Um Seminário de Formação para sócios e voluntários dos projetos sociais da
Associação Fratelli Tutti de Elvas, Portugal, decorreu nestes dias na sede da Associação
Fratelli Tutti de Elvas, o Colégio Luso-Britânico.
Com mais de 60 participantes, 6 oradores e muitas partilhas e testemunhos de jovens e
adultos, este Seminário foi o terceiro que a Associação Fratelli Tutti organizou, desde a sua
criação no final de 2023. Os Estatutos da Associação prevê uma formação intensiva anual
para os seus sócios e, graças a Deus, temos conseguido reunir um bom grupo de voluntários
e Sócios todos os anos.
O encontro teve início com um momento contemplativo, orientado pelo jovem João
Maria Carvalho, músico e bolseiro universitário que, com outros jovens, nos ajudaram a
entrar no espírito do tema: Os refrãos dos cânticos , “SOU COMO UMA TERRA CHEIA
DE SEDE” e “TODA A CRIAÇÃO GEME EM TRABALHO DE PARTO” , despertaram
em nós o desejo de nos implicarmos, cada vez mais, por uma sociedade mais justa e mais
fraterna. Um mundo melhor é possível, se todos nos empenharmos num amanhecer de
Esperança. É urgente despertarmos do sono, da apatia e da indiferença e abrirmo-nos à
Fraternidade e ao Amor. Terminámos este momento cantando mais um refrão que nos
impactou por dentro: “Arpa e Cítara acordem! Vamos despertar o amanhecer”.
Passámos, de seguida, ao primeiro painel de oradoras com o tema: As “Fomes”. Isabel
Jonet, Presidente da Federação Portuguesa dos Bancos alimentares contra a Fome, abordou o
tema da pobreza em Portugal e definiu o Banco Alimentar , “como uma rede com uma
missão: lutar contra o desperdício de alimentos e assegurar o direito de todos e todas à
alimentação para uma vida e um futuro melhor. Ao dar alimentos podemos, também, doar
esperança, não num pacote, mas num gesto, num olhar, num sorriso”. Graça Luna Pais,
psicóloga no Estabelecimento Prisional de Elvas, há mais de 30 anos, partilhou a fome de
Liberdade interior e exterior de todos nós e, em especial, dos reclusos, agradecendo imenso o
trabalho da Associação Fratelli Tutti junto dos reclusos com o projeto “Estava preso e
visitaste-Me” , pelo acompanhamento espiritual e humano que fazem os voluntários junto de
pessoas privadas de liberdade, ajudando-as “a que cumpram a pena com dignidade e
reflexão e a perceber que o fim deste tempo não deve significar o fim da luta mas sim o
desafio do recomeço de uma nova vida em liberdade, sendo uma nova pessoa”.
A seguir a Raquel Conceição, Presidente da CPCJ, Comissão de Proteção de Criança e
Jovens, falou-nos da situação de carência de tantas crianças e adolescentes que sofrem da
ausência de amor e carinho, que sofrem de maus tratos físicos ou psicológicos, ou são
vítimas de abusos sexuais, ou estão abandonadas e entregues a si próprias. Chamou à atenção
de todos e todas que “devemos denunciar quando conhecemos crianças nestas condições de
risco que põem em perigo a sua segurança, saúde, educação ou desenvolvimento”.
Depois de uma pausa para café e descontração, foi a vez de os jovens coordenados
pela Rita Malpique, advogada no Centro ISMAILI IMAMAT, de Lisboa, chamar a atenção
para a “fome e sede” dos jovens que passa “pelo sonho de uma Igreja que escuta os jovens
que procuram sentido e significados para as suas vidas, que querem estar na Igreja como
quem serve e “lava os pés” aos mais fracos e fragilizados”. Com a Rita, mais cinco jovens
partilharam o seu testemunho e desejo de contribuírem através do seu trabalho e
compromisso de Fé para “reinventar o conceito de comunidade, de encontrar novas formas
de unir pessoas, propósitos e esperanças”. Querem ser a Esperança Sinodal caminhando
juntos por uma Igreja viva.
A seguir ao almoço e a um tempo de convívio, foi a vez de tratar o tema das Fomes e
Sedes Espirituais transversais a todas as pessoas, sejam elas jovens ou adultas, crentes ou
não crentes. O Padre Manuel Morujão S. J, dissertou sobre “A FOME DE DEUS TÃO
ATUAL COMO A FOME DE PÃO”. Salientou que “não satisfazer a fome de Deus
verdadeiro cria a fome de ídolos, seus substitutos” Salientou também “que devemos unir a
fome de Deus com a fome de servir o próximo, pois “ser cristão de verdade é dar dignidade
ao pobre, é ver Cristo no Irmão”. Oferecer o pão material deve vir acompanhado da oferta do
pão que mata a fome de Deus”
Joana Moura, membro do grupo MTA Famílias e Médica de Saúde Familiar no Centro
de Saúde de Santo Tirso, falou-nos do “Castelo Interior” como alimento e fonte de sentido.
Deu o seu testemunho pessoal, de como foi importante para ela ter tido uma educação
teresiana, ter sido membro ativo do MTA, ter participado em várias atividades sociais e ter
refletido tantas vezes nos ensinamentos de Teresa e de Henrique de Ossó. De forma simples,
serena e alegre deu testemunho da sua caminhada espiritual alimentada na escuta da Palavra,
na oração pessoal e nos ensinamentos de Teresa e Henrique. “ À medida que fazemos a
nossa caminhada pelas sete moradas do Castelo Interior chegamos à conclusão de que
esta comunhão com Ele é para que” nasçam obras”, como nos diz Teresa. E todas as obras
pequenas ou grandes devem-nos pôr numa atitude de “lavar os pés” aos nossos irmãos e
serem carregadas de Amor pois “O Senhor não olha tanto à grandeza das obras, mas ao
Amor com que são feitas” (S. Teresa)
Depois de mais uma pausa para descanso e café, foi a vez de um painel de
testemunhos partilhando experiências de como saciam a sua sede Interior de Deus. Este
Painel orientado pela Paula Barradas, médica pediatra e membro do MTA de adultos de
Elvas. A Paula convidou para o painel a Irmã Amélia Martins stj, a Jú Laranjeira e o seu
filho, Miguel Laranjeira, para os quatro partilharem com a Assembleia a maneira e meios
que utilizam para alimentarem a sua sede de Deus e saciarem a sua fome espiritual no castelo
interior onde Deus habita. Cada um a seu modo e circunstâncias da vida, testemunhou que é
importante um plano espiritual de vida para servir e amar ao jeito de Jesus e que “O
VERDADEIRO AMOR É AQUELE QUE SE TRADUZ EM OBRAS”
O dia terminou com a celebração vespertina da Eucaristia dominical presidida pelo
Padre Manuel Morujão S. J. um dos oradores do Seminário. E que sublinhou a Eucaristia
como o alimento do PAI para as fomes do mundo. Foi uma Eucaristia muito vivida ao ritmo
da “fome e da sede” que foi mote deste Seminário.
No domingo, dia 12, o dia começou com a Oração da Manhã, centrada no tema da
Misericórdia, já que se celebrava o domingo da Misericórdia. Veio mesmo a calar este dia.
Para isto se criou a Associação Fratelli Tutti. Para ser instrumento da Misericórdia de Deus
neste mundo frio e vazio de sentido.
A seguir o padre Manuel Morujão S.J. apresentou o último tema: “PASSAR DO
SABER AO SABOREAR”
Com este tema o padre Manuel Morujão convidou-nos a “Visitarmo-nos a nós
mesmos. Só assim encontraremos o Senhor”. Lembrou-nos o que disse o papa Leão XIV:
“É na interioridade, cultivada na Oração e na Comunhão com Deus, que se enraízam os
melhores frutos de bem segundo a ordem do Amor”. E assim os nossos projetos sociais, em
favor dos mais frágeis e pequeninos, saem do nosso coração onde Deus Amor habita e vão
abraçar e amar outros e outras onde Deus habita também, os nossos irmãos e irmãs.
Depois de um tempo de silêncio e de oração para contemplar e saborear a riqueza
destes dois dias o Seminário terminou com uma Celebração de Envio e Consagração a
Maria, a Mulher Crente e solidária por excelência. Nesta celebração rezamos assim:
Eis-me aqui, Senhor, envia-me. Leva-me aos que sofrem, aos frágeis aos
marginalizados e empobrecidos.
MARIA. Quero ser como tu:
Enamorada de Deus, mas indo “apressadamente” para as periferias existenciais do mundo,
onde o teu Filho me espera para O servir e amar em todos os homens e mulheres que têm
“fome e sede”
E sei que não vou só. Somos muitos a sonhar, a confiar e a esperar. Vamos de mãos dadas e
Deus vai connosco.
Maria de Fátima Magalhães stj
