O novo Plano Pastoral da Arquidiocese de Évora parte de uma ideia que atravessa toda a caminhada proposta para os próximos três anos: Fidelidade e Renovação. A mensagem cristã permanece a mesma, mas as comunidades são chamadas a encontrar formas renovadas de a viver, anunciar e concretizar no quotidiano.
Uma das respostas a esse desafio passa, neste primeiro ano, por uma aposta particular na formação dos leigos para os diferentes serviços e ministérios. Não se trata, explica o P. Alessandro Cont, de partir da ideia de que falta formação aos leigos da Arquidiocese, mas de lhes proporcionar uma preparação mais próxima das necessidades concretas das comunidades. Reitor do Seminário Redemptoris Mater, em Évora, e responsável pelo Departamento da Catequese da Infância e Adolescência da Arquidiocese, o sacerdote foi um dos vários presbíteros envolvidos na elaboração do plano. Nesta entrevista ao jornal ‘a defesa’, explica por que razão a formação prática pode ser uma porta de entrada para uma participação mais ativa dos leigos na vida paroquial, desde os serviços mais simples até à possibilidade de, para alguns, se abrir um caminho para ministérios laicais ou mesmo para o Diaconado permanente.
Rosário Silva/Paulo Azadinho
Este novo Plano Pastoral coloca a formação específica dos leigos para os vários serviços e ministérios como um dos seus eixos centrais. Porque é que sentiram necessidade de dar agora esta prioridade à formação e ao reconhecimento do papel dos leigos nas comunidades?
Não é que falte formação aos nossos leigos. Formação sempre houve e, aliás, foi uma constante nos planos pastorais e na ação pastoral da Diocese. O que constatámos é que gostaríamos de ajudar ainda mais os nossos leigos e os membros das nossas comunidades a ter uma formação mais prática sobre aquilo que são os serviços que existem e que são necessários na comunidade. Sempre os houve, mas a verdade é que, com o tempo, nem sempre há esta substituição de todos os serviços de uma geração para a outra. Verificámos que as pessoas até têm boa vontade para os fazer, mas, na prática, não sabem, por exemplo, como funciona o serviço de cartório, o serviço de sacristia ou os vários serviços de pastoral. Pensámos, por isso, que era importante dar uma formação mais centrada naquilo que é a vida concreta do dia a dia e nas necessidades das paróquias.
Quando se fala em formar leigos para o serviço, de que formação estamos concretamente a falar e que tipo de leigos se pretende preparar? O que se espera que esta aposta possa trazer de diferente à vida das comunidades?
Pode ser qualquer leigo, qualquer pessoa que esteja disponível e tenha este desejo, ou simplesmente que se sinta desafiada a começar um serviço novo, de participação mais concreta na comunidade onde está inserida, nomeadamente na paróquia. Fala-se tanto de sinodalidade e aqui podemos ter um exemplo de uma concretização prática. Fundamentalmente, as pessoas devem saber como organizar os diferentes aspetos da vida de uma paróquia e ajudar os párocos, até porque temos muitas paróquias rurais.
Há vários casos em que os párocos têm várias paróquias e, como não conseguem, obviamente, chegar a tudo, a participação concreta, quer na liturgia, quer na organização e na administração paroquial, quer no atendimento e acolhimento das pessoas, pode ser uma ajuda bastante grande para os párocos. É também um dever, neste sentido da participação de todos na vida da comunidade.
A Arquidiocese já tem, naturalmente, uma experiência de formação e de participação dos leigos. O que há de novo nesta proposta? Há uma mudança de perspectiva sobre aquilo que se espera dos leigos e sobre a forma como podem assumir responsabilidades nas comunidades?
Na verdade, a mensagem cristã é sempre a mesma. Nós vamos repetindo e anunciando aquilo que é a única grande verdade que nos salva: o amor de Cristo, que morreu por nós e deu a vida por nós. No fundo, procuramos todos os anos renovar a modalidade com o que podemos, mas, no essencial, a mensagem não muda: amarmo-nos uns aos outros como Deus nos amou. Neste sentido, a formação deste ano deve ter uma base teórica, no sentido do anúncio, mas procura desafiar todas as pessoas que, se calhar, nunca se questionaram sobre a possibilidade de fazer ou de ajudar a paróquia de forma prática, a entrar num serviço que possa ser
uma coisa simples, como os vários serviços práticos da paróquia, mas também numa formação.
Gostávamos que este nosso projeto desse início a uma formação ministerial, para que depois os leigos pudessem assumir esta participação, com o tempo, de um ponto de vista mais estável, nos ministérios laicais que, nos últimos anos, também os Papas promoveram. Quem sabe se até alguns se possam questionar, depois, sobre o Diaconado permanente, por exemplo.
Este primeiro ano do triénio vai centrar a formação nas áreas da Eclesiologia e Liturgia. Porque foram escolhidas estas duas áreas como ponto de partida e como podem elas ajudar a concretizar essa ideia de “Fidelidade e Renovação” que dá nome ao plano?
Percebemos que era necessário começar justamente com a perceção e a ideia que temos da Igreja, portanto, com a Eclesiologia, e ajudar as pessoas a perceber que a Igreja não é nada de etéreo ou simplesmente hierárquico do ponto de vista clerical.
É uma realidade viva, é o Corpo de Cristo, que é feito de membros. E a Liturgia é justamente importante por esta vertente ministerial. Se isto for um início que as pessoas acolhem, depois pode transformar-se numa caminhada mais direcionada para algum ministério laical, que inevitavelmente envolve a Liturgia. Mas, mesmo que não seja a Liturgia, ela deve sempre fazer parte. Uma pessoa que esteja no escritório da paróquia, se não vive a Liturgia, não pode viver o espírito cristão com que também se acolhe ou se atende uma pessoa que precise de ajuda na paróquia. A vertente litúrgica é muito importante, porque, caso contrário, o anúncio que
fazemos não tem uma vivência prática na Liturgia. É importante que essa vivência seja familiar às pessoas que depois querem colaborar num serviço concreto da paróquia, e muito mais quando está em vista algum ministério, nomeadamente o Diaconado.
Depois deste encontro de abertura do Ano Pastoral, qual seria, para si, o sinal de que este plano está realmente a produzir frutos? O que gostariam de ver acontecer nas comunidades ao longo deste primeiro ano?
Sonhos há muitos. Estamos a tentar fazer propostas e abrir caminhos, para depois perceber o que Deus Nosso Senhor quer fazer, porque vamos sempre atrás d’Ele. Podemos construir muitos planos e estruturas, mas, se Deus não entra, não confirma e não abençoa, pouco podemos fazer. Procuramos chamar as pessoas, dar-lhes um primeiro anúncio, introduzi-las na Liturgia e ajudá-las a descobrir a missão específica de cada um, seja laical, ministerial ou de Diaconado permanente. Espero que o Espírito Santo atue e que possamos ir atrás de Jesus Cristo, mexendo um pouco as águas e vendo o que é que dá.
