A participação da Equipa Sinodal da Conferência Episcopal Portuguesa no simpósio europeu Shaping Synodality in Europe: From Vision to Roadmap, realizado em Wels, na Áustria, constituiu uma oportunidade de escuta, partilha e discernimento sobre o caminho sinodal das Igrejas na Europa. Cinco anos depois do início deste processo, a questão que hoje se coloca é discernir como podemos ser uma Igreja mais fiel à sua missão e capaz de anunciar Jesus Cristo no contexto concreto da Europa de hoje.
Uma das conclusões mais significativas destes dias é que a sinodalidade tem acontecido de forma muito mais ampla e profunda do que aquilo que é imediatamente visível. A diversidade de ritmos, experiências e formas de concretização nas Igrejas locais não deve ser entendida como um obstáculo, mas como expressão da riqueza cultural e eclesial da Igreja na Europa, nas diferentes geografias e ritos. O processo sinodal tem garantido uma grande liberdade às Igrejas, permitindo que cada comunidade encontre os caminhos mais adequados à sua própria realidade. Muitas vezes, a sinodalidade acontece silenciosamente, através de pequenas mudanças nas relações, na escuta, na participação e na vida comunitária. Respeitar estes ritmos diferenciados é também uma forma de reconhecer que a comunhão não exige uniformidade.
Neste contexto, a sinodalidade revela-se sobretudo como um caminho para a comunhão. Numa Europa marcada pela fragmentação, pela solidão, pela polarização, pelos nacionalismos e pela crise de confiança nas instituições, a Igreja é chamada a oferecer uma experiência concreta de comunidade, capaz de acolher a diversidade sem a transformar em divisão. A diversidade cultural europeia, longe de ser apenas um desafio, pode tornar-se uma riqueza quando é vivida na lógica do encontro e da comunhão. A comunidade cristã tem aqui uma responsabilidade particular: ser um espaço onde pessoas diferentes podem caminhar juntas, escutar-se, reconciliar-se e reconhecer que a unidade não significa pensar todos da mesma maneira, mas permanecer unidos em Cristo.
A corresponsabilidade de todos os batizados constitui outra dimensão essencial deste caminho, reforçada neste encontro, que permitiu, uma vez mais, sublinhar que pelo Batismo todos temos igual dignidade e todos somos impelidos a participar na missão da Igreja, ainda que com responsabilidades e ministérios diferenciados. Não se trata de eliminar a autoridade nem de a substituir por uma lógica de reivindicação ou de transferência de poder, mas de purificar a forma de a exercer e de criar condições para que todos possam contribuir efetivamente para a vida e a missão da Igreja. Uma Igreja verdadeiramente sinodal não é apenas uma Igreja que consulta, mas uma Igreja que, em comunhão, discerne caminhos e assume responsabilidades.
A sinodalidade não pode, contudo, ser um fim em si mesma. O seu sentido último encontra-se na missão e no anúncio de Cristo. Num continente profundamente secularizado, envelhecido e culturalmente diverso, onde se acentua uma crise de valores e de sentido, a Igreja tem nas mãos uma possibilidade singular: testemunhar, pela sua própria vida, organização e ação, que é possível construir comunhão. Mais do que procurar recuperar influência ou ocupar espaços, a Igreja é chamada a tornar Cristo presente através de comunidades vivas, acolhedoras e missionárias, onde a oração, a liturgia, a Palavra de Deus, a formação, o serviço e a fraternidade sejam experiências concretas de Evangelho.
É, por isso, que a pergunta que fica deste encontro é também uma interpelação à própria Igreja: se a Europa encontrasse hoje a Igreja através de nós, encontraria Cristo? Num contexto simultanemanete de fragmentação e polarização, a sinodalidade, com os seus ritmos necessariamente diversos e por vezes lentos, apresenta-se como um caminho exigente, mas profundamente necessário para reconstruir a comunhão. O futuro deste processo dependerá menos da multiplicação de estruturas do que da capacidade de gerar comunidades onde Cristo esteja verdadeiramente no centro e onde a diversidade seja vivida como riqueza. A Europa poderá encontrar de novo o Evangelho quando encontrar cristãos e comunidades que, tendo encontrado Cristo, sejam capazes de O tornar visível na forma como vivem, acolhem, servem, perdoam e caminham juntos.
