à pergunta de Jesus – “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” –  também Manuel Godinho e David Novo deram a sua resposta, que não termina com o rito da ordenação. Começa, sim, ali. E, talvez por isso, as últimas palavras ouvidas na igreja tenham sido também as mais reveladoras.

Manuel Godinho: “Deus é fiel”

Foi com palavras de gratidão que Manuel Godinho começou a sua intervenção, dirigindo o primeiro agradecimento a Deus, seguindo-se a família, “por me ter transmitido a fé”, a comunidade, os catequistas, os formadores e todos os que o acompanharam ao longo do percurso.

Depois, deixou aquele que foi o centro do seu testemunho: “Deus é fiel. Apesar de eu ser infiel muitas e muitas vezes, Ele continua a ser fiel. A prova disso é este diaconado, esta ordenação que hoje me foi conferida.”

Confiando o futuro à vontade de Deus, pediu à assembleia que o continue a acompanhar: “Peço que rezem por mim, para que esta missão continue sempre assim e aquilo que hoje recebi possa permanecer por toda a minha vida.”

David Novo: “O mais difícil é continuar”

David Novo confessou que não sabia bem o que dizer, porque “esta Eucaristia foi maravilhosa”. Preferiu falar do que trazia no coração: um profundo sentimento de gratidão: “Agradeço ao Senhor por me ter eleito, por me ter seduzido e por me ter confiado esta missão.”

Perante familiares, amigos e irmãos de caminhada, reconheceu que nunca imaginou viver aquele momento: “Quem me conhece há muitos anos sabe tão bem como eu que isto era impensável. É tudo obra de Deus.”

No final, deixou um pedido simples e muito humano, que arrancou um sorriso cúmplice entre muitos dos presentes: “Até agora era o mais difícil chegar aqui, mas agora o mais difícil é continuar. Por isso, peço as vossas orações para que o Senhor me ajude e me continue a seduzir em cada dia.”

As palavras dos dois novos diáconos acabaram por resumir o espírito de toda a celebração: gratidão, confiança e a consciência de que a vocação não termina na ordenação. É, antes de mais, um caminho que se renova todos os dias.

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ARQUIDIOCESE DE ÉVORA