O que os levou a escolher este caminho? Como viveram o percurso até aqui? E o que significa, para cada um, dar agora este passo? O Departamento de Comunicação da Arquidiocese de Évora colocou três perguntas a cada um dos dois futuros sacerdotes, que partilham as suas respostas e um pouco da história que os trouxe até este dia.
A Sé de Évora recebe, no próximo dia 8 de novembro, a ordenação presbiteral de David Novo e Manuel Godinho, numa celebração marcada para as 17h00 e presidida por D. Francisco Senra Coelho, Arcebispo de Évora.
Os dois futuros sacerdotes realizaram o seu percurso de formação no Seminário Redemptoris Mater de Évora e no Instituto Superior de Teologia de Évora, tendo sido ordenados diáconos a 29 de junho deste ano, na Igreja de São Francisco, na cidade-museu, na Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo.
A ordenação presbiteral representa uma nova etapa no caminho vocacional dos dois diáconos, que passam a assumir o ministério sacerdotal, ao serviço da Igreja, através do anúncio da Palavra, da celebração dos sacramentos e do acompanhamento das comunidades cristãs. Para esta celebração, David Novo e Manuel Godinho escolheram como lema uma passagem do profeta Jeremias: “Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir”, (Jr 20, 7). A Arquidiocese de Évora convida todos os fiéis a participarem na celebração no culminar da semana de oração pelos seminários.
Manuel Godinho
Natural de Barrancos, entrou no Seminário em 2016 e realizou uma experiência missionária no Chile. Depois da ordenação diaconal, passou a exercer o seu serviço pastoral em Campo Maior.

Como nasceu a sua vocação sacerdotal e quais foram os momentos mais marcantes deste caminho até chegar à ordenação presbiteral?
A minha vocação nasceu no contexto das Jornadas Mundiais da Juventude de 2016, em Cracóvia. Não pensava ser padre, pois tinha tudo pensado para seguir medicina, ou algo relacionado com a saúde.
Mas no contexto da JMJ 2016, ao ouvir o evangelho da missa de encerramento das Jornadas, foi como se tudo se alterasse. Eu era Zaqueu, a quem o Senhor convidou a descer e a deixá-lo entrar na casa do meu coração. Os momentos mais marcantes foram marcados pela novidade. Em primeiro lugar, o sair de Barrancos, a minha terra natal, e vir para Évora, para o Seminário Redemptoris Mater. Estudar algo diferente do que eu estava habituado, pois estudava na área das ciências, e de repente mudar para o curso de filosofia e teologia, foi algo que me marcou, pois não achava que seria capaz e que não era a “minha área”. Mas o Senhor fez o curso por mim, como costumo dizer. O segundo momento mais marcante, foi a missão como catequista itinerante, no contexto do Caminho Neocatecumenal, que realizei no Chile, em 2023. Aí pude tocar o Senhor, nos irmãos que me acompanharam e nos que ajudei na sua caminhada para o amadurecimento da fé.
O que significou para si a experiência do diaconado e de que forma o preparou para assumir o ministério sacerdotal?
O diaconado tem sido também uma surpresa, principalmente porque dá um sentido ao serviço. Já ao serviço das paróquias de Campo Maior, o diaconado tem-me ajudado a experimentar uma felicidade interior por realizar pequenas coisas, mas que no fundo, dão sentido ao diaconado, como é o caso de assistir os idosos, ao levar-lhes às suas casas o viático, estar com eles e acompanhá-los, estar com os jovens, acompanhá-los, ajudá-los nas suas interrogações e preocupações.
Num tempo de tantos desafios para a Igreja e para os jovens, que sacerdote deseja ser e que mensagem gostaria de deixar a quem sente o chamamento de Deus?
Poderia partir da minha experiência pessoal: Deus é fiel! Disse estas palavras no dia da minha ordenação diaconal, exatamente porque tive muitos receios em confiar em Deus e na Sua vontade, ao longo do meu tempo de seminário, e apesar de tudo, apesar de eu ser infiel com o Senhor em tantas coisas no meu dia-a-dia, Ele continua a ser fiel comigo e a confiar-me agora o sacerdócio. Quero ser um sacerdote à imagem de Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, que apesar das dificuldades e interrogações dos tempos e da história, permanece na Cruz, a dar a vida pelos homens. A mensagem resume-se a isto: Não hesitem em entregar-se plenamente a Deus. Ele é fiel.
David Novo
Natural de Oeiras, ingressou no Seminário em 2018. O seu percurso de formação incluiu também uma experiência de itinerância missionária em Cabo Verde.

Quando percebeu que Deus o chamava ao sacerdócio?
A minha chamada ao sacerdócio começou muitos anos antes de eu entrar no seminário. Em 2010 com a vinda do Papa Bento XVI a Portugal, o Caminho Neocatecumenal organizou uma peregrinação.
Recordo-me claramente de sentir pela primeira vez um forte chamamento que o Senhor me fazia, que se confirmou e aclarou na Jornada Mundial da
Juventude em 2013 no Rio de Janeiro. Para mim o chamamento pareceu-me na altura uma condenação.
Como é possível que eu, que só queria uma vida “normal”, Deus me pudesse chamar a uma missão com a qual eu não me sentia minimamente identificado. Foi um caminho duro de discernimento, um combate entre os meus projetos e o projeto de Deus. Eu entrei no seminário em 2018, por graça e misericórdia de Deus, que nunca desistiu de mim e que aos poucos me foi libertando das minhas amarras e seduzindo-me, através do Caminho Neocatecumenal. Deus é a única felicidade.
O que significa ser padre numa Igreja que é chamada a escutar, acompanhar e caminhar com todos? Como está a viver este tempo de
preparação?
Ser padre na Igreja hoje e sempre, significa entregar a vida toda por amor. Há muitas formas de o fazer. O importante é escutar e discernir a vontade de Deus diariamente. O meu chamamento vocacional e a minha formação têm um cariz missionário, estou disposto a servir Deus e a Igreja em qualquer parte do mundo ao serviço da evangelização. Neste tempo de preparação o Senhor visitou-me de modo muito especial no retiro de preparação para a ordenação.
Bendito seja Deus por me revelar o seu amor e a sua misericórdia. Espero levar esse amor nos trabalhos normais que desempenho no dia-a-dia ao serviço das paróquias de Borba.
Se tivesse diante de si um jovem que sente inquietação vocacional, mas tem medo de dar o primeiro passo, o que lhe diria?
Não conheço ninguém que tivesse mais medo do que eu de dar o primeiro passo. O importante é perceber que o primeiro passo é apenas isso, com todos o Senhor quer fazer um caminho. Nada acontece imediatamente, nada acontece por magia. O importante é não fechar a Deus as portas, é continuar a escutar a sua voz, continuar a procurar a sua graça na nossa vida. Eu por mim, nunca teria tido a coragem de entrar no seminário, foi Deus que me foi libertando pouco a pouco das minhas seguranças.
Vale a pena arriscar em Deus, Ele é o único que nos pode fazer felizes, isto não o digo como uma teoria, mas é a experiência da minha vida.
