Arcebispo de Évora encontrou sinais de renovação num concelho marcado pelo envelhecimento e despovoamento, elogiou o património humano e cultural das comunidades e deixou um apelo ao compromisso da Igreja e das instituições com o futuro do território.
Rosário Silva
Após várias semanas de visita pastoral ao concelho de Viana do Alentejo, o Arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, faz um balanço profundamente marcado pela esperança, pelo acolhimento das comunidades e pela convicção de que, apesar dos desafios demográficos e sociais, o território conserva sinais vivos de futuro.
“A palavra que vence é esperança e é uma palavra que pede outra, que é compromisso”, afirmou o prelado, numa reflexão onde cruzou preocupações com o despovoamento e envelhecimento com sinais concretos de renovação humana, familiar, cultural e espiritual.
Ao longo da visita, D. Francisco percorreu várias localidades e instituições, encontrou-se com autarcas, escolas, misericórdias, associações, comunidades religiosas e populações locais, deixando-se impressionar pela capacidade de resistência e de preservação identitária das gentes de Viana do Alentejo, Alcáçovas, Aguiar, Oriola e São Bartolomeu do Outeiro.
“O que encontrei foi um povo festivo, um povo profundo nos seus sentimentos religiosos”, resumiu.
Entre os aspetos mais valorizados pelo arcebispo surge a riqueza cultural e artesanal do concelho, vista não apenas como memória do passado, mas como elemento essencial da identidade e da sobrevivência do território.
Em Viana do Alentejo destacou a tradição oleira, lamentando o desaparecimento progressivo deste saber ancestral. “Viana do Alentejo é uma terra muito marcada pelo barro e neste momento a olaria já só conserva um oleiro”, observou, elogiando o esforço da autarquia para preservar esta herança cultural. “É um esforço meritório, que vem mesmo das raízes deste povo”, afirmou.
Nas Alcáçovas, o destaque foi para a arte chocalheira, classificada como património imaterial da humanidade pela UNESCO, experiência que o próprio arcebispo confessou ter descoberto verdadeiramente durante esta visita pastoral. “Visitar a manufatura, o trabalho real, o forno, o timbre, o acerto sonoro do chocalho, é uma coisa que impressiona e que ensina muito”, disse, admitindo que desconhecia “a capacidade, o conhecimento e a técnica” exigidos por esta arte.
Também o cante alentejano foi apontado como uma das grandes riquezas culturais da região, integrando uma identidade coletiva que D. Francisco considera essencial preservar e valorizar.
Outro dos grandes eixos da reflexão do arcebispo centrou-se no Santuário de Nossa Senhora d’Aires, que descreveu como um espaço de enorme importância espiritual, cultural e humana para todo o Alentejo. “Não podemos deixar um outro valor enorme que congrega, que é a Senhora d’Aires”, afirmou.
D. Francisco sublinhou o impacto da tradicional peregrinação a cavalo ao santuário, que reúne centenas de cavaleiros vindos de diferentes zonas do Alentejo e também da região de Setúbal. “Entender o que significam quatro ou cinco dias de viagem pelo campo, a cavalo, com carroças, com tudo isto que exige segurança e cuidado, é de facto impressionante”, referiu.
O Prelado destacou ainda o investimento realizado na recuperação e valorização do santuário, que considera hoje um espaço multifuncional de acolhimento, encontro cultural e convivência familiar. “O Santuário da Senhora d’Aires conta com uma estrutura muito boa de acolhimento, útil, bem elaborada e bem cuidada”, disse.
Ao longo da visita pastoral, D. Francisco encontrou também uma realidade social fortemente marcada pelo envelhecimento, destacando o papel das misericórdias e das instituições de apoio social. Deixou palavras particularmente elogiosas para as Santas Casas da Misericórdia de Viana do Alentejo e das Alcáçovas, sublinhando o “esforço hercúleo” desenvolvido no apoio aos idosos. “Estamos a falar em casas da Misericórdia com uma dimensão de grande acolhimento de idosos”, afirmou, reconhecendo as dificuldades económicas e as exigências crescentes impostas às instituições sociais.
No caso de Viana do Alentejo, destacou também o trabalho desenvolvido pelo provedor da Misericórdia, valorizando não apenas a dimensão assistencial, mas também a aposta cultural e patrimonial da instituição. “Faz da Santa Casa da Misericórdia de Viana do Alentejo um espaço de grande sentido e grande dignidade”, declarou.
Apesar das dificuldades associadas à desertificação e ao envelhecimento populacional, o arcebispo afirma ter encontrado sinais concretos de renovação que o surpreenderam positivamente. “Gostei de ver as escolas com bastantes crianças. Encontrei, surpreendentemente, uma nova geração a despontar”, afirmou.
D. Francisco falou mesmo numa “primavera” que começa a fazer-se sentir no concelho, referindo o aumento da procura de habitação, a chegada de novos moradores e alguns sinais de crescimento da natalidade. “Não há casas para alugar ou comprar, os jovens casais têm dificuldade em encontrar casa. Este é um sinal”, observou.
Destacou ainda o aparecimento de novas respostas educativas e sociais, nomeadamente em Aguiar, onde visitou uma instituição cristã dedicada à infância e juventude que está a crescer rapidamente. “Parece-me que, lentamente, com esforço, sendo Viana um território com tendência de despovoamento, começa a surgir um fenómeno novo”, disse.
Também no plano pastoral encontrou indicadores encorajadores: batismos, primeiras comunhões, crismas e catequese com dezenas de crianças e jovens. “Tivemos seis primeiras comunhões nas aldeias mais pequenas. Há sinais interessantes”, afirmou. D. Francisco disse ainda ter ficado particularmente feliz por encontrar “casais novos com crianças” em comunidades tradicionalmente envelhecidas.
Na reta final do balanço, o arcebispo deixou uma palavra de gratidão às populações e instituições do concelho pelo acolhimento recebido ao longo da visita pastoral. “A Câmara Municipal de Viana foi inexcedível, as juntas de freguesia quiseram todas marcar um acolhimento significativo e caloroso ao bispo”, afirmou. Destacou ainda o ambiente de proximidade e partilha vivido nas diferentes comunidades. “Nenhuma visita terminou sem uma grande festa, com a refeição partilhada, que as pessoas quiseram fazer juntando o que tinham em casa.”
E concluiu com uma frase simples, mas carregada de significado e afeto: “Talvez seja um sinal para nós voltarmos.”
