Simpósio internacional em Fátima assinala os 100 anos da beatificação e os 50 anos da canonização de Santa Beatriz da Silva, destacando a atualidade do seu testemunho de contemplação, caridade e santidade.
Santa Beatriz da Silva continua a inspirar a Igreja a redescobrir o essencial da vida cristã, num caminho que parte do silêncio e da contemplação para se traduzir numa presença missionária no mundo. Esta foi uma das ideias destacadas na sessão de abertura do simpósio internacional Santa Beatriz da Silva e a Ordem da Imaculada Conceição: História, espiritualidade e expressões culturais, que decorre hoje e amanhã, em Fátima.
O arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, evocou o testemunho da fundadora da Ordem da Imaculada Conceição como um convite à renovação interior e à santidade, sublinhando a importância de modelos de vida capazes de desafiar a rotina e de devolver profundidade às escolhas quotidianas.
“Precisamos de modelos de vida, de desafios, de sinais de radicalidade que nos tirem de uma espécie de marasmo em que, muitas vezes, a rotina nos coloca na vida”, afirmou, recordando que as motivações mais profundas, o esforço, o sacrifício e a abnegação permanecem frequentemente no silêncio do coração, longe do reconhecimento público.
Para o prelado, a vida de Santa Beatriz da Silva constitui uma oportunidade para redescobrir o valor da interioridade e para fazer da experiência espiritual um impulso para a missão. Nesse sentido, considerou o simpósio uma “convocatória” e uma “provocação” a uma peregrinação interior, capaz de conduzir a uma “Igreja em saída, uma Igreja missionária”.
Uma mulher que marcou a história
O historiador José Eduardo Franco, presidente das comissões científica e organizadora do simpósio, destacou Santa Beatriz da Silva como uma figura de referência na história da liderança feminina, defendendo a importância de aprofundar o conhecimento sobre a sua vida e o seu legado.
“É uma fundadora portuguesa que merece ser estudada, até no que eu chamo da história da liderança feminina”, afirmou à Agência ECCLESIA, salientando o contributo de mulheres que tiveram um papel determinante na história, mas que continuam, muitas vezes, esquecidas.
“Recuperar este conhecimento de Santa Beatriz da Silva é também recuperar o valor de muitas mulheres que deixaram marcas relevantes na história de Portugal e na história da humanidade”, acrescentou.
O simpósio reúne investigadores e especialistas para aprofundar diferentes dimensões da vida e da influência da santa portuguesa, incluindo o seu itinerário de Campo Maior a Toledo, a história da Ordem da Imaculada Conceição em Portugal e na Arquidiocese de Évora, a iconografia de Santa Beatriz, a sua presença na cultura e o impacto da sua canonização em Portugal.
José Eduardo Franco sublinhou ainda a necessidade de aprofundar a investigação histórica, através de nova documentação e de interpretações renovadas sobre a ação e o legado desta personalidade da história portuguesa.
A contemplação como fonte de vida nova
A atualidade do testemunho de Santa Beatriz da Silva manifesta-se também na vitalidade da Ordem da Imaculada Conceição, que, segundo o historiador, continua a atrair vocações jovens e a manter comunidades dinâmicas.
A vida contemplativa, explicou, constitui um caminho de realização humana e de ligação a Deus através da oração, permitindo levar à Igreja e à humanidade uma fonte de vida nova.
Num tempo marcado pela aceleração e pela dificuldade em encontrar momentos de recolhimento, José Eduardo Franco destacou a necessidade de recuperar o silêncio, a reflexão e o equilíbrio interior.
“A Ordem da Imaculada Conceição, e as suas comunidades, ensina-nos isso: a necessidade da contemplação, de parar, de pensar, de fazer silêncio, para nos revitalizarmos interiormente e podermos viver de forma mais equilibrada e mais feliz”, afirmou.
Contemplar Cristo no rosto dos pobres
Também a Irmã Célia Cabecinhas, superiora-geral da Congregação das Concepcionistas ao Serviço dos Pobres, destacou Santa Beatriz da Silva como uma inspiração para a vivência da santidade e da caridade.
Embora a congregação que dirige não tenha sido fundada por Santa Beatriz, a sua experiência contemplativa e o seu sentido da caridade constituem uma referência para a fundadora, Madre Maria Isabel da Santíssima Trindade, e para a missão de serviço aos mais pobres.
“Ela tinha muito sentido da caridade e partilhava-as. É isso que nós queremos viver, já que o Senhor nos chama ao serviço dos pobres”, afirmou à Agência ECCLESIA.
A religiosa estabeleceu, assim, uma ligação entre a contemplação vivida pelas monjas da Ordem da Imaculada Conceição e a missão das Concepcionistas ao Serviço dos Pobres, que procuram contemplar Cristo nos mais necessitados e servi-los.
O simpósio internacional, que assinala os 100 anos da beatificação e os 50 anos da canonização de Santa Beatriz da Silva, propõe, deste modo, uma redescoberta da sua herança histórica e espiritual. Do silêncio dos claustros ao compromisso com o mundo, o seu testemunho permanece um convite à santidade, à renovação interior e a uma Igreja capaz de transformar a contemplação em missão.
