Arcebispo de Évora destaca acolhimento “excecional” e a força de uma comunidade unida em torno da sua identidade e tradições
O arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, fez um balanço marcadamente positivo da visita pastoral ao concelho de Mourão, sublinhando a forma “muito cuidada e envolvente” como foi preparado este encontro com as comunidades de Mourão, Granja e Luz. Ao longo de vários dias, o prelado esteve em contacto direto com diferentes realidades locais, escolas, instituições sociais, famílias, empresários e idosos, numa experiência que descreve como profundamente enriquecedora.
Logo na chegada, o acolhimento deixou marca. À porta dos Paços do Concelho, um grupo de populares aguardava-o com um arco de flores de papel, num gesto simples, mas carregado de simbolismo. “Fiquei muito sensibilizado”, confessou, recordando também a receção na sala nobre, repleta, onde lhe foi dada a palavra por uma comunidade que se assume como “um povo crente”, profundamente marcado pela devoção a Nossa Senhora das Candeias.
Foi precisamente essa religiosidade popular que mais o impressionou. Para D. Francisco Senra Coelho, a devoção à padroeira funciona como elemento agregador, capaz de unir diferentes sensibilidades e até ultrapassar divisões. Num concelho com cerca de três mil habitantes, a festa da Senhora das Candeias chega a reunir cerca de seis mil pessoas, vindas de vários pontos, num testemunho vivo da força desta tradição. “Une este povo”, sublinhou.
Ao longo da visita, encontrou também uma comunidade viva e participativa. As escolas abriram portas, envolvendo alunos e professores em momentos preparados com cuidado, desde pequenos arranjos musicais a acolhimentos cheios de alegria. Nas instituições sociais, como os lares de idosos, encontrou um ambiente de festa e proximidade. “As pessoas conhecem-se, sabem da vida umas das outras. Isto é uma família de famílias”, afirmou, evocando uma expressão que utiliza com frequência para descrever comunidades coesas.
Mas a visita não ignorou as fragilidades. O arcebispo identificou preocupações profundas com o despovoamento e o envelhecimento da população, num território onde muitos jovens são obrigados a sair. Ainda assim, destacou sinais de resistência e esperança, como o esforço das autarquias em manter as escolas abertas, mesmo com poucos alunos, garantindo continuidade e futuro. “Querem crianças, querem que a terra não desapareça”, observou.
Também o tecido económico local mereceu atenção, com destaque para a atividade agrícola, o vinho e o azeite, e para as dificuldades sentidas após o desaparecimento de importantes fontes de emprego, com a antiga fábrica da Portucel. A par disso, evocou a memória da antiga Aldeia da Luz, submersa pela barragem de Alqueva, referindo a marca emocional que ainda persiste na população. “Há um misto de saudade e de dor. É um povo ferido”, disse, com sensibilidade.
Apesar de tudo, o balanço é de gratidão e admiração. “Tem sido uma beleza muito grande conviver com este povo”, afirmou, sublinhando a autenticidade de uma comunidade que, mesmo com pouco, sabe acolher e partilhar. Para D. Francisco Senra Coelho, Mourão é um território que merece atenção e cuidado, não apenas pelos desafios que enfrenta, mas pela riqueza humana que continua a guardar.
Rosário Silva
