Na Fundação Eugénio de Almeida, a apresentação da Encíclica do Papa Leão XIV reuniu Igreja e ciência num mesmo diálogo sobre o futuro da humanidade. Entre alertas sobre o “poder invisível” dos algoritmos, a defesa da dignidade do trabalho e um apelo à esperança no ser humano, o debate sublinhou a necessidade de discernimento num tempo de mudança de época. O Arcebispo de Évora encerrou a sessão com uma defesa firme do “humanismo autêntico”.
Rosário Silva
Deverá o ser humano temer a inteligência artificial (IA) ou reconhecer nela apenas mais um capítulo do seu próprio caminho? A pergunta atravessou, em Évora, uma sessão pública dedicada à encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, promovida pelo Departamento de Comunicação da Arquidiocese de Évora e que encheu o auditório da Fundação Eugénio de Almeida.
Mais do que uma apresentação, o encontro tornou-se um espaço de leitura cruzada entre fé, tecnologia e sociedade, com duas vozes centrais a ajudarem a interpretar o alcance do texto: o padre jesuíta P. Miguel Gonçalves Ferreira e o engenheiro Bernardo Caldas, sob moderação da jornalista Leonor Centeno.
Para o jesuíta Miguel Gonçalves Ferreira, a primeira surpresa está no próprio gesto do documento: a antecipação. A Encíclica, sublinhou, não espera que os efeitos da inteligência artificial se consolidem para refletir sobre eles: entra no debate “desde o princípio”.
Trata-se, na sua leitura, de um texto que assume uma “mudança de época” e que se apresenta como síntese de mais de um século de Doutrina Social da Igreja (DSI), desde Rerum Novarum. Mas não como repetição: como releitura viva de um mundo em transformação.
A inteligência artificial surge, neste enquadramento, como fenómeno simultaneamente promissor e ambíguo. “Não é neutra”, sublinha o sacerdote, destacando a preocupação do Papa com uma tecnologia que pode tanto servir o bem comum como acentuar desigualdades e formas de dominação invisíveis.
Entre as imagens que atravessam o documento, o também responsável pela Pastoral Universitária da Arquidiocese de Évora, destacou duas: a Torre de Babel e a reconstrução de Jerusalém. A primeira, como metáfora de um progresso que pode degenerar em confusão e arrogância; a segunda, como sinal de uma humanidade que se reconstrói na responsabilidade partilhada.
No centro da questão, diz, permanece uma escolha decisiva: a tecnologia está ao serviço das pessoas ou as pessoas tornam-se vítimas da tecnologia?
Algoritmos, poder invisível e liberdade condicionada
Se o olhar teológico abriu o horizonte, o contributo técnico de Bernardo Caldas trouxe o detalhe concreto do funcionamento dos sistemas.
A sua primeira leitura foi de surpresa: a Igreja, disse, não chegou tarde ao debate: chegou antes. E fá-lo com densidade técnica rara em textos deste tipo.
Um dos pontos mais marcantes da encíclica, referiu, é a afirmação de que a inteligência artificial não é “criada”, mas “cultivada”. Ao contrário de outras invenções industriais, o seu funcionamento não é totalmente transparente, nem sequer para quem a desenvolve.
A partir daí, o engenheiro, ligado a estas ‘lides’ da IA, traçou um mapa de riscos: a personalização extrema da informação, os algoritmos que moldam comportamentos, a erosão do espaço comum de debate e a progressiva substituição da mediação jornalística por sistemas automáticos de recomendação.
Nas redes sociais, explicou, o objetivo não é informar, mas manter o utilizador o maior tempo possível. E isso tem consequências: a promoção dos extremos, a perda da moderação e a formação de bolhas informativas.
A isso soma-se um novo risco: a desinformação massificada. Se antes era caro produzir falsidades, hoje basta uma ferramenta acessível para gerar imagens, vozes ou vídeos credíveis. O resultado pode não ser apenas a crença no falso, mas algo mais profundo: a perda generalizada da confiança no real. “Não é que passemos a acreditar em tudo”, resumiu, “é que passamos a não acreditar em nada”.
Trabalho, identidade e o risco da delegação do pensamento
Um dos eixos mais desenvolvidos por Bernardo Caldas foi o impacto da inteligência artificial no trabalho. Ao contrário de previsões apocalípticas ou excessivamente otimistas, o engenheiro recusou garantias absolutas.
Historicamente, lembrou, as revoluções tecnológicas não eliminaram o trabalho, transformaram-no. O desafio atual poderá seguir a mesma lógica — mas com uma diferença: pela primeira vez, são também os trabalhos mais qualificados que entram no campo da automação.
Mais do que substituir empregos, o risco maior pode ser outro: a delegação progressiva do pensamento. O chamado “cognitive offloading”, ou seja, descarregar na máquina o esforço de raciocínio, decisão e síntese. Esse movimento, alertou, pode enfraquecer a capacidade crítica e a construção autónoma de opinião. E não afeta apenas crianças ou estudantes: atravessa toda a sociedade.
Ainda assim, recusou o fatalismo. O trabalho humano, defendeu, não se reduz à execução de tarefas. Há uma dimensão de missão, educativa, relacional, ética, que não é automatizável. Entre o risco de perda de empregos e a possibilidade de libertação do tempo, abre-se um horizonte de redefinição: menos tarefa, mais sentido.
A grandeza do humano como horizonte
No fecho da sessão, D. Francisco Senra Coelho trouxe uma nota distinta, marcada por uma leitura profundamente antropológica e espiritual.
A expressão Magnifica Humanitas, disse, lembra a grandeza do ser humano. Aquele que cria tecnologia, que abre caminhos no conhecimento, na medicina ou na exploração do universo.
Mas essa grandeza, sublinhou, não pode ser esquecida num tempo em que cresce a erosão do humano, o cinismo, a violência e a tentação de fuga para refúgios artificiais.
A inteligência artificial, nesse contexto, não é ameaça existencial, mas mais um degrau no desenvolvimento humano. Tal como o fogo, a roda ou a máquina a vapor, integra uma longa história de progresso.
O risco não está na tecnologia em si, mas na perda do centro: o ser humano. “O homem nunca deixará de ser homem”, afirmou, defendendo um humanismo autêntico, capaz de acreditar na possibilidade de uma civilização de solidariedade e paz.
Entre o espanto e a esperança, deixou ainda um apelo simples: parar, escutar e discernir. Porque, como sublinhou, o mundo contemporâneo é feito de “rotundas sem sinalética e com muitas saídas”.
