“Não podemos continuar a fazer de conta que não vemos”: setor social alerta para falta de respostas, desgaste e subfinanciamento

Rosário Silva

Instituições sociais da Arquidiocese de Évora dizem que há falta de profissionais, pressão financeira crescente e respostas insuficientes para idosos e cuidados continuados, mas recusam desistir da missão de “cuidar com dignidade”.

As instituições sociais de inspiração cristã da Arquidiocese de Évora juntaram-se esta sexta-feira, em Évora, num encontro marcado por alertas fortes sobre o envelhecimento da população, a falta de profissionais, o desgaste humano dos trabalhadores e o subfinanciamento das respostas sociais.

Sob o lema “Comprometidos no Serviço”, responsáveis da Igreja, da Segurança Social e de instituições do setor reconheceram que as respostas sociais vivem um momento de enorme exigência, sobretudo numa região envelhecida como o Alentejo, onde os lares acabam muitas vezes por substituir respostas de saúde que não existem.

O diretor do Departamento da Pastoral Social da Arquidiocese de Évora, o padre Manuel Vieira, traçou um retrato da dimensão da rede social católica no território: “24 Centros Sociais Paroquiais, 36 Santas Casas da Misericórdia, 11 Fundações, a Cáritas Diocesana e cinco Cáritas Paroquiais”, num total de “265 respostas sociais a funcionar”.

Uma rede que, disse, continua a sustentar “o rosto mais humano da sociedade”, muitas vezes longe da visibilidade pública. “As nossas instituições são muitas vezes o último lugar onde alguém ainda encontra escuta, acolhimento e dignidade”, afirmou.

Mas a intervenção foi também marcada pela preocupação com a sobrevivência das instituições. Manuel Vieira falou de “custos crescentes, respostas sociais subfinanciadas e recursos limitados”, alertando que muitas organizações vivem diariamente “o difícil equilíbrio entre manter a missão e garantir a viabilidade”.

Entre os maiores problemas está a falta de recursos humanos. “Faltam cuidadores, técnicos, educadores, auxiliares”, disse, descrevendo um trabalho “humanamente intenso, mas mal remunerado e nem sempre suficientemente valorizado”.

O sacerdote chamou ainda a atenção para o desgaste acumulado de profissionais e voluntários. “Há cansaço acumulado, há pressão constante, responsabilidades grandes, e ainda assim continuam presentes, continuam a cuidar e continuam a servir.”

Cuidados continuados e envelhecimento “geram desequilíbrio muito grave”

A mesma preocupação atravessou a intervenção do arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, que apontou os cuidados continuados como uma das áreas mais críticas do setor social e da saúde.

Continuamos a observar e a testemunhar os encerramentos destas valências”, afirmou, referindo-se às unidades de cuidados continuados. Segundo explicou, a falta destas respostas está a empurrar idosos e doentes dependentes para as Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas, aumentando a pressão sobre os lares.

Faz aumentar imenso a necessidade de colaboradores e daí também a dilatação dos orçamentos”, alertou.

Senra Coelho defendeu que o problema está também a atingir os hospitais, que acabam por manter internadas pessoas sem retaguarda adequada. “Os hospitais continuam a transformar-se em ERPIs”, afirmou.

O arcebispo destacou ainda o peso crescente das doenças associadas às demências e à saúde mental, admitindo que situações como o Alzheimer “fazem as nossas ERPIs viver momentos difíceis”.

Num dos momentos mais duros da intervenção, criticou a falta de resposta política e financeira perante o envelhecimento e a pobreza. “Não podemos continuar a fazer de conta que não vemos”, afirmou, falando de uma sociedade que “vai passando ao lado de problemas horríveis”.

É necessário olhar de frente para uma das questões prementes do nosso país, que são os idosos e os desafios da solidariedade”, insistiu.

Apesar dos alertas, o arcebispo procurou deixar uma mensagem de esperança e reconhecimento pelo trabalho desenvolvido diariamente pelas instituições sociais. “Somos instrumentos de trabalho ao serviço da família”, disse, lembrando o apoio dado a crianças, idosos e famílias que dependem destas respostas para conseguirem manter a sua vida profissional e familiar.

Sustentabilidade financeira continua longe do necessário

Também o diretor do Centro Distrital da Segurança Social de Évora, Nuno Alas, reconheceu que o setor enfrenta “novas formas de fragilidade emocional e económica”, além do envelhecimento, da solidão e da pobreza persistente.

Considerando as IPSS de inspiração cristã “parceiros indispensáveis do Estado e da sociedade civil”, destacou que estas instituições “chegam onde muitas vezes outros não conseguem chegar”.

Nuno Alas admitiu igualmente que a sustentabilidade financeira continua longe de estar garantida, sobretudo nas instituições mais pequenas. Ainda assim, apontou o reforço gradual das comparticipações públicas como um sinal positivo.

Segundo explicou, a intenção do Governo é que a comparticipação da Segurança Social possa atingir “50% do custo real de cada resposta social” entre 2025 e 2026. Atualmente, essa cobertura passou de “40,9% para 42,8%”.

É verdade que ainda há muito para fazer”, reconheceu.

Outro dos desafios apontados foi a dificuldade em atrair profissionais e voluntários para o setor social. “Como atrair novas gerações de voluntários e profissionais?”, questionou, referindo também a dificuldade em encontrar pessoas disponíveis para integrar direções e órgãos de gestão das instituições.

Ao longo das intervenções, repetiu-se a ideia de que o setor social vive entre a crescente complexidade técnica das respostas e a necessidade de manter proximidade humana e espírito de missão.

O serviço social não é competição, é cooperação e comunhão”, resumiu Manuel Vieira, defendendo uma maior articulação entre instituições.

O encontro “Comprometidos no Serviço” decorreu no auditório do Centro de Inovação Social da Fundação Eugénio de Almeida, em Évora, e reuniu representantes de misericórdias, centros sociais paroquiais, fundações, Cáritas e outras instituições da área social.

O programa incluiu ainda uma intervenção de Nuno Estêvão Ferreira, sobre a ação social à luz da Doutrina Social da Igreja, e uma apresentação de Rita Valadas, presidente da Cáritas Portuguesa, dedicada à profissionalização, compromisso e voluntariado na gestão das instituições.

Na segunda parte do encontro foram abordados temas como a inovação nos cuidados à demência, com a experiência do Centro de Demências da Santa Casa da Misericórdia de Castro Marim, apresentada por Iola Fernandes, o papel do voluntariado no setor social, por Inês Gonçalves, e a utilização de plataformas digitais de gestão, com intervenção de Marco Fernandes.

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