As três Irmãs Beneditinas de Oshikuku, uma congregação africana em missão na Arquidiocese de Évora, ficaram com o rés-do-chão de sua casa inundado nas cheias de Alcácer do Sal, “uma situação difícil”, e destacam o apoio da população.
“Foi uma situação um pouquinho difícil. Ficamos preocupadas, como toda a gente, ver a água subir com a incerteza quanto ao que poderia acontecer, na verdade, houve momentos de ansiedade, foi algo que não se consegue explicar. Nunca vimos, e a água subia cada vez mais, subia cada vez mais”, disse a irmã Eunique, esta quinta-feira, à Agência ECCLESIA.
Num dia (12 de fevereiro) de novos avisos de subida do caudal do Rio Sado em Alcácer do Sal, a religiosa angola, que «nunca» viveu uma situação destas, conta que alguns alcacerenses recordaram que há “anos também houve cheias, mas não se comparam com estas, porque “o nível de água foi muito elevado”.
“Felizmente, conseguimos manter a calma e enfrentar tudo da melhor forma possível. Não tenho muitos anos, tenho apenas 31 anos, e nunca vi coisa igual. É verdade que temos tido cheias no meu país, na minha região, mas igual a esta nunca vi”, acrescentou.
As três Irmãs Beneditinas de Oshikuku vivem nos dois primeiros andares de uma casa de três pisos, e as cheias em Alcácer do Sal inundaram o rés-do-chão, “as partes afetadas foram” o quarto de uma das religiosas, a garagem da paróquia, que serve de arrumos, e uma parte da loja solidária, onde conseguiram aproveitar os alimentos.
A irmã Eunique lamenta que do quarto conseguiram “tirar a roupa, mas os móveis ficaram e tudo boiou”, e explica que não ficaram “fechadas em casa”, porque têm outra entrada, num piso superior, que dá acesso ao largo da igreja.
“Não houve nada que nos impedisse a continuar os nossos trabalhos normais, as irmãs que estão na Santa Casa pediram um dia, para vermos como é que podemos fazer”, salientou a entrevistada, que está no primeiro ano de Ciências da Educação, na Universidade de Évora.
Na porta da casa, como medida de segurança, foram colocados sacos, pelas autoridades e “pessoas que se voluntariaram”, que “ajudou muito, mas, é a natureza, a força de Deus é maior”: “Tentámos, mas, infelizmente, não conseguimos impedir que a água entrasse em casa”.
A irmã Eunique realça que “os fiéis da paróquia permaneceram até mesmo em momentos em que já não era possível fazer mais nada”, a não ser “esperar e observar”, mas ficaram ali “apesar da situação difícil”, por isso, sentem-se profundamente gratas “por toda a ajuda, cuidado e união demonstrados”.
“Desde o início tivemos sempre muita gente ao nosso lado, pronta a ajudar no que fosse preciso, e quero também destacar a enorme generosidade e solidariedade do povo alcacerense, muitos jovens e adultos passaram de porta em porta para perceber quem precisava de mais ajuda, e nós fomos também beneficiadas por essa onda de apoio.”
Esta comunidade das Beneditinas de Oshikuku tem três religiosas, duas angolanas da Diocese de Ondijiva, e uma namibiana, e duas irmãs estão a correr mundo porque foram apanhadas pelos fotojornalistas a “observar” o nível da água na rua: numa das fotografias as religiosas estão nas janelas da porta do rés-do-chão, com água “ao nível dos joelhos, dentro de casa, mais tarde a água estava mesmo fundo”, noutra foto, a irmã Eunique está na varanda do primeiro andar, a ver o nível das águas que já tinha começado a diminuir.
“Foi algo impactante, não podemos dizer que nos entristecemos com a natureza, temos de aceitar, mas na verdade isso fica na história, porque nunca vimos e, fica na história que aconteceu isto, e não foi fácil, mas conseguimos superar”, destacou a estudante universitária.
Aos jornalistas, o comandante sub-regional de Emergência e Proteção Civil do Alentejo Litoral, Tiago Bugio, explicou que Alcácer do Sal registou quatro inundações nas últimas semanas, a primeira no dia 28 de janeiro, e a mais grave no dia 5 de fevereiro.
As Irmãs Beneditinas de Oshikuku de Alcácer do Sal quiseram também, “neste momento tão difícil”, deixar uma palavra de força e esperança para “todas as vítimas” das cheias.
A irmã Eunique salienta que “a esperança deve ser maior do que o medo, a fé maior do que a angústia”, e adianta que já andaram pelas ruas a “saudar as pessoas, a encorajar as pessoas, a dar coragem, força”, e encontraram algumas “angustiadas a tentar tirar as coisas que estragaram dentro das lojas”, mas também “a superar”. “Que este tempo de provação seja um tempo de união, de fé e solidariedade, não podemos virar as costas uns aos outros, nem tão pouco a Deus, apesar do que aconteceu, do que está acontecendo, e talvez venha a acontecer novamente, não precisamos desanimar, precisamos continuar a estender a mão, a apoiar, a consolar e a reconstruir juntos”, concluiu. |
Carlos Borges – Agência ECCLESIA
![]() A Congregação das Irmãs Beneditinas de Oshikuku, com mais de mais de 200 religiosas, tem a sua origem no norte da Namíbia, em África, e estão presentes em mais dois países, Angola, com três comunidades, e Portugal, onde a segunda comunidade está a ser formada na Diocese de Beja, na Azinheira dos Barros. Em Alcácer do Sal, o arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, presidiu à celebração de abertura canónica da casa destas religiosas, a 2 de dezembro de 2023, na igreja matriz, a igreja de Santa Maria do Castelo. As três irmãs prestam o seu “serviço pastoral” nas paróquias e comunidades da Unidade Pastoral de Alcácer do Sal: “em Alcácer, Santiago, Palma, Vale de Guizo e Santa Maria do Castelo”. “Como o nosso carisma é viver em comunidade, ajudar os órfãos e, claro, evangelizar, em Portugal colaboramos na Santa Casa da Misericórdia, visto que há mais idosos do que crianças órfãs ou sem-abrigos, nos lares das Aurpicas e na Santa Casa, onde ficamos mais de metade do nosso tempo a ajudar em vários serviços, na alimentação, na higiene, e tudo mais”, para além de rezarem, explicou a irmã Eunique, que está na congregação “há mais de 10 anos”. |

