Arcebispo de Évora em entrevista – Imigração: “O acolhimento tem de ser planificado e cuidado”

No final de Ano Pastoral 2024-2025, o primeiro do Biénio Pastoral “Peregrinos de Esperança” que a Arquidiocese de Évora está a viver, a Esperança Multimédia esteve à conversa com o Arcebispo de Évora para fazer o balanço deste ano decorrido e para projetar a segunda etapa do Biénio.

Na conversa foi também abordada a imigração, tema que desenvolvemos nesta edição de Ser Igreja.

Esta conversa está já disponível na íntegra para ser vista e ouvida no canal de Youtube da Arquidiocese – https://www.youtube.com/watch?v=eEN2YgmgBIc.

 

Imigração: “Não nos devemos alarmar”

Questionado sobre o tema imigração em Portugal, que tem estado na ordem do dia, o Prelado começa por dizer que “era expectável” e que “não nos devemos alarmar”, pois é “uma repetição de muitas páginas da história da Humanidade”.

“Efetivamente, a Europa, por várias circunstâncias, chegou ao momento presente, concretamente, em Portugal, que é um dos países mais envelhecidos do mundo, porque houve opções políticas e sociais que se tomaram sem ter em conta o problema do despovoamento populacional e da desertificação, sobretudo no interior do país. Apesar de algumas tentativas, a ausência de políticas de um ordenamento do território com critérios distributivos a partir de apoios ao investimento e ao empreendedorismo, não foram suficientes para evitar a situação a que chegámos”, desenvolve.

“No presente, constatamos localidades em despovoamento crescente, com pessoas muito idosas, não havendo já recursos para tratar dos próprios idosos, ou seja, estamos longe de inverter o envelhecimento e conter a descida populacional”, refere.

“Assim, temos reais necessidades de contar com os imigrantes para superar a escassez de mão de obra, não só na construção civil, nas ferrovias ou nas rodovias, mas também no turismo e nos serviços básicos da própria saúde e do cuidado dos idosos e de pessoas com deficiência”, aponta o Prelado eborense.

“Esta realidade dói socialmente, porque é necessário receber e conviver com outras culturas”, explica, revelando que “a envolvência do mundo atual gera também uma pressão sobre as nossas fronteiras de gentes que veem nesta circunstância uma oportunidade de entrar na Europa, e Portugal surge como uma das portas para este continente. Perante esta pressão, surgem medos e preocupações de segurança, os quais geram muitas vezes fenómenos sociais fracturantes e radicais. Normalmente, o medo gera violências ditas defensivas, eis uma explicação para alguns fenómenos raciais ou até racistas”.


“Temos de ter, de facto, um acolhimento de qualidade”

“Temos de ter, de facto, um acolhimento de qualidade. Não vamos trazer pessoas para depois fazer favelas à volta das cidades do nosso país”, afirma, sublinhando que “temos de nos preparar para acolher o número que necessitamos. O acolhimento tem de ser planificado e cuidado. Não tenho dúvidas disso. Senão, seremos irresponsáveis. Ou seja, estamos a gerar pobreza sobre pobreza e provavelmente violência sobre violência”.

“Neste contexto, estamos numa fase transitória”, afiança o Arcebispo de Évora, explicando que “vivemos um período onde ainda não aconteceu a enculturação sadia dos povos que chegaram, mas que ainda não se integraram. Esta adaptação começa a acontecer quando os filhos vão à escola, quando os filhos já são amigos dos nossos filhos, quando os netos já são amigos dos nossos netos, ou seja, quando há interação cultural e geracional”.

“A integração acontece, mas demora tempo”, afiança.

“Este momento que estamos a viver é o pior. É o momento em muitos dizem: ‘Não precisamos de imigrantes, devemos resistir à sua chegada’. Por vezes, são posições marcadas por ideologias que não atendem às reais necessidades do país e marcadas por desumanidade”, explica.

“Temos ainda uma outra questão: Como é que nós integramos estas pessoas? Pode acontecer que estas tenham sido integradas nos contextos mais empobrecidos com que Portugal já contava. Foram viver para bairros carenciados ou até abandonados e cresceram em situações degradantes”, aponta, adiantando que “a dificuldade maior que temos hoje não é com os imigrantes que chegam, é com a segunda geração dos imigrantes que chegaram, porque não foram, de facto, inseridos, não foram formados, não houve para eles uma preocupação de instrução e de promoção humana integral. Muitos deles ficaram entregues a si próprios em situações de discriminação e em contextos desumanos”.

“A nossa problemática foi, em muitas circunstâncias, criada por nós”, sublinha, apontando que “aquilo que temos de viver, é cuidar do acolhimento, saber integrar e apostar no sentido de investir em quem chega, para que, sobretudo, as novas gerações dos que chegam não repitam alguns erros sociais que acabámos de abordar”.

 

“Sem alheamentos, indiferenças e preconceitos devemos viver tranquilamente, porque a multiculturalidade e a multirracialidade são a realidade de muitas sociedades”

Deste modo, perante a questão da imigração, o Arcebispo de Évora aponta que “sem alheamentos, indiferenças e preconceitos devemos viver tranquilamente, porque a multiculturalidade e a multirracialidade são a realidade de muitas sociedades. Vejamos nesta circunstância a oportunidade de crescermos na multiculturalidade e na multirracialidade, fazendo a experiência da paz e do convívio próprio dos valores cristãos”.

“Posso dizer que há experiências maravilhosas que eu conheci muito de perto na minha vida de presbítero, quando acompanhei comunidades imigrantes, nomeadamente nos Estados Unidos da América, em menor escala na Alemanha e como Diretor Espiritual Mundial dos Cursilhos de Cristandade nos cinco continentes. Devo testemunhar que encontrei os portugueses integrados e felizes na quase totalidade das comunidades multiculturais, raciais e religiosas”, recorda.

Em suma, o Prelado eborense sintetiza que “estamos a viver um momento difícil e exigente de aprendizagem e ambientação, que pode gerar rupturas e, se não tivermos atenção, até confrontações”.

“Portanto, é muito importante que esta mensagem seja refletida e que partamos do princípio que precisamos dos imigrantes. Temos de saber acolher ao nível humano, social e também espiritual. A Igreja não pode ficar fora deste desafio”, conclui D. Francisco Senra Coelho.

Texto de Pedro Miguel Conceição

 

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ARQUIDIOCESE DE ÉVORA