Leão, porque não?

Pe. Ricardo Cardoso

Por viver em Roma, tive a graça e a oportunidade de acompanhar bem de perto e de forma muito intensa o Conclave que elegeu o Cardeal Prevost para o ministério petrino, considerada como uma das melhores experiências que se pode ter na Cidade Eterna. Foi nesse contexto que me confrontei com as expectativas
que se tinham e os nomes dos purpurados que se alvitravam para suceder ao Papa Francisco, associando-se as perguntas habituais: será oriundo de qual continente?
Qual a nacionalidade? E que nome escolherá?
Atendendo que a escolha do nome é sempre um acto simbólico e programático, recordo a pergunta que um jornalista português me fez em plena Via della Conciliazione, minutos antes de eu regressar à Praça de São Pedro onde continuaria a aguardar as “fumatas”. Perguntou-me qual me parecia ser o nome que o novo Papa escolheria, ao que eu instintivamente respondi que muito possivelmente seria João XXIV ou Paulo VII, tendo em conta os seus legados e a forma como influíram sobre o tempo presente; no entanto, acrescentei com pesar que, devido à pressão dos media e às modas dos nossos tempos, dificilmente voltaríamos a ter um Papa que escolhesse nomes em desuso como Pio XIII, Leão XIV, Gregório XVII ou Clemente XV, ainda que representassem pontificados fortes e determinantes para os seus tempos e para os que lhes sucederam. Foi nesta incredulidade e sem voltar a pensar nesse assunto que regressei à Praça de São Pedro, aguardando sob o tórrido sol romano a tão desejada eleição papal.
Passavam poucos minutos das 18 horas quando o fumo branco e os sinos da basílica de São Pedro anunciavam à Igreja e ao mundo que Deus tinha suscitado um novo Sucessor de São Pedro e, depois do habitual compasso de espera, o Cardeal Protodiácono anunciou no “Habemus Papam” que o novo Papa tinha adoptado o nome de Leão, deixando um rasto de simultânea perplexidade, curiosidade e fascínio.
Se é verdade que a sua escolha, tal como o próprio já explicou, incidiu sobretudo na pessoa e no pontificado de Leão XIII, a verdade é que desde o primeiro momento em que se ouviu o seu nome foi possível intuir o que tem vindo a ser o seu ministério: despreocupado com o que poderão ser as modas, clichês, rótulos ou hermenêuticas simplistas que lhe podem atribuir, Leão XIV caminha seguro e determinante naquilo que deve ser a sua missão de anunciar com autenticidade o Evangelho de Cristo.
Leão não é extrovertido como Francisco, mas as suas palavras e gestos são extremamente comunicativos; Leão não rompe com os pontificados precedentes, mas também não se limita a uma repetição anacrónica dos seus antecessores; Leão não rompe com os elementos da Tradição e das tradições, mas demonstra a sua beleza num enquadramento hodierno; Leão não se escusa à exposição mediática, mas simultaneamente não se inibe de falar com clareza; Leão não ignora a arte diplomática no diálogo internacional, mas isso não o impede de denunciar o erro, a injustiça e os crimes; há mais de um século o Papa Leão XIII enfrentou as grandes questões sociais, mas nestes tempos que são os nossos Leão XIV enfrenta um mundo em convulsão associado aos desconhecidos desafios do digital e da inteligência artificial.

Leão XIV optou por não imitar, por não ceder a expectativas, por não se colar a ideologias, por não ficar refém dos interesses dos poderosos deste mundo e por não se resignar à opinião pública. Se é certo que isso terá um preço caro, é ainda mais evidente que Leão XIV está disposto a pagá-lo na condição de continuar a abrir uma senda nos desafios do tempo presente, percorrendo-a com a nobreza e valentia próprias de um leão. É por este motivo que o meu perplexo pensamento do dia da eleição “Leão, porque não?” deu lugar às evidências que hoje temos: Leão, porque sim!

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