Évora e Timor-Leste: três dias de memória, comunhão e esperança que renovaram uma história comum

A trasladação dos três primeiros prelados de Timor-Leste tornou visível uma ligação histórica entre a Arquidiocese de Évora e a Igreja timorense, que permanece viva nas novas gerações

Foram três dias de memória, de oração, de reflexão e, sobretudo, de comunhão. Entre 17 e 19 de agosto, Évora tornou-se lugar de encontro entre a história da Igreja de Timor-Leste e a sua realidade presente, acolhendo os restos mortais de D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e Monsenhor Martinho da Costa Lopes, antes do seu regresso definitivo à terra onde serviram.

Mas estes dias não foram apenas uma despedida. Foram também uma oportunidade para reconhecer uma história comum e, sobretudo, para olhar o futuro de uma Igreja timorense que se apresenta jovem, viva e cheia de esperança.

O programa que acompanhou a trasladação foi muito além das cerimónias de encomendação. Entre a Igreja do Espírito Santo, os Salesianos e a Sé Metropolitana de Évora, sucederam-se momentos de oração, reflexão académica e cultural, encontro com a comunidade timorense e celebração da fé.

Uma memória que voltou a Évora

A chegada dos restos mortais dos três prelados à Igreja do Espírito Santo, no dia 17, deu início a três dias marcados por uma forte dimensão espiritual. A comunidade eborense e a comunidade timorense reuniram-se para acolher aqueles que, décadas antes, tinham servido a Igreja de Timor-Leste e cuja missão permanece inscrita na história daquela Igreja.

A memória dos três pastores tornou-se, desde o primeiro momento, uma memória partilhada. D. Jaime Garcia Goulart, primeiro Bispo de Díli, D. José Joaquim Ribeiro, seu sucessor, e Monsenhor Martinho da Costa Lopes, Administrador Apostólico de Díli e defensor do povo timorense em tempos particularmente difíceis, representam diferentes etapas de uma caminhada que contribuiu decisivamente para a consolidação da Igreja em Timor-Leste.

E essa história toca de modo muito particular a Arquidiocese de Évora.

Como recordaria o Núncio Apostólico, D. Andrés Carrascosa Coso, na Eucaristia de 19 de agosto, “não é por acaso que esta cerimónia é aqui em Évora”. A ligação entre as duas Igrejas foi sendo construída ao longo de décadas: D. José Joaquim Ribeiro foi bispo auxiliar de Évora antes de partir para Timor-Leste, houve formação de seminaristas timorenses no Seminário de Évora e, ainda hoje, a Arquidiocese acolhe jovens de Timor-Leste em formação.

É uma ligação que, por isso, não pertence apenas ao passado.

A pergunta que atravessou estes dias foi também a pergunta pelo futuro: como continuar hoje a missão que aqueles pastores receberam e serviram?

Conhecer a história para compreender o presente

O dia 18 acrescentou à dimensão celebrativa uma importante dimensão cultural e académica. A Jornada Académica e Cultural de Timor, realizada nos Salesianos de Évora, permitiu aprofundar a história e a realidade daquele país e refletir sobre o contributo da Igreja e da evangelização na construção da sua identidade.

A conferência dedicada à “Secularização e mudança de paradigma no anúncio do Evangelho em Timor-Leste” colocou em diálogo a história da evangelização com os desafios que hoje se colocam à Igreja timorense.

Este momento foi particularmente importante porque permitiu que a memória dos três prelados não ficasse encerrada numa evocação do passado. A pergunta que atravessou estes dias foi também a pergunta pelo futuro: como continuar hoje a missão que aqueles pastores receberam e serviram?

Uma Igreja que continua a cantar em tétum

A resposta esteve também na noite de 18 de agosto, na Igreja do Espírito Santo.

A Eucaristia em tétum, presidida pelo Bispo de Baucau, D. Leandro Maria Alves, e concelebrada pelo Arcebispo de Évora, D. Francisco José Senra Coelho, foi talvez um dos sinais mais expressivos de que a história recordada nestes dias não é uma história terminada.

Naquela igreja, a língua, os cânticos, a participação da comunidade e a presença de crianças, jovens e famílias timorenses deram rosto à Igreja que nasceu e cresceu naquele território e que hoje continua a caminhar.

Foi uma celebração particularmente significativa depois de um dia dedicado à reflexão sobre a evangelização. A Igreja timorense apresentou-se não como uma realidade do passado, mas como uma Igreja viva, jovem e portadora de esperança.

E esse talvez tenha sido um dos sinais mais fortes de toda esta semana: os três prelados regressam à terra onde serviram, mas encontram uma Igreja que continua a missão.

Os restos mortais dos pastores regressam a Timor-Leste, mas a Igreja que os acolherá é uma Igreja renovada, com novas gerações, novas vocações e novos desafios. É uma Igreja que recebeu o testemunho daqueles que a precederam e que agora é chamada a transmiti-lo às gerações futuras.

“Os pastores passam, Cristo permanece”

Foi na Sé Metropolitana de Évora, no dia 19, que esta caminhada atingiu o seu momento central.

A Eucaristia de despedida, presidida pelo Núncio Apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso, reuniu à volta dos três prelados representantes da Igreja, da comunidade timorense e das instituições portuguesas e timorenses. A celebração tornou-se um momento de ação de graças por uma história de evangelização, fidelidade e comunhão que une profundamente Portugal e Timor-Leste.

Na sua homilia, o Núncio deu a esta celebração uma chave de leitura que ultrapassa largamente a trasladação dos restos mortais.

Os três pastores, afirmou, regressam “a uma Igreja que ajudaram a construir, a uma comunidade viva, a um povo que sabe agradecer aqueles que o serviram”. Regressam, portanto, não apenas à terra, mas à Igreja que ajudaram a edificar e que hoje continua a sua missão.

Esta ideia permite compreender o verdadeiro significado destes três dias em Évora.

A memória não foi celebrada para ficar voltada para trás. Foi celebrada para recordar que uma missão recebida continua a produzir frutos.

Uma Igreja que nasceu da missão e hoje é sinal de esperança

Na sua reflexão, D. Andrés Carrascosa recordou também os períodos de grande sofrimento vividos pelo povo timorense. Durante décadas, a fé foi para muitas famílias lugar de consolação, resistência e esperança. A Igreja tornou-se espaço de oração, defesa da dignidade humana, reconciliação e serviço ao povo.

Mas, ao recordar esse passado, o Núncio não deixou de olhar para o presente.

A mensagem mais forte foi precisamente a de que Timor-Leste oferece hoje ao mundo “um admirável testemunho de esperança, de juventude e de profunda confiança em Deus”.

É esta realidade que deu uma particular força aos acontecimentos vividos em Évora.

Os restos mortais dos pastores regressam a Timor-Leste, mas a Igreja que os acolherá é uma Igreja renovada, com novas gerações, novas vocações e novos desafios. É uma Igreja que recebeu o testemunho daqueles que a precederam e que agora é chamada a transmiti-lo às gerações futuras.

Como sintetizou o Núncio Apostólico, “os pastores passam, Cristo permanece, o Evangelho continua a ser anunciado”.

Uma Igreja que nasceu da missão e hoje é sinal de esperança

Na sua reflexão, D. Andrés Carrascosa recordou também os períodos de grande sofrimento vividos pelo povo timorense. Durante décadas, a fé foi para muitas famílias lugar de consolação, resistência e esperança. A Igreja tornou-se espaço de oração, defesa da dignidade humana, reconciliação e serviço ao povo.

Mas, ao recordar esse passado, o Núncio não deixou de olhar para o presente.

A mensagem mais forte foi precisamente a de que Timor-Leste oferece hoje ao mundo “um admirável testemunho de esperança, de juventude e de profunda confiança em Deus”.

É esta realidade que deu uma particular força aos acontecimentos vividos em Évora.

Os restos mortais dos pastores regressam a Timor-Leste, mas a Igreja que os acolherá é uma Igreja renovada, com novas gerações, novas vocações e novos desafios. É uma Igreja que recebeu o testemunho daqueles que a precederam e que agora é chamada a transmiti-lo às gerações futuras.

Como sintetizou o Núncio Apostólico, “os pastores passam, Cristo permanece, o Evangelho continua a ser anunciado”.

Évora e Timor-Leste: uma relação que não termina aqui

Para a Arquidiocese de Évora, estes três dias constituíram também uma oportunidade para reconhecer e renovar uma relação que ultrapassa a dimensão histórica.

A presença de jovens timorenses em formação, a ligação ao Seminário, a passagem de pastores timorenses pela Igreja de Évora e a participação regular da comunidade timorense na vida arquidiocesana mostram que esta relação continua a ser construída no presente.

Por isso, a trasladação não deve ser entendida como o encerramento de um capítulo, mas como um momento de renovação de uma comunhão que permanece viva.

A presença do Núncio Apostólico, do Bispo de Baucau e do Arcebispo de Évora, juntamente com sacerdotes, seminaristas, religiosos, jovens e fiéis timorenses e portugueses, tornou visível essa comunhão entre Igrejas.

O próprio D. Francisco Senra Coelho, ao acolher o Núncio na Sé, sublinhou que aquela celebração ultrapassava a dimensão da Arquidiocese e abria os braços à eclesialidade de Portugal e de Timor-Leste.

Uma história recebida, uma missão a continuar

Ao partir de Évora, os três prelados levam consigo — agora no regresso definitivo à sua terra — uma parte da história da própria Arquidiocese.

Mas deixam também um desafio.

Se a memória de D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e Monsenhor Martinho da Costa Lopes foi celebrada com gratidão, essa gratidão transforma-se em responsabilidade: responsabilidade de continuar a construir pontes, aprofundar a cooperação entre as Igrejas, acompanhar os jovens timorenses e fortalecer os laços de fraternidade que unem Évora e Timor-Leste.

Os três dias mostraram que há uma história que não pode ser apagada, porque não é apenas uma história de pessoas ou de lugares. É uma história de fé partilhada.

E mostraram também que essa história continua viva.

Na Igreja do Espírito Santo, a comunidade timorense rezou e cantou em tétum. Nos Salesianos, a história da evangelização foi estudada e debatida. Na Sé, a Igreja universal reuniu-se para dar graças e confiar os três pastores ao Senhor.

Entre memória e futuro, entre Évora e Timor-Leste, estes dias deixaram uma certeza: a missão continua, a Igreja está viva e a esperança tem rosto jovem.

É esse o melhor modo de compreender o regresso dos três prelados: não como o fim de uma história, mas como a passagem de um testemunho para uma nova geração.

Uma geração que, como afirmou o Núncio Apostólico, encontra em Timor-Leste uma Igreja que permanece firme na esperança e generosa na caridade.

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