O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) considera que a Igreja tem ainda um caminho a percorrer na aplicação da exortação apostólica Amoris Laetitia, sublinhando a importância de acompanhar todas as famílias, com especial atenção às que vivem situações de maior fragilidade.
D. Virgílio Antunes, bispo de Coimbra, fez este balanço após participar no encontro internacional «Dez anos após Amoris Laetitia: anunciar o Evangelho com as famílias hoje», que decorreu no Vaticano, de 7 a 14 de outubro, reunindo responsáveis das Igrejas Orientais e presidentes das conferências episcopais.
Em declarações à Agência ECCLESIA e à Renascença, o presidente da CEP destacou que a verdade sobre a família deve ser sempre acompanhada pela misericórdia e pela proximidade pastoral. «A Igreja tem de ser perita em misericórdia», afirmou, defendendo uma ação pastoral capaz de acolher e acompanhar as realidades concretas vividas pelas famílias.
Acompanhar as famílias nas suas realidades concretas
No balanço dos trabalhos, D. Virgílio Antunes sublinhou que a recepção da Amoris Laetitia, publicada pelo Papa Francisco em 2016, continua a exigir trabalho nas dioceses. Na sua perspectiva, a reflexão sobre este documento não deve centrar-se exclusivamente no capítulo dedicado às situações de divorciados recasados, mas abranger o conjunto dos desafios que marcam a vida familiar.
O bispo de Coimbra salientou que uma das principais mudanças promovidas pela exortação apostólica foi a passagem de considerações genéricas para uma atenção mais concreta às experiências das famílias, incluindo as situações mais dolorosas e complexas.
Sem deixar de reafirmar a doutrina da Igreja sobre o matrimónio e a família, o responsável defendeu que esta não pode constituir um impedimento ao conhecimento e ao acompanhamento das diferentes realidades familiares.
«O Evangelho sempre propõe caminhos», recordou, sublinhando que a missão da Igreja passa por ajudar as pessoas a encontrar percursos de esperança, através de uma presença próxima e de um acompanhamento pastoral atento.
Em Portugal, a Comissão Episcopal do Laicado e Família realizou um levantamento sobre a recepção da Amoris Laetitia, identificando iniciativas e trabalho desenvolvido em várias áreas, embora, segundo D. Virgílio Antunes, parte desse esforço permaneça ainda pouco visível ou conhecido.
O presidente da CEP apelou, por isso, a um maior protagonismo das famílias cristãs, não apenas na vida da Igreja, mas também na sociedade e na relação com outras famílias, sobretudo aquelas que enfrentam situações mais complexas.
Preocupação com a saúde do Papa Leão XIV
À margem do encontro, D. Virgílio Antunes manifestou também tristeza pela ausência do Papa Leão XIV na Missa e na sessão de encerramento dos trabalhos, a 14 de outubro, expressando o desejo de que o Pontífice recupere plenamente a saúde para prosseguir a missão que lhe foi confiada.
Questionado sobre os possíveis efeitos da situação clínica do Papa na agenda internacional e numa eventual visita a Fátima, em 2027, o bispo de Coimbra considerou que a prioridade deve ser o «restabelecimento rápido e total» do Santo Padre, evitando antecipar cenários ou exercer pressões.
O responsável recordou ainda que a presidência da Conferência Episcopal Portuguesa já tinha reiterado o convite ao Papa e aos responsáveis da Secretaria de Estado, numa audiência privada realizada no final de agosto.
Na mensagem divulgada no encerramento do encontro, Leão XIV comprometeu-se a apresentar reflexões sobre os trabalhos e apelou ao protagonismo das famílias na vida das dioceses.
Dez anos depois da publicação da Amoris Laetitia, a reflexão promovida no Vaticano reafirma, assim, o desafio de construir uma pastoral familiar que una a fidelidade ao Evangelho à misericórdia, à escuta e ao acompanhamento das famílias nas suas circunstâncias concretas.
Foto: Vatican Media
