XIX Jornadas do Clero das Dioceses
PROVÍNCIA ECLESIÁSTICA DE ÉVORA
Síntese final
- O Instituto Superior de Teologia de Évora (ISTE) organizou, entre os dias 19 e 22 de Janeiro de 2026, as XIX Jornadas de Atualização do Clero da Província Eclesiástica de Évora (Évora, Beja e Algarve), a qual contou também com a participação de Sacerdotes das Dioceses de Setúbal, Braga e Viana do Castelo. O tema das Jornadas foi: «Inteligência Artificial. Desafios emergentes de uma Sociedade Pós-Cristã. Crepúsculo ou Aurora?” O local escolhido foi o Hotel Alísios, em Albufeira, Diocese do Algarve, onde têm decorrido os últimos encontros. Estavam inscritos cerca de 80 Presbíteros, Diáconos e Seminaristas Maiores, bem como os nossos Bispos: D. Francisco Senra Coelho (Évora), D. Manuel Quintas (Algarve) e D. Fernando Maio de Paiva (Beja). Em representação da Nunciatura Apostólica participou Mons. José António Teixeira, e esteve também presente e interveio como conferencista, o Decano da Faculdade de Teologia da Universidade Pontifícia de Salamanca (UPSA), Prof. Román Angel Pardo Manrique;
- As duas primeiras intervenções, nos dias 19 e 20, foram da responsabilidade de Mons. Renzo Pegoraro, Presidente da Pontifícia Academia para a Vida;
- A primeira conferência (19/1) teve como tema: “IA: a nova Caixa de Pandora?”. Mons. Pegoraro, Sacerdote incardinado na Diocese de Pádua (Itália), mas também Médico com especialização em Bioética, traçou um breve historial da IA, cujos princípios remontam aos anos 50 do Século passado. Depois de apresentar algumas vantagens inegáveis da IA, nomeadamente quanto à rapidez nas respostas de carácter técnico, na criação de algoritmos, nas correlações estabelecidas; e no campo da Medicina, diagnósticos, prognósticos, e terapias, que a tornam benéfica. Há, contudo, muitas questões que se nos colocam, uma vez que à IA não interessa a verdade, mas a probabilidade e os cálculos; não interessa a corporeidade, nem a relação, os sentimentos ou as emoções, mas tão só a lógica. Permanece, pois, em muitos âmbitos, uma espécie de “opacidade sistémica”. Têm sido, por isso, muitas as iniciativas que têm congregado as diversas Religiões e Igrejas, o Mundo Universitário e os Cientistas, as grandes empresas do Mundo Digital. Com efeito, há uma questão incontornável que se nos colocará cada vez com mais acuidade: Que Humanismo está subjacente à IA? Quem pode gerir este poder ainda em grande parte desconhecido? Até que ponto se respeitará a nossa privacidade e segurança? Parece emergir, contudo, um consenso transversal em torno a alguns valores éticos inegociáveis: “Transparência”; “Inclusão”; Responsabilidade”; Imparcialidade”; Fiabilidade”; “Segurança” e “Privacidade”. São também já significativos os documentos publicados pela Igreja sobre este tema, merecendo particular destaque a Nota dos Dicastérios para a Doutrina da Fé e para a Cultura e Educação, “Antiqua et Nova”, de Janeiro de 2025, onde se procura estabelecer a relação entre a IA e a Inteligência Humana, e oferecer directrizes éticas e antropológicas, salientando o seu uso em prol do bem comum, e apelando ao respeito da dignidade humana;
- Na segunda intervenção (20/1), subordinada ao tema: “IA. Desafios e oportunidades para o anúncio do Evangelho”, Mons. Pegoraro recordou, antes de mais, a defesa que o Papa Francisco fez da necessidade de uma Ética para a IA, ou seja, uma Algorética, por oposição à Algocracia, que se procura impor, de forma ideológica. O Papa Leão XIV em várias ocasiões também recordou que a Igreja sempre teve a capacidade de ajudar a discernir o bem do mal; hoje, uma vez que a IA tem gerado uma “nova geografia da experiência das pessoas”, esta poderá ser de novo uma das suas missões. Lembrou, a este propósito, a criação em 2018 de um grupo de trabalho, pela Pontifícia Academia para a Vida, com o objectivo de reflectir estas questões. Citou de novo a Nota Antiqua et Nova, e insistindo, de novo, em que, que as preocupações éticas quanto ao uso da IA abrangem não só as Religiões e as Igrejas, mas também os Cientistas e as grandes Empresas Tecnológicas. Disso é expressão igualmente a Declaração “Apelo de Roma” (Rome Call), pela Ética na IA, de 28 de Fevereiro de 2020. Prosseguiu a sua intervenção, reconhecendo que para a Igreja há vantagens no uso da IA, por exemplo em âmbitos como a Oração ou a Doutrina, e lembrou, a este propósito, a existência de Chatbots e Aplicações fiáveis, insistindo, porém, no perigo da perda da relação humana, da criatividade, e no surgimento de dependências, sobretudo, em pessoas mais frágeis e manipuláveis. Se for bem utilizada, a IA poderá ajudar igualmente em âmbitos como a solidariedade, a construção do bem comum e a comunhão com Deus. Não nos iludamos, contudo: a relação entre as pessoas é fundamental, e a corporeidade uma exigência. Além do mais, importa afirmá-lo, o ser humano é, do ponto de vista antropológico, uma unidade: Corpo, Alma, Espírito. Não somos só inteligência, embora ela (IA) possa constituir um instrumento complementar, mas nunca substitutivo, da inteligência humana. A IA exige, por isso, uma clara aposta na formação do Clero e dos Leigos mais comprometidos, uma espécie de “Alfabetização”, podendo depois abranger áreas como a Universidade e a Investigação, e, por fim, as Empresas e a Política. Urge apostar, de igual modo, no desenvolvimento de um espírito crítico, na coragem do confronto e do diálogo, e num trabalho de cooperação holística, transversal. No diálogo que se seguiu, Mons. Pegoraro alertou ainda para os perigos da perda da confidencialidade e do sigilo, se a IA for mal utilizada. Espera-se, pois, da Igreja que ela também possa ser, como tem sido ao longo das transições epocais, uma fonte de referência;
- A tarde do dia 20 de Janeiro foi preenchida com um Painel Temático, que tocou três temas de grande acuidade eclesial. Primeiro: “Sinodalidade: Renovação pessoal, eclesial e estrutural” (Pe. Manuel Barbosa, Secretário da CEP); Segundo: “A mutação Sócio-religiosa da Europa e de Portugal. Babel ou Pentecostes?” (Prof. Alfredo Teixeira, UCP); e Terceiro: “Espiritualidade Presbiteral e «espiritualidades paralelas». Complementaridade ou substituição?” (Pe. Adelino Ascenso, SMBN). Na primeira intervenção, o Pe. Manuel Barbosa, que entregou aos presentes um texto, elaborado pela Comissão Sinodal da CEP, recordou o “significado e dimensões da sinodalidade”, lembrando que ela é “um caminho de renovação espiritual e de reforma estrutural, para tornar a Igreja mais participativa e missionária, isto é, para a tornar mais capaz de caminhar com cada homem e mulher irradiando a luz de Cristo.” Nas dimensões da renovação, insistiu na “Centralidade do Espírito Santo”, pois só assim a Igreja poderá ser: uma “Igreja da Escuta”; do “acolhimento e da misericórdia”; da “comunhão e serviço”; “corresponsável e participativa”; “centrada em Cristo”; “missionária”; e que “aprende em comunidade.” De seguida, apresentou uma síntese do caminho sinodal feito em Portugal e nas três Dioceses da Província Eclesiástica de Évora, salientando o papel do Presbítero no caminho sinodal, enquanto “homem de escuta”; “servo da comunhão”; “animador pastoral”; e “testemunha missionária”. Concluiu a sua intervenção com a apresentação do decálogo: “Igreja sinodal, que dizes de ti mesma? Como somos Igreja sinodal?”. O Prof. Alfredo Teixeira iniciou a sua intervenção utilizando a metáfora de Babel e Pentecostes, insistindo em que na Europa hodierna, o religioso já não é uma “língua comum”, mas antes se integra num “espaço intermédio”, pois, apesar de persistirem ainda sinais de pertença, há cada vez mais liberdade nas escolhas, impondo-se gradualmente um “perfil inclusivista” na aceitação da verdade dos outros. Isto traduz-se numa “dualização” da Religião, uma espécie de “Religião Vigária”, que valoriza a universalidade da experiência religiosa, e aceita a importância da Tradição, mas não lhe reconhece o papel de tutela. A procura de sentido, substitui o que antes se considerava a procura da salvação, e o pólo ético está hoje em tensão com o pólo religioso, pois, pode haver partilha quanto aos valores, mas sem adesão a uma fé concreta. Apesar das dificuldades, há, contudo, sinais emergentes que nos devem interpelar e que podem constituir uma verdadeira “Aurora”. O Pe. Adelino Ascenso traçou o perfil do que deve ser a Espiritualidade Presbiteral: “Cristocêntrica”; “Eucarística” e “Pastoral”. Ao olhar para as nossas Sociedades, afirmou ser forçoso concluir que, numa Sociedade Secularizada, se procura substituir as Religiões Tradicionais por uma Religião não-Religiosa, o que nos obriga a entabular um diálogo franco e aberto com as Espiritualidades emergentes, dentro e fora do Cristianismo. Numa linha de partilha da sua própria experiência pessoal, num Mosteiro Tibetano no Nepal, reconheceu que hoje há muitos “Buscadores de Deus”, e são muitas as respostas de espiritualidades orientais, às quais importa estar atentos, porque elas são um reflexo da sede de Deus do Homem actual, nomeadamente das novas gerações, o que deve interpelar as Religiões institucionais. Importa também olhar com atenção às novas espiritualidades cristãs emergentes, e estar precavidos contra os possíveis exageros. Em jeito de conclusão, deixou-nos um apelo: “Deixemo-nos desassossegar.”;
- A manhã do dia 21 de Janeiro, iniciou-se com uma intervenção do Prof. Román Ángel Pardo Manrique, Decano da Faculdade de Teologia da Universidade Pontifícia de Salamanca, subordinada ao tema: “Desafios da IA à Ética Cristã.” Depois de fazer o enquadramento da IA e de situar alguns dos seus preâmbulos, que a ligam à Bioética, fez-nos recuar até aos anos 40 do Século XX, apresentando-nos três problemas que se nos colocam com acuidade e que tocam também a IA: o Eugenismo; a Eutanásia; e a Identidade do Ser Humano. Estas questões ganham hoje novos e preocupantes contornos, na medida em que os desenvolvimentos da IA nos surpreendem e a tentação do simulacro em que a máquina pode vir a substituir o homem, é grande, e o futuro imprevisível. Pode haver surpresas, pelo que, temos de estar atentos, pois, o ritmo das mudanças acelera constantemente, bem como as próprias definições laicas da IA. O “penso, logo existo”, de Descartes, está na base de muitos dos desenvolvimentos a que hoje assistimos no âmbito da IA, embora possamos incluir outras variantes: “quero, logo existo”; ou “amo, logo existo.” Com efeito, não se pode separar o conhecimento, da vontade e dos sentimentos. A tentação, porém, de reduzir o homem à inteligência, bem como de anular a separação entre este e os animais, persiste e é preocupante. Prosseguindo a sua intervenção, reconheceu que a expressão Inteligência Artificial é equívoca e pouco exacta, na medida em que, de facto, ela parece vir a apresentar-se como uma alternativa à Inteligência Humana, subordinando o Homem à máquina, e podendo depositar nesta, decisões que afectam directamente a sua vida. Prestes a concluir a sua intervenção, voltou a insistir em que, na verdade, pode haver e há benefícios para o Homem, mas é necessária mais Legislação, uma Algorética, um regresso à valorização da Corporeidade, a aposta numa Antropologia que reconheça e afirme a unidade entre Corpo e Alma; e, pelas implicações da IA em todas as áreas da vida das nossas Sociedades, é desejável que se estabeleçam protocolos de cooperação abrangentes e transversais;
- A segunda intervenção desta manhã (21 de Janeiro), foi da responsabilidade do Pe. Peter Stilwell, Sacerdote do Patriarcado de Lisboa, com larga experiência e formação nas áreas que lhe foram propostas: “Diálogo Inter-religioso, Diálogo Ecuménico e Diálogo com os Homens e Mulheres de Boa Vontade. Estratégia, missão ou Evangelho?” Com uma exposição recheada de vivências nestes três âmbitos do Diálogo, traçou-nos um percurso que, no seio da Igreja Católica, nos remete ao Papa S. João XXIII e ao Concílio Vaticano II. Quanto ao Ecumenismo, este movimento iniciou-se no seio das grandes Igrejas Cristãs e daí passou também à Igreja Católica, sendo significativos os passos que têm vindo a ser dados, através da constituição de Comissões Mistas, grupos de trabalho, e da publicação de vários documentos. As relações da Igreja Católica com o Conselho Mundial das Igrejas, que congrega 360 Comunidades Cristãs, é também um sinal positivo dos novos tempos que vivemos. Quanto às Religiões Não-Cristãs, salientou, em especial, o caminho feito com o Judaísmo, com quem mantemos laços de particular comunhão e profundidade, apesar de persistirem dificuldades. Com o Islamismo salientou, sobretudo, os passos dados nos Pontificados dos Papas Bento XVI e Francisco, referindo, em particular a importância do Documento sobre a “Fraternidade Humana”, assinado em Abu Dabhi, em 2019, com o Grande Imã da Universidade Al-Azhar, do Cairo, a mais importante do Islão Sunita. As comunidades religiosas, num Mundo globalizado, devem ser hoje espaço de encontro entre pessoas, ajudando ao seu enquadramento e evitando o perigo da sua radicalização;
- A última intervenção desta XIX Actualização do Clero foi da responsabilidade do Pe. José Frazão Correia, Sacerdote Jesuíta, sob o título: “Não se pode evangelizar Portugal, sem evangelizar a Cultura. Prioridades e apostas pastorais, ou do Dever de discutir os pressupostos da relação Fé-Culturas?”. Numa linguagem clara, apoiada num discurso verdadeiramente interpelador, cheio de experiência e experiências, insistiu na centralidade do Concílio Vaticano II, enquanto eixo de uma extraordinária viragem da postura da Igreja, na forma de entender e de se relacionar com o Mundo, a Cultura, e as Culturas. De facto, desde a Modernidade que se vinha acentuando um movimento de autonomização, senão mesmo de rotura entre o Mundo e a Igreja, simbolizada na auto-coroação de Napoleão. O Concílio, contudo, optou por uma postura dialogal, conciliatória, simples e recíproca, na relação com o Mundo e as suas dinâmicas culturais, as quais também nos podem a ajudar a ler o Evangelho e a torná-lo perceptível e significativo para o homem hodierno. É preciso não condenar, mas conversar com o Mundo, e perscrutar nele os Sinais dos Tempos, como nos exortava o Papa S. João XXIII. De seguida, apresentou uma leitura sintética desta mudança de paradigma eclesial, que se reflecte nas quatro Constituições do Vaticano II: “A Revelação como História (não existe Revelação sem recepção): DV”; “A reciprocidade Igreja – Mundo: GS”; “A Igreja corpo de baptizados: LG”; “A participação activa de todos os baptizados: SC”. É fundamental distinguir, como defendeu o Papa S. João XXIII, a “substância da Fé” das suas “formulações”, pois, o Evangelho é maior do que todas elas (formulações). Importa cultivar, como tanto defendeu o Papa Francisco, um “duplo olhar”: “ao Evangelho” e “à experiência humana”. É este, no fundo, o sentido de uma “Igreja em saída”, ou seja, uma Igreja que se expõe, que dá e recebe; se quiser ser significativa para os homens de hoje “existencialmente concretos e culturalmente situados”.
Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
