Padre Fernando Lopes defende em Roma tese sobre a Igreja como Povo de Deus

Sacerdote da Arquidiocese de Évora apresenta, a 27 de outubro, investigação sobre a expressão “Caminhar Juntos” e a sinodalidade. D. Francisco Senra Coelho estará presente na defesa do doutoramento, realizado na Pontifícia Universidade Gregoriana

Rosário Silva/Paulo Azadinho

O Padre Fernando Ricardo Brito Lopes, sacerdote da Arquidiocese de Évora e atual pároco de Santo António, em Vendas Novas, vai defender, no próximo dia 27 de outubro, em Roma, a sua tese de doutoramento em Teologia Dogmática, dedicada à expressão “Caminhar Juntos”, enquanto dimensão construtiva da Igreja. O Arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, estará presente neste momento importante do percurso académico do sacerdote.

Intitulada “Caminhar Juntos”: Estudo crítico de uma fórmula recente, a investigação foi desenvolvida na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde o Padre Fernando Lopes realizou três anos de estudos. O trabalho centra-se numa questão que ganhou particular relevância com o pontificado do Papa Francisco e com o atual processo sinodal: a participação de todo o Povo de Deus na vida e na missão da Igreja.

Em declarações ao jornal “a defesa”, o sacerdote reconhece a importância da defesa, mas prefere olhar para este momento como o culminar de um percurso de aprendizagem e aprofundamento. “Vou sobretudo com a alegria serena de quem chega ao fim de uma etapa muito exigente e enriquecedora”, afirma, recordando os três anos de “estudo intenso, de leitura, de reflexão e de diálogo”.

Mais do que as expectativas em torno da apresentação pública da tese, o Padre Fernando Lopes destaca aquilo que considera ter sido o mais significativo desta experiência académica: a possibilidade de aprofundar teologicamente uma realidade central para a Igreja. “A defesa será um momento importante, mas aquilo que mais valorizo é o percurso realizado”, sublinha, manifestando também gratidão a todos os que o acompanharam ao longo deste caminho.

Uma Igreja em que todos contam

Uma das conclusões centrais da investigação é a de que o Povo de Deus, na sua totalidade, é o verdadeiro sujeito da ação eclesial. Uma perspetiva que, segundo o sacerdote, ajuda a compreender o significado da sinodalidade, conceito associado ao caminho de escuta, participação e comunhão que a Igreja tem vindo a aprofundar.

“A sinodalidade só pode ser autenticamente vivida numa Igreja que se reconhece, antes de mais, como Povo de Deus”, explica o Padre Fernando Lopes. Esta visão implica, refere, “reconhecer e valorizar todos os que constituem a Igreja, desde o Povo fiel de Deus ao Colégio Episcopal e ao Bispo de Roma.”

Para o sacerdote, importa também distinguir a sinodalidade da própria identidade da Igreja. “A sinodalidade, embora seja uma dimensão da Igreja, não é a Igreja”, observa, defendendo que o caminho sinodal deve ser compreendido à luz da identidade mais ampla do Povo de Deus e da diversidade dos seus membros.

A reflexão tem consequências que ultrapassam o âmbito académico. Na perspetiva do Padre Fernando Lopes, compreender a Igreja como um povo que caminha em conjunto significa reconhecer que a sua missão não está reservada a um grupo restrito, nem depende exclusivamente dos seus responsáveis.

“A missão da Igreja não pertence apenas a alguns dos seus membros, mas a todo o Povo de Deus, enquanto ‘sujeito ativo de evangelização’”, afirma, recorrendo a uma expressão do Papa Francisco.

É nesta corresponsabilidade que identifica uma das implicações mais importantes da investigação para a missão evangelizadora. Todos os batizados, considera, são chamados a participar na vida da Igreja, de acordo com os seus carismas, ministérios e vocações. Uma participação que exige escuta, valorização da diversidade e consciência de que a missão é partilhada.

O sacerdote encara o seu trabalho como “um pequeno e humilde contributo para a reflexão teológica”, mas acredita que esta perspetiva pode ajudar a pensar e a viver a Igreja de forma mais participativa, reconhecendo o lugar de cada pessoa na comunidade cristã.

De Roma ao regresso à Arquidiocese de Évora

A defesa da tese assinala o culminar de uma etapa iniciada em 2023, quando o Padre Fernando Lopes suspendeu temporariamente as responsabilidades que desempenhava na Arquidiocese de Évora, nomeadamente na área da Pastoral Juvenil, para prosseguir a sua formação na capital italiana.

Concluído o ciclo de estudos, regressou à diocese e assumiu novas responsabilidades pastorais. A 27 de setembro de 2026, tomou posse como pároco de Santo António, em Vendas Novas, passando também a assegurar o acompanhamento pastoral das comunidades de Cabrela e Silveiras.

O regresso ao trabalho pastoral acontece, assim, num momento em que o sacerdote conclui formalmente o percurso de investigação que o levou a Roma. A experiência académica e o contacto com a reflexão teológica sobre a sinodalidade constituem um aprofundamento que poderá agora acompanhar o exercício do seu ministério.

Para o Padre Fernando Lopes, o essencial é que a reflexão sobre o caminho conjunto da Igreja tenha expressão concreta na sua vida e na sua missão. A tese procura precisamente contribuir para essa compreensão: que o “Caminhar juntos” de todo o Povo de Deus – Povo fiel, pastores e Bispo de Roma – “é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio” (Papa Francisco).

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