
SÃO FRANCISCO DE ASSIS: OITO SÉCULOS DE EVANGELHO, FRATERNIDADE E PAZ
Mensagem do Arcebispo de Évora por ocasião do VIII Centenário do Trânsito de São Francisco de Assis
Caríssimos irmãos sacerdotes e diáconos, estimados consagrados e consagradas, seminaristas, irmãos e irmãs da Ordem Franciscana Secular, membros de toda a Família Franciscana, agentes pastorais, jovens e fiéis leigos desta nossa Arquidiocese de Évora: a todos vos saúdo fraternalmente, com estima, amizade e comunhão em Nosso Senhor Jesus Cristo.
1. A Família Franciscana celebra, nestes dias, de modo particularmente solene, o Trânsito de São Francisco de Assis e, no dia 4 de outubro, a sua festa litúrgica, ocasião particularmente significativa para recordar a passagem deste mundo para a Casa do Pai daquele que fez do Evangelho a regra concreta da sua vida. Nesta efeméride não se evocam apenas os últimos momentos de Francisco; mas contempla-se o termo de uma existência inteiramente identificada com Jesus Cristo, marcada pela radicalidade da pobreza evangélica, pela fraternidade, pela paz, pela proximidade aos mais pequenos e por uma profunda capacidade de reconhecer em toda a criação a obra do Criador.
Neste ano de 2026, esta celebração reveste-se de uma importância muito especial. Assinalamos o VIII Centenário do Trânsito de São Francisco de Assis, ocorrido a 4 de outubro de 1226. Oito séculos depois, a sua vida continua a falar com surpreendente atualidade ao coração da Igreja e do mundo, recordando-nos a força desarmada do Evangelho, a urgência da paz, o valor da fraternidade e a necessidade de uma relação reconciliada com a criação.
O Santo Padre, o Papa Leão XIV, quis associar-se de modo particular a este centenário. Na Carta dirigida, a 7 de janeiro de 2026, aos Ministros Gerais da Conferência da Família Franciscana, por ocasião da abertura do VIII Centenário da morte de São Francisco, convidou toda a Igreja a acolher de novo a sua mensagem de paz e fidelidade evangélica. Poucos dias depois, a Penitenciaria Apostólica, por vontade do Santo Padre, publicou o Decreto que instituiu um Ano especial de São Francisco, a decorrer de 10 de janeiro de 2026 a 10 de janeiro de 2027, acompanhado pela concessão de indulgência plenária nas condições habituais. Não se trata, portanto, apenas de recordar uma figura extraordinária do passado, mas de deixar que o seu testemunho interpele novamente a vida cristã do nosso tempo.
2. Para nós, Igreja de Évora, esta celebração tem um significado muito particular. A presença dos filhos de São Francisco entre nós é quase tão antiga como a própria restauração da Diocese. A tradição histórica situa em 1224 a chegada dos primeiros franciscanos a Évora, quando São Francisco ainda vivia. Desde então, a Família Franciscana foi-se tornando parte da história religiosa, espiritual, cultural e social destas terras.
Antes de Évora ser elevada a Arquidiocese, os franciscanos já anunciavam o Evangelho no nosso território, acompanhavam as populações, acolhiam os pobres e os peregrinos, assistiam os doentes e procuravam levar às cidades, vilas e aldeias a simplicidade e a alegria do espírito evangélico. Quando, em 1540, a antiga Diocese de Évora foi elevada à dignidade metropolitana, esta presença encontrava-se já profundamente enraizada na vida desta Igreja.
Falar da história da Igreja eborense é, por isso, falar também da marca impressa pela Família Franciscana. Essa memória permanece bem visível em vários templos espalhados pela Arquidiocese, nomeadamente na cidade de Évora, na sua Igreja de São Francisco, coroa dessa presença secular. Mas não ficou apenas confinada à cidade. Em Vila Viçosa, a tradição franciscana conheceu particular desenvolvimento com a Província da Piedade, que aí teve a sua origem, no ano de 1500, e que viria a fundar treze conventos no Alentejo, oito dos quais no território da atual Arquidiocese de Évora. Estes conventos constituíram importantes centros de evangelização e de irradiação espiritual e cultural, tanto nos meios urbanos como nas terras mais rurais.
Também as filhas de Santa Clara de Assis ocuparam um lugar decisivo na nossa história. Pela vida contemplativa, pela oração e pela oferta silenciosa das suas vidas, ajudaram durante séculos a sustentar espiritualmente a missão da Igreja. E não podemos esquecer a Ordem Terceira, hoje Ordem Franciscana Secular, que permitiu e continua a permitir que muitos homens e mulheres vivam no meio do mundo a espiritualidade de São Francisco: nas famílias, nas profissões, nas paróquias e no serviço aos irmãos. Em Évora nomeadamente nos historicamente incontornáveis conventos de Santa Clara e de Santa Helena do Monte Calvário.
Os séculos trouxeram mudanças profundas. Alguns conventos desapareceram, várias comunidades foram extintas e muitos edifícios conheceram novos destinos. O essencial, porém, permaneceu entre nós: uma espiritualidade, uma forma de estar na Igreja e uma maneira própria de olhar para os outros e de viver o Evangelho. A religiosidade popular alentejana conserva ainda marcas da evangelização franciscana, nomeadamente na vivência da noite de Natal, do tempo da Quaresma e da Semana Santa.
3. A tradição franciscana ensina-nos a valorizar a simplicidade, a proximidade, a fraternidade, a atenção aos pobres e o cuidado por aqueles que facilmente ficam esquecidos. Ensina-nos também que o anúncio do Evangelho não se faz apenas com palavras. Faz-se, antes de tudo, com a vida. É desta forma de viver que nascem também o compromisso com uma ecologia integral, a promoção da paz e a abertura ao diálogo ecuménico e inter-religioso.
Eis a experiência que Francisco foi tirando da sua vida e dando com o seu testemunho, ao cumprir o mandato de Jesus: “Francisco reconstrói a Minha Igreja”. Esta é uma das grandes lições que São Francisco continua a oferecer ao nosso tempo. Vivemos numa sociedade marcada por muitas divisões, por diversas formas de solidão e por uma indiferença que tantas vezes nos afasta uns dos outros. Há famílias em dificuldade, idosos que vivem sós, jovens que procuram um horizonte para a sua vida e tantas pessoas que se afastam da Igreja ou deixam de encontrar nela uma casa. Francisco recorda-nos que, antes de falar, é preciso aproximar-se; antes de ensinar, é preciso escutar; antes de pedir, é preciso servir.
Também a nossa Arquidiocese precisa deste espírito. Às portas de iniciarmos, no próximo dia 5 de outubro, o novo Ano Pastoral 2026-2027, sob o lema «Comunidade Cristã: Fidelidade e Renovação», o testemunho de São Francisco ganha para nós uma particular oportunidade. A fidelidade e a renovação das nossas comunidades cristãs não podem ficar apenas nas palavras ou nos projetos. Renovar é voltar ao Evangelho, reencontrar a alegria da fé, aproximar-se das pessoas, reconstruir a fraternidade onde ela se encontra ferida e fortalecer a comunhão e a corresponsabilidade na vida das comunidades. Francisco compreendeu isto de forma admirável: toda a verdadeira renovação começa no coração, no encontro com Cristo e na disponibilidade para reconhecer no outro um irmão. Só assim será possível edificar comunidades cristãs na fidelidade e renovação.
4. Por ocasião deste Jubileu, desejo dirigir uma palavra muito especial de gratidão a toda a Família Franciscana presente na Arquidiocese de Évora e, de modo particular, à comunidade de frades da Ordem Franciscana dos Capuchinhos que, neste ano, chegou à Unidade Pastoral de Samora Correia. Em nome da nossa Igreja, agradeço o testemunho dado ao longo de tantos séculos: aos frades que anunciaram e testemunharam o Evangelho nesta terra; às religiosas e contemplativas que sustentaram a missão da Igreja com a sua oração; aos irmãos e irmãs da Ordem Franciscana Secular, pela presença fiel no meio do nosso povo; e a todos aqueles que continuam hoje a encontrar em São Francisco uma escola de Evangelho e um caminho de santidade.
A história franciscana na Igreja de Évora não pertence apenas ao passado. Continua sempre que alguém escolhe reconciliar em vez de dividir, servir em vez de se servir, aproximar-se em vez de passar ao lado, cuidar em vez de abandonar. Continua sempre que uma comunidade se abre, acolhe e se faz próxima.
Na noite da sua passagem para o céu, Francisco quis ainda escutar o Evangelho. No fim da vida, regressou à Palavra que tinha orientado toda a sua existência. Talvez seja também este o apelo que hoje nos deixa: voltar sempre ao Evangelho, com simplicidade, com verdade e com confiança.
Que São Francisco de Assis continue a acompanhar a Família Franciscana e toda a nossa Arquidiocese. Que nos ajude a crescer em comunhão, simplicidade e espírito missionário; que nos ensine a aproximar-nos dos pobres, a acolher quem se sente só, a construir a paz e a cuidar da criação que Deus confiou às nossas mãos.
Que Nossa Senhora da Conceição, Padroeira da nossa Arquidiocese e tão venerada ao longo da história Franciscana, interceda por nós e nos ajude a permanecer fiéis a Jesus Cristo e ao Evangelho.
A todos vos abraço na Paz de Cristo e, com São Francisco, desejo-vos: Paz e Bem!
Évora e Casa Arquiepiscopal, 1 de outubro de 2026
+ Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora
