Jornal ‘a defesa’: Entrevista ao Padre Salvador José: “É o regresso da memória e de uma parte da nossa história”

Durante décadas, os restos mortais de três homens que marcaram profundamente a história da Igreja e do povo de Timor-Leste permaneceram em Portugal. Agora, D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e Mons. Martinho da Costa Lopes regressam à terra onde serviram e que amaram. Para o P. Salvador José, sacerdote salesiano timorense que acompanha de perto todo o processo de transladação, este não é apenas o regresso dos restos mortais de três antigos pastores: é o regresso da memória, da gratidão e de uma parte da própria história de Timor-Leste. E Évora, terra que acolheu e formou tantos timorenses, assume neste momento um lugar muito especial numa história que continua a unir dois povos e duas Igrejas.

Rosário Silva

Porque é que esta transladação é tão importante para a Igreja e para o povo de Timor-Leste?
Para mim, esta transladação tem um significado muito profundo. Não estamos simplesmente a transportar restos mortais de Portugal para Timor- Leste. Estamos a ajudar a nossa memória a regressar a casa. D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e Mons. Martinho da Costa Lopes fizeram parte de um período muito importante da história da Igreja e do povo de Timor-Leste. Foram pastores que viveram com o nosso povo, conheceram as suas alegrias e os seus sofrimentos e, sobretudo, procuraram permanecer próximos quando Timor atravessava momentos muito difíceis.
Os missionários que trabalharam em Timor fazem parte da nossa história. Muitos deixaram a sua terra, a sua família e a sua própria segurança para servir um povo distante. Por isso, quando hoje recebemos os seus restos mortais, não estamos apenas a recordar pessoas do passado: estamos a reconhecer uma herança que recebemos e que temos a responsabilidade de transmitir às novas gerações.
Timor-Leste é hoje um país livre, independente e soberano. Podemos, por isso, acolher novamente os nossos antigos pastores e dar-lhes um lugar digno na terra que eles serviram e amaram. Para mim, este é um gesto de gratidão, de memória e também de reconciliação com a nossa própria história.

Resumidamente, quem foram D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e D. Martinho da Costa Lopes e que lugar ocupam na memória da Igreja timorense?
Quando pronunciamos estes três nomes, estamos a pronunciar nomes que pertencem à memória profunda da Igreja de Timor-Leste.

D. Jaime Garcia Goulart foi o primeiro Bispo de Díli. Teve um papel fundamental na organização e consolidação da Igreja local e na formação das primeiras gerações de sacerdotes e agentes pastorais timorenses. Foi um verdadeiro pastor que procurou lançar raízes para que a Igreja de Timor pudesse crescer e amadurecer.

D. José Joaquim Ribeiro foi o segundo Bispo de Díli.  Era um homem profundamente ligado a Évora e à Igreja portuguesa, mas entregou uma parte muito importante da sua vida ao povo timorense. Viveu tempos extremamente difíceis, particularmente durante e depois da invasão indonésia. Procurou estar próximo das pessoas que sofriam e defender a sua dignidade.

Mons. Martinho da Costa Lopes, como Administrador Apostólico da Diocese de Díli, tornou-se uma voz muito corajosa em defesa do povo timorense. Denunciou o sofrimento que testemunhava e pagou um preço pessoal muito elevado pela sua fidelidade à verdade e ao seu povo. Quando penso neles, vejo três pastores diferentes, pertencentes a momentos diferentes da nossa história, mas unidos por uma mesma missão: servir a Igreja e estar ao lado do povo de Timor-Leste.
É por isso que ocupam um lugar tão especial na nossa memória. Não são apenas nomes nos livros de história. São pessoas que fizeram parte da caminhada do nosso
povo.

O facto de as celebrações decorrerem em Évora tem um significado especial, atendendo à ligação histórica entre Portugal, a Arquidiocese e Timor?
Tem um significado muito especial. Évora não é para nós, timorenses, apenas uma cidade portuguesa. É também uma terra que recebeu muitos filhos de Timor.
Muitos vieram aqui estudar, formar-se e preparar-se para depois regressarem e servirem o seu povo. A ligação é ainda mais profunda quando pensamos em D. José Joaquim Ribeiro. Évora esteve presente na sua caminhada sacerdotal e episcopal, e foi também aqui que ele viveu depois de regressar de Timor.
Por isso, quando os restos mortais regressam agora a Timor-Leste, sentimos que existe um encontro entre duas terras que fazem parte da mesma história. Évora acolheu Timor. Formou timorenses. Acompanhou-nos em diferentes momentos. E agora Évora acompanha também este momento de despedida e de regresso. Eu gostaria que os timorenses nunca esquecessem esta dívida de gratidão.
Há lugares onde uma pessoa passa, mas há outros lugares que passam a fazer parte da nossa vida. Para muitos timorenses, Évora é um desses lugares.

Como está a comunidade timorense, residente em Portugal e não só, a viver os dias que antecedem estas cerimónias?
Tenho sentido entre os timorenses uma emoção muito grande. Há orgulho, naturalmente, porque sentimos que estamos a devolver à nossa pátria homens que deram muito de si pelo nosso povo.
Mas existe também um profundo sentimento de respeito e recolhimento. Para muitos de nós, esta não é uma questão distante. Quando falamos destes prelados, estamos a falar de uma parte da nossa própria história. Estamos a falar dos nossos pais, dos nossos avós, das nossas comunidades e das experiências que marcaram as gerações anteriores.
Há também uma sensação muito bonita: a de que estamos a preparar o regresso de alguém que esteve longe durante muitos anos. Eu diria que existe entre os timorenses uma alegria silenciosa. Não é uma alegria de festa no sentido habitual. É a alegria de quem sabe que finalmente pode dizer: “Agora regressam a casa.”

O que espera que fique deste momento, quando os restos mortais chegarem finalmente a Timor-Leste?
Espero que fique memória. Uma memória viva e não apenas uma memória escrita. Gostaria muito que os jovens timorenses perguntassem: “Quem foram estes homens? O que fizeram? Porque é que o nosso povo ainda fala deles?”
Se conseguirmos despertar essas perguntas, então esta trasladação já terá produzido um fruto muito importante.
Espero também que fique em nós um renovado espírito cristão e um sentido de responsabilidade pela nossa pátria.
A fé que recebemos não pode ser separada do compromisso com o próximo, especialmente com os mais pobres, os mais frágeis e aqueles que mais precisam de esperança. Quero que o regresso destes prelados nos ajude a compreender que uma nação não se constrói apenas com estradas, edifícios ou instituições.
Constrói-se também e principalmente com memória, valores, educação, fé, solidariedade e respeito pela dignidade humana. Que o testemunho deles ajude Timor-Leste a continuar a caminhar com esperança.

Há várias décadas que estes Prelados repousam em Portugal. Porque é que este é o momento certo para o seu regresso a Timor-Leste?
Talvez porque hoje Timor-Leste pode olhar para a sua história com os olhos de uma nação independente. Durante muitos anos, a nossa história foi marcada pela guerra, pela ocupação, pela violência, pela separação das famílias e por tantas perdas. Houve pessoas que morreram sem que as suas famílias pudessem sequer ter a possibilidade de lhes dar uma sepultura digna. Desde há vários anos, Timor-Leste tem procurado recuperar essa memória, identificar os seus mortos e devolver-lhes a dignidade. É um processo que continua a ser importante para muitas famílias. Neste contexto, o regresso dos nossos prelados adquire uma dimensão muito especial. Eles também fazem parte dessa história de sofrimento e de resistência do nosso povo. Agora podemos recebê-los de novo na nossa terra.
Para mim, não é simplesmente uma questão de oportunidade. É uma questão de maturidade histórica. Chegou o momento de trazer para casa uma parte da nossa memória.

Diz-se muitas vezes que Timor nunca esqueceu os seus missionários e os seus bispos. Esta transladação é também uma forma de agradecer à
Igreja portuguesa?
Sim. E talvez a palavra mais simples que podemos dizer seja: obrigado. Obrigado aos missionários que foram para Timor. Obrigado aos sacerdotes e religiosos. Obrigado às religiosas, aos professores, aos formadores e a todos aqueles que dedicaram a sua vida ao nosso povo. Muitos deles não nasceram em Timor, mas fizeram de Timor a sua casa. Quando uma pessoa entrega a sua vida ao serviço de outro povo, esse gesto não pode ser esquecido.
Naturalmente, a história tem as suas complexidades e deve ser lida com serenidade e verdade. Mas também devemos ter a humildade de reconhecer o bem que recebemos. Esta trasladação é, para mim, uma forma muito concreta de dizer à Igreja portuguesa que Timor não esqueceu. O povo timorense sabe agradecer. E esta é uma das maneiras pelas quais podemos expressar essa gratidão.

Que mensagem gostaria de deixar à Arquidiocese de Évora, que irá acolher estas celebrações?
À Arquidiocese de Évora gostaria de dizer, do fundo do coração: muito obrigado. Obrigado por ter acolhido tantos timorenses. Obrigado pela formação que proporcionou. Obrigado pela amizade que foi construindo ao longo dos anos. E obrigado, também, por acompanhar este momento tão significativo para o povo de Timor-Leste. Évora ficará para sempre na memória de muitos timorenses. Há bispos, sacerdotes e leigos de Timor que passaram por aqui e levaram consigo conhecimentos, experiências e amizades que depois deram frutos na nossa terra.
Por isso, eu não vejo esta celebração como uma despedida. Vejo-a como um momento de renovação de uma amizade. Os restos mortais dos nossos prelados regressam a Timor, mas a amizade entre Évora e Timor continua. Gostaria que a Arquidiocese de Évora soubesse que, do outro lado do mar, haverá um povo timorense que não esquecerá aquilo que recebeu desta Igreja.

Para terminar, como timorense, sacerdote salesiano e alguém que está a acompanhar de perto toda esta organização, o que sente ao ver concretizar-se este momento?
É difícil colocar tudo em palavras. Como timorense, sinto orgulho. Como sacerdote salesiano, sinto uma grande responsabilidade. E como alguém que acompanha de perto este processo, sinto sobretudo uma profunda emoção e gratidão. Quando vejo concretizar-se esta trasladação, penso que estamos a assistir a algo maior do que uma cerimónia.
Estamos a assistir ao regresso a casa de homens que deram a sua vida ao serviço do povo. Durante tantos anos, os seus restos mortais permaneceram em Portugal. Portugal foi a sua última morada.
Agora, Timor-Leste abre novamente as suas portas para os receber. Para mim, há algo de muito bonito nisso. É como se o povo dissesse aos seus antigos pastores: “Vocês partiram, mas nós não vos esquecemos. Serviram-nos quando precisávamos de vós. Agora chegou a nossa vez de vos levar para casa.” E há ainda uma dimensão que me toca particularmente. Estes prelados regressam à mesma terra onde tantos dos nossos irmãos tombaram durante os anos de sofrimento e resistência. Regressam à terra dos nossos mártires, dos nossos combatentes, das nossas famílias e de tantas pessoas anónimas que deram tudo pela liberdade. Por isso, sinto que este regresso é também um abraço entre a Igreja e o povo. Como sacerdote, peço a Deus que esta memória não seja apenas uma recordação do passado, mas uma inspiração para o presente e para o futuro. Que os nossos jovens aprendam com estes homens o valor do serviço. Que a nossa Igreja continue próxima do povo.

Que Timor-Leste nunca perca a memória daqueles que deram a sua vida pela dignidade, pela fé e pela liberdade. E que D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim
Ribeiro e Mons. Martinho da Costa Lopes possam finalmente repousar na sua terra, junto do povo que serviram e amaram. Para mim, este é o verdadeiro significado desta trasladação: não é apenas o regresso dos restos mortais. É o regresso da memória, da gratidão e de uma parte da nossa própria história. É, finalmente, o regresso a casa.
Antes de terminar, gostaria de deixar uma palavra de profunda gratidão a todas as pessoas e instituições que tornaram possível este processo de trasladação. Agradeço à Igreja Diocesana de Angra, na pessoa de D. Armando Domingues, Bispo de Angra, por todo o apoio, disponibilidade e colaboração prestados no processo de trasladação de D. Jaime Garcia Goulart.
A sua atenção e o seu acolhimento foram muito importantes para que este processo pudesse avançar. Agradeço igualmente ao Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, pelo apoio, pela atenção e pela disponibilidade para acompanhar a comissão responsável pelo processo de trasladação de Mons. Martinho da Costa Lopes. A D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca Emérito de Lisboa, deixo também a nossa profunda gratidão pela sua disponibilidade para presidir à celebração da Eucaristia. São gestos que guardaremos com grande reconhecimento. Ao Rev. Pe. Pedro Fernandes Coutinho, Pároco de S. Romão de Carnaxide, expressamos o nosso mais profundo e sincero agradecimento pela generosa disponibilidade em ceder a Capela para o acolhimento das urnas, bem como a Igreja Paroquial, onde foi possível celebrar as Eucaristias de ação de graças por ocasião da trasladação de Monsenhor Martinho da Costa Lopes, antes da sua trasladação para Évora. A D. Francisco Senra Coelho, Arcebispo de Évora, quero manifestar uma gratidão muito especial. O seu apoio tem sido incansável ao longo de todo este processo, não apenas no momento da trasladação de D. José Joaquim Ribeiro, mas durante todo o caminho que nos trouxe até este dia de ação de graças. A sua disponibilidade, proximidade e dedicação foram para nós um verdadeiro sinal de comunhão e de fraternidade entre as Igrejas de Portugal e de Timor-Leste. Uma palavra de agradecimento também à Conferência Episcopal de Timor (CET) e ao Governo de Timor-Leste, pela confiança que depositaram em nós, bem como pelo apoio e pela colaboração ao longo deste processo.
Recebemos essa confiança com sentido de responsabilidade, procurando cumprir esta missão com dignidade, respeito e espírito de serviço. Ao Senhor José Grilo, da Agência Funerária Grilo, agradeço sinceramente toda a colaboração, profissionalismo e serviço prestados durante este processo. Há trabalhos que muitas vezes permanecem discretos aos olhos do público, mas que são indispensáveis para que uma missão desta natureza possa ser realizada com dignidade.
Quero também deixar uma palavra muito especial à Comissão Externa de Trasladação, constituída pelo Pe. Abel Soares, pelo Senhor Manuel Serrano, Embaixador de Timor-Leste em Portugal, e pelo Senhor Libório Pereira, Conselheiro. A todos eles, muito obrigado pela dedicação, pelo empenho, pelo serviço e pela entrega total a esta nobre missão.
Dirigimos igualmente uma palavra de profundo agradecimento ao Seminário Maior de Évora e aos seus seminaristas, à Associação dos Estudantes Timorenses em Évora (ASET) e aos Salesianos de Évora, pelo apoio, disponibilidade, acolhimento, animação e colaboração que nos proporcionaram ao longo destes últimos dias de preparação e na realização desta celebração.
Sabemos que um processo desta dimensão não se faz apenas com algumas pessoas. Por isso, não quero terminar sem agradecer também a todas aquelas pessoas que, de forma direta ou indireta, estiveram sempre ao lado da Comissão Externa, ajudando, acompanhando, orientando, rezando e oferecendo o seu tempo e a sua disponibilidade.
Muitas vezes, os seus nomes não aparecem publicamente, mas a sua colaboração foi essencial. A todos, o nosso sincero e profundo obrigado.
Este processo ensinou-nos uma coisa muito bonita: quando uma missão é verdadeiramente de todos, as dificuldades tornam-se mais leves e o caminho torna-se possível.

Por isso, ao olhar para trás, não vejo apenas um trabalho realizado. Vejo uma verdadeira rede de pessoas, Igrejas e instituições que se uniram para devolver a Timor-Leste uma parte preciosa da sua memória.

A todos os que contribuíram para este regresso, deixo a minha gratidão e a gratidão do povo timorense. E termino confiando tudo nas mãos de Deus.
Que, pela intercessão de D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e Mons. Martinho da Costa Lopes, Deus abençoe o povo de Timor-Leste, a Igreja
de Timor-Leste e a Igreja em Portugal. Que o testemunho destes três prelados continue a iluminar o nosso caminho, ensinando-nos a servir com humildade, a permanecer fiéis nos momentos difíceis, a defender a dignidade humana e a trabalhar pela paz, pela reconciliação e pelo bem comum. Que eles possam agora repousar em paz na terra que serviram e amaram. E que a sua memória permaneça viva no coração do povo timorense. A todos, do fundo do coração: muito obrigado.

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