Entre o som de um piano, as conversas no pátio e a missa de quarta-feira, há em Évora uma casa que procura acompanhar os estudantes nas várias dimensões da vida universitária
Leonor Centeno
Quando se entra no Casarão, em Évora, é possível que a primeira coisa que se ouça seja o som de um piano. Ao instrumento está Afonso Dias, estudante de Música, que encontrou nesta casa um lugar onde pode continuar a praticar, mesmo quando os pianos da faculdade estão ocupados.
Afonso chegou a Évora vindo de Lisboa e conheceu o Casarão através das redes sociais. Depois de participar na primeira missa e no primeiro encontro, começou também a utilizar o espaço para estudar e tocar piano. “Vim conhecer o Casarão através das redes sociais e, depois da primeira missa e do primeiro encontro, percebi que podia também estudar e tocar piano aqui”, conta. O seu testemunho sobre a forma como conheceu o Casarão, o acolhimento que encontrou e a possibilidade de utilizar o piano mostra, desde logo, que esta é uma casa que ultrapassa as atividades religiosas.
No Casarão, os estudantes podem estudar, desenvolver os seus interesses e encontrar um ambiente de acolhimento. O piano tocado pelo Afonso é apenas uma das formas através das quais a casa ganha vida no quotidiano.

Noutra sala encontra-se Rita Costa, coordenadora dos caseiros. Já está a realizar o seu estágio como professora primária, mas continua muito presente na vida do Casarão, colaborando com o padre Miguel Gonçalves Ferreira sj e ajudando a coordenar o grupo de estudantes voluntários.
Foi há cerca de três anos, por sugestão de uma amiga, que Rita começou a frequentar o espaço. As missas, as orações mensais e as noites temáticas fizeram-na regressar, até se tornar uma presença habitual e assumir responsabilidades na comunidade. Hoje, enquanto coordenadora dos 14 caseiros, ajuda a articular a comunicação entre os estudantes e a direção do Casarão, participa na organização das atividades e contribui para o funcionamento da casa.
“Comecei por vir por sugestão de uma amiga, mas fui ficando porque encontrei aqui uma comunidade e um espaço onde podia viver a fé com outras pessoas da minha idade”, explica Rita. Sobre a coordenação dos caseiros, acrescenta: “É uma responsabilidade grande, mas também uma forma muito concreta de cuidar desta casa e das pessoas que por aqui passam.” Para Rita, uma das descobertas mais importantes foi perceber que a fé também tem lugar na vida dos jovens e que pode ser vivida em comunidade.

No pátio exterior, Humberto Amaral e Marie Rita Potier encontram-se à conversa. Ele tem 19 anos e estuda Zootecnia; ela tem 18 anos e frequenta o primeiro ano de Enfermagem. São dois exemplos de estudantes que descobriram no Casarão um lugar onde podem estar com outros jovens, partilhar a fé e construir amizades.
Humberto chegou através de amigos e do convite de Ricardo, o seu padrinho académico, durante as praxes. Marie Rita conheceu o espaço através de uma amiga que é caseira e de outro colega que a incentivou a visitá-lo. Ambos encontraram ali algo que ultrapassa a participação nas atividades organizadas.
“Uma das coisas de que mais gosto é a proximidade com Deus e as amizades que se criam aqui”, afirma Humberto. Marie Rita destaca a importância do quotidiano partilhado: “Sei que posso vir estudar, estar com outras pessoas ou participar na missa, mas também sei que há aqui um lugar onde sou acolhida quando preciso.”
As experiências dos dois ajudam a mostrar como o Casarão se torna parte da vida universitária: não apenas através de iniciativas programadas, mas também nos encontros espontâneos e nas relações que se constroem ao longo do tempo.
Mas como nasceu esta casa?
O Casarão é um espaço da Pastoral Universitária de Évora, uma iniciativa da Arquidiocese de Évora ao serviço da comunidade académica. Embora pertença à Arquidiocese, foi confiado aos jesuítas para dinamizarem a sua atividade junto dos jovens universitários.
A ideia surgiu em 2017, com o padre Fernando Ribeiro SJ. O nome nasceu de uma observação simples: perante uma casa de grandes dimensões, o padre Fernando terá comentado que era um grande casarão. O nome ficou e passou a identificar o espaço que, desde então, procura ser uma segunda casa para os universitários.
A sua missão assenta no acolhimento, no encontro, na formação e no crescimento humano e espiritual. Pretende acompanhar os jovens ao longo do percurso académico, oferecendo-lhes oportunidades para aprofundar a fé cristã, desenvolver relações humanas e crescer enquanto pessoas responsáveis e disponíveis para servir os outros.
Atualmente, a comunidade jesuíta em Évora é liderada pelo padre Miguel Gonçalves Ferreira SJ, superior da comunidade e diretor do Casarão, que conta também com a presença do diácono Vasco Teixeira SJ.
A casa está aberta de segunda a quinta-feira, das 15h00 às 23h00. Nas salas de estudo e convívio, na cozinha partilhada e no pátio, os estudantes podem trabalhar, preparar refeições, conversar ou simplesmente estar.

A dimensão espiritual tem um lugar central nesta dinâmica. Às quartas-feiras, às 19h15, celebra-se a missa universitária, um dos momentos mais participados da semana. A adesão crescente de jovens tem levado, em algumas ocasiões, à transferência da celebração da capela para o salão, onde já se reuniram cerca de 100 pessoas.
Ao longo do ano, há também festas de abertura e de encerramento, noites temáticas com jantar e tertúlia, preparação para o Batismo e o Crisma, acompanhamento espiritual, retiros, peregrinações e outras propostas de formação na fé. As CVX universitárias, o coro e diferentes iniciativas de voluntariado alargam as oportunidades de participação e de compromisso.
Os 14 caseiros têm um papel importante nesta dinâmica, colaborando no acolhimento e na preparação das atividades. A casa não se constrói apenas a partir de quem a orienta, mas também daqueles que a frequentam e se disponibilizam para cuidar dela.
Ao longo dos anos, o Casarão tem procurado afirmar-se como um lugar onde a experiência universitária pode ser vivida em várias dimensões: académica, comunitária e espiritual.
O piano que se ouve à entrada, a conversa no pátio, o estudo partilhado, a missa de quarta-feira e as amizades que nascem entre estudantes de diferentes cursos fazem parte da mesma realidade.
Para uns, a porta de entrada é a curiosidade ou o convite de um amigo. Para outros, é a procura de um lugar para estudar, de uma comunidade de fé ou simplesmente de pessoas com quem partilhar esta etapa da vida.
É através destas experiências que se poderá compreender o que significa, para quem o frequenta, encontrar no Casarão uma segunda casa em Évora.
Informação:
Pastoral Universitária de Évora
Rua do Raimundo, 48 | Évora
Horário de 2f a 5f das 15h às 23h
Tel: 266706064
