Arcebispo de Évora contrapõe lógica do dom à procura de poder e desafia a Igreja a ser “pálio” para os mais frágeis numa sociedade marcada pela solidão, pela guerra e pela indiferença
Rosário Silva
A construção de uma sociedade mais humana, centrada na pessoa e não na procura de poder, marcou a homilia de D. Francisco Senra Coelho na solenidade do Corpo de Deus, celebrada em Évora. Perante largas dezenas de fiéis reunidos na Sé, o Arcebispo de Évora apresentou a Eucaristia como modelo de uma nova forma de viver e de organizar a sociedade, inspirada na entrega total de Cristo.
“Dar tudo é a medida de Deus e a verdadeira dimensão da humanização”, afirmou o Prelado, numa reflexão em que relacionou diretamente a mensagem cristã com os desafios contemporâneos, desde a fome e as desigualdades às guerras e à crescente indiferença social.
Partindo do Evangelho, D. Francisco recordou que Jesus não se limita a responder às necessidades materiais das pessoas. Para o Arcebispo, a solidariedade ocasional e a filantropia, embora importantes, não resolvem as injustiças profundas que continuam a marcar a humanidade.
“Para Jesus não é compreensível que uns tenham mais, outros menos e outros nada”, afirmou, alertando para um mundo onde persistem situações de fome provocadas “pela guerra, pela indiferença, pelo alheamento e pela ganância imensa do ter para o poder”.
Ao longo da homilia, o responsável pela Arquidiocese de Évora contrapôs duas visões da sociedade: uma fundada na acumulação, no domínio e na exibição de poder, e outra construída a partir da entrega de si mesmo e do serviço aos outros.
“Temos que construir uma humanidade para a humanização, não uma humanidade para o poder”, declarou, criticando aquilo que classificou como “filantropias enganadoras e puramente propagandistas”, incapazes de transformar verdadeiramente as condições de vida das pessoas.
Segundo D. Francisco, a Eucaristia revela precisamente essa lógica da entrega total. Tal como Cristo deu a vida pela humanidade, também os cristãos são chamados a comprometer-se com a construção de um mundo mais justo e fraterno.
“O mundo precisa de ter coração e de se dar a uma humanidade faminta de humanidade”, afirmou.
A Igreja como sinal de uma nova humanidade
Num outro momento da homilia da homilia, o Arcebispo defendeu que a Igreja deve ser sinal visível desta transformação social e humana.
“A Igreja tem que ser este sinal e este fermento”, afirmou, sublinhando que a sua missão não se esgota na celebração dos sacramentos, mas passa por colocar a pessoa humana no centro das suas preocupações.
D. Francisco relacionou ainda esta missão com o conceito de “ecologia integral”, defendendo uma visão da sociedade onde tudo converge para a dignidade da pessoa humana.
“A construção de uma nova humanidade passa por uma nova mentalidade que leva a um novo agir, numa opção fundamental pela pessoa humana como centro da humanidade, da criação e da ecologia integral”, sustentou.
O simbolismo atual do pálio
A procissão do Corpo de Deus pelas ruas de Évora serviu também de ponto de partida para uma reflexão original sobre o significado do pálio, estrutura que acompanha o Santíssimo Sacramento. “O pálio de Deus é o manto de Deus”, afirmou.
Numa interpretação marcada pela atualidade, D. Senra Coelho associou o termo aos cuidados paliativos, explicando que ambos remetem para a ideia de proteção, cuidado e alívio do sofrimento. “O pálio de Deus são os braços carinhosos com que nos abraça e nos envolve”, disse.
A partir desta imagem, o Arcebispo desenvolveu uma visão da Igreja como espaço de acolhimento e cuidado, particularmente para aqueles que vivem situações de maior fragilidade. “A Igreja é chamada a tornar-se pálio para todos”, afirmou, acrescentando que a comunidade cristã deve envolver a humanidade “para que não haja ninguém ferido e lançado ao mar do abandono, ao abismo da solidão”, afirmou.
Já na parte final da sua pregação, lançou um desafio direto à própria Igreja, defendendo que esta deve primeiro deixar-se cuidar por Cristo para depois poder cuidar dos outros. “A Igreja seja pálio, paliativo na sociedade que por nós espera e de nós reclama coerência”, afirmou.
Numa sociedade que considera marcada por múltiplas feridas humanas e espirituais, o Prelado concluiu apelando a uma Igreja capaz de unir contemplação e compromisso, fé e serviço, assumindo-se como presença de proximidade junto dos pobres, dos marginalizados, dos sós e dos que sofrem.
“Hoje, Cristo vai no centro do pálio”, recordou, para que a Igreja aprenda a ser, ela própria, sinal do cuidado de Deus no meio do mundo.
