No final de Ano Pastoral 2024-2025, o primeiro do Biénio Pastoral “Peregrinos de Esperança” que a Arquidiocese de Évora está a viver, a Esperança Multimédia esteve à conversa com o Arcebispo de Évora para fazer o balanço deste ano decorrido e para projetar a segunda etapa do Biénio.
Na conversa foi também abordada a Pastoral Vocacional, tema que desenvolvemos nesta edição de Ser Igreja. A imigração em Portugal foi ainda outro tema falado na entrevista e que será desenvolvido na próxima edição de Ser Igreja de 3 de setembro.
Esta conversa está já disponível na íntegra para ser vista e ouvida no canal de Youtube da Arquidiocese – https://www.youtube.com/watch?v=eEN2YgmgBIc.
A consciência de uma cultura vocacional
“O grande desafio é fazer nascer na nossa Igreja Arquidiocesana a consciência de uma cultura vocacional” começa por sublinhar o Prelado eborense, quando questionado sobre a Pastoral Vocacional na Arquidiocese.
“A vocação tem a ver com a conversão”, sintetiza o Arcebispo de Évora, desenvolvendo de seguida o episódio da conversão de Paulo de Tarso na estrada de Damasco.
“Quando Paulo se encontrou com Jesus ressuscitado, no clarão que diante dele surge e o deixa caído dele mesmo, do seu orgulho, da sua soberba… ele ficou de tal modo fascinado que chegou a dizer “para mim, nada vale se não Cristo”, recorda.
“Este homem, no momento em que se encontra com Cristo, descobre a sua vocação que é ser missionário”, sublinha.
“Por isso, na nossa caminhada cristã, a questão vocacional não é um apêndice, não é uma coisa que faz parte do último capítulo do catecismo… mas sim do ser cristão”, afiança, recordando que “o Papa Francisco nos disse com tanta clareza que não há discípulo e missionário. Há discípulo missionário, ou seja, o discípulo é missionário”. “Por isso, o percurso cristão deve englobar sempre a vocação. O que é que Cristo quer de mim?”, refere, acrescentando “ele encontrou-se comigo na minha estrada de Damasco, abraçou-me e eu tenho de O anunciar, como, onde, e de que modo? Esta busca é tão própria como ser discípulo de Cristo, porque ser discípulo é ser missionário”, afiança.
“Em segundo lugar, a própria liturgia tem sempre uma componente vocacional”, acentua o Prelado, acrescentando que “nós vamos à liturgia buscar a força, o alimento, vamos compartilhar com os irmãos em comunidade, porque temos uma missão a ser vivida na família, no metro quadrado profissional, nas circunstâncias dos compromissos de cidadania, onde o Senhor a cada um colocou para a missão a que chamou”.
“No fundo todo o povo de Deus é vocacionado e chamado”, afiança, sublinhando que devemos ter claro a quem anunciar a beleza de Cristo e discernir como o fazer perante os novos desafios do tempo em que vivemos.
“É neste âmbito que é necessário desenvolver a Pastoral Vocacional na nossa Arquidiocese. Esta Pastoral tem que se inserir no todo da vida cristã: na catequese da infância e da adolescência; na pastoral juvenil e universitária; na pastoral familiar; socio-caritativa; nos dinamismos dos diversos serviços de comunicação; nos movimentos eclesiais; e associações laicais”, afirma.
O Prelado referiu-se à importância de conjugar a dimensão vocacional com o compromisso dos ministérios e serviços eclesiais, acrescentando que “quando digo ministérios, refiro-me em primeiro lugar aos ordenados, aos presbíteros e aos diáconos, e que o Senhor chame também membros desta Igreja para o Episcopado”.
“Depois refiro-me aos Ministérios Instituídos: de leitor, de acólito, de catequista. São ministérios importantes para os quais a Igreja tem exortado. Presentemente, nós instituímos estes ministérios com os seminaristas a caminho do ministério presbiteral e com os candidatos a caminho do diaconado permanente”, aponta, acrescentando que “porém, a Igreja oferece às dioceses a possibilidade do Ministério Instituído de Leitor, Acólito e Catequista, como missões que assumem o mandato da própria Igreja, de ir em nome da Igreja”.
“Para além destes Ministérios Instituídos, já propostos pela Igreja Universal, temos os chamados ‘Serviços Ministeriais’: de acolhimento à Paróquia; da Pastoral da Família; de acolhimento e apoio às minorias étnicas, migrantes e refugiados; de serviço às Obras Missionárias Pontifícias e Infância Missionária; da Pastoral da Pessoa com Deficiência; de serviço aos adolescentes e jovens vocacionados; de leitor; de salmista; de cantor do coro paroquial; de membro do Conselho Económico; de visitador de doentes da Pastoral da Saúde; de acompanhante dos sós, dos frágeis, das pessoas que se sentem abandonadas; e acompanhamento ao luto dos que perdem os seus entes queridos; e de muitos outros possíveis serviços conforme as circunstâncias de cada comunidade”, desenvolve.
“Há idosos na nossa Arquidiocese, no interior, que não recebem visitas e apoios de quase ninguém”, revela, recordando que durante a Visita Pastoral, “eu encontrei-me com eles e estive com eles. Percebo como este serviço poderia vir a ser um ministério instituído na nossa Arquidiocese, não só catequista, não só acólito, não só leitor, mas o ministro da caridade, o ministro que vai ao encontro dos sós em nome do Senhor”, aponta.
Até 1870 a Arquidiocese contava com clero alentejano e ribatejano
Olhando para a história dos últimos decénios da Pastoral Vocacional na Arquidiocese de Évora, o Prelado recorda que até 1870 a Arquidiocese contava com clero alentejano e ribatejano, oriundos de várias localidades. “Évora, Redondo, Borba, Vila Viçosa, Estremoz, Elvas, Campo Maior, Samora Correia, Benavente, Coruche, entre outras, deram sacerdotes à nossa Arquidiocese”, recorda.
“Entretanto, começaram a faltar e, em 1870, vem o primeiro seminarista que eu encontrei no arquivo do Seminário, curiosamente vindo de Bragança para ajudar o seminário de Évora, que já estava em grande míngua vocacional. Historicamente viviam-se momentos muito difíceis, com o liberalismo e a perseguição ideológica sibilina à Igreja”, lembra.
“Com a vinda de D. Manuel Mendes da Conceição Santos, em 1921, a Arquidiocese de Évora começou uma Pastoral Vocacional ad intra e também extra território arquidiocesano, recebendo jovens da Diocese da Guarda, de Aveiro (então Diocese do Porto), nomeadamente Estarreja, Murtosa, Avanca, Ílhavo… E depois da Diocese de Lamego, através do nosso querido e saudoso padre Carlos Melo, que foi Pároco em Mora, e que trouxe uma quantidade grande de jovens que ainda hoje são padres. Vieram também vocações da Beira Baixa, da zona de Proença-a-Nova e de Castelo Branco bem como de Escusa”, refere, acrescentando que “hoje, essas comunidades não têm vocações para elas, muito menos para compartilhar”.
Perante esta realidade de escassez de vocações, o Arcebispo de Évora explica que “fomos procurar vocações através de um apelo interior que passa pela dimensão missionária em dois aspetos: por um lado, ajudarmos as novas Igrejas que têm dificuldades de formar os seus padres e, por outro lado, a dimensão missionária nesta Igreja Eborense que precisa de padres”.
“Começámos, então, com a experiência antiga, que vem do tempo do saudoso D. José Joaquim Ribeiro, natural de Degolados – Campo Maior, bispo de Timor, que enviou os primeiros timorenses para Évora e para Braga. Foi nesta circunstância que se começaram a formar os primeiros padres timorenses na Arquidiocese de Évora”, refere, recordando também os jovens enviados pelo saudoso D. Basílio do Nascimento, acrescentando que agora vêm jovens timorenses enviados pelos senhores Bispos de Dili, Cardeal D. Virgílio, e de Bacau, D. Leandro.
“Depois vieram jovens da Diocese de Ondjiva e de Menongue, enviados por D. Pio e D. Leopoldo, respetivamente, em Angola, sendo que temos este ano a alegria da ordenação dos diáconos Genitório e Tomé, que nos são tão próximos, porque aqui fizeram a filosofia e a teologia, estando já integrados há vários anos na comunidade do Seminário”, refere.
“Mais recentemente, de Moçambique, a minha terra natal, da Diocese de Tete, o Bispo senhor D. Diamantino envio o Padre Ananias, que está a formar-se em direito canónico, na Universidade Católica de Lisboa, e apoia a paróquia de Samora Correia”, revela, acrescentando que “também de Cabo Verde, o senhor D. Ildo, bateu à porta e fez uma proposta de trabalharmos juntos a nível missionário”.
“Temos também uma riqueza enorme que é o Seminário Redemptoris Mater. Este ano pastoral tivemos a alegria da ordenação do Carlos Corrales, que vai ser Pároco, em Borba”, refere, sublinhando que se trata de “um Seminário com um carisma próprio, com uma radicalidade de vida exigente e que, acreditamos, que é um dom e já é uma bênção para a nossa Arquidiocese, do qual já foram ordenados quatro presbíteros: Padres Alessandro, Rodrigo, Jorge e Carlos”.
“Para fazer crescer a presença dos Carismas, sobretudo da dimensão do serviço, foram convidadas a Comunidade Canção Nova, a Comunidade Sementes do Verbo e a Ordem dos Clérigos Regulares (Teatinos)”, revela o Prelado, acrescentando que “surge agora a possibilidade de se constituir em Évora, por pedido dos responsáveis maiores dessas comunidades e ao mesmo tempo por acolhimento da Arquidiocese, Residências de Formação Sacerdotal da Comunidade Canção Nova, da Comunidade Sementes do Verbo e dos Padres Teatinos”.
“Os Salesianos, connosco há cinquenta anos, continuam com a sua Comunidade de Formação Sacerdotal, aos quais se juntam os jovens do Seminário Redemptoris Mater e do Seminário Nossa Senhora da Purificação, que recebe jovens das dioceses da Província Eclesiástica, do Algarve, de Beja e de Évora, e daquelas dioceses que eu referi. Temos ainda um jovem enviado pela Diocese do Funchal”, explica o Arcebispo de Évora.
“Todas estas presenças são para nós uma alegria que nos brota da experiência da comunhão do ser Igreja Católica! Mas eu desejava que esta possibilidade que vivemos, fosse sobretudo um despertar vocacional para as vocações naturais da nossa Arquidiocese, porque nós precisamos de eborenses”, apela, acrescentando que “estes jovens das comunidades que referi têm um estatuto assumido: um dia serão padres durante cinco anos na Arquidiocese, alguns podendo renovar o seu tempo, e no caso de Menongue, por três anos apenas, porém regressarão às suas dioceses. Se deste modo contribuem para a Arquidiocese que os formou, o maior dom que nos poderia proporcionar seria despertar nas nossas Paróquias a cultura vocacional que levaria aos ministérios ordenados, instituídos e aos serviços ministeriais”.
“Precisamos de uma pastoral vocacional que desperte e acompanhe”
“A presença destes jovens é dom muito grande, mas nós precisamos de ter o nosso clero local. E aqui começa a dificuldade da Pastoral Vocacional”, refere, sublinhando que “precisamos de uma Pastoral Vocacional que desperte e acompanhe”.
“Os eventos são pontos de partida ou pontos de chegada festivos e celebrativos, de uma caminhada feita. São momentos de despertar”, recorda o Prelado, sublinhando que “se torna muito importante o acompanhamento pessoal de cada um dos jovens, rapaz ou rapariga, que se sente chamado a ser consagrado à missão a tempo inteiro”.
“Porque os consagrados de clausura também são missionários pela oração; os casais, o matrimónio, são missionários na família, no testemunho de Cristo vivo no meio do mundo; os leigos empenhados na Igreja são missionários, como são os religiosos, como são os sacerdotes, como são os diáconos permanentes, como são todos os Institutos, Congregações e Ordens religiosas, como são os padres e os bispos. Importa que a Pastoral Vocacional não seja restrita a Padres e Religiosos, mas abrangente a todas as formas de vida cristã, colocando nelas o gérmen vocacional”.
Neste desafio da Pastoral Vocacional, nas nomeações para o Ano Pastoral 2025-2026, o Arcebispo de Évora explica que foram nomeadas equipas específicas, constituídas por um sacerdote e uma religiosa, para cada Zona Pastoral da Arquidiocese – Leste, Oeste e Centro/Sul.
“Estas três grandes regiões, têm duas pessoas indicadas, um sacerdote e uma religiosa, para fomentarem esta cultura vocacional e trabalharem no acompanhamento das vocações. Ali, na proximidade, o mais possível, nas paróquias, podermos encontrar a semente da vocação, porque ela certamente existe. Deus não falta com as vocações ao seu povo”, afiança, acrescentando que “essa semente precisa de ser descoberta e depois, no seu amadurecimento, precisa de ser acompanhada. O acompanhamento é desafiante porque exige a presença constante, a disponibilidade, uma capacidade ilimitada de respeito, como é o respeito de Deus por cada pessoa. Um saber acompanhar a pessoa no silêncio, com a pessoa a sentir-se aceite e amada como é”.
“Uma caminhada vocacional é irrepetível, não há uma igual à outra. E é necessário que a pessoa que acompanha seja capacitada de grande maturidade. Por isso, temos também de cuidar muito daqueles que fazem este acompanhamento, nomeadamente, os catequistas, os responsáveis do escutismo, dos professores de EMRC, dos animadores de grupos de adolescentes e jovens e sobretudo dos Párocos e Diáconos”.
Esta exigência formativa requer empreendimento e atenção, porque a Pastoral Vocacional não se trata de um proselitismo, de convencer ninguém a ser padre ou freira ou missionário ou consagrado”, explica, acrescentando que “se trata de perceber a existência de gérmen e de ADN que por si cresce na liberdade e identidade de cada pessoa.”
“Este trabalho de formação de acompanhantes vocacionais bem como de alguns eventos de carácter vocacional a nível diocesano é tarefa do Departamento da Pastoral Vocacional”, refere.
“Claro que o Senhor, ao conceder o dom da vocação, é irrepetível em cada pessoa. E, por isso, os carismas que concede a cada pessoa para o serviço do povo de Deus. É neste caminho eclesial que nos situamos na Pastoral Vocacional também na nossa Arquidiocese”, conclui D. Francisco Senra Coelho.
Texto de Pedro Miguel Conceição
