“Quando cuidamos de alguém, pisamos terreno sagrado”

João Manuel Galhanas Mendes, da Pastoral Diocesana da Saúde, fala sobre o papel do humor, da proximidade e da escuta no acompanhamento de quem sofre. As Jornadas Diocesanas da Pastoral da Saúde, a 10 de outubro, são este ano dedicadas ao tema “O Sorriso de Deus – O Humor nos cuidados de saúde”
Rosário Silva

Este ano escolheram “O Sorriso de Deus – O Humor nos cuidados de saúde” como tema das jornadas. Porquê esta escolha e o que vos levou a querer refletir sobre o humor enquanto dimensão do cuidar?
A Comissão Diocesana da Pastoral da Saúde tem como um dos seus objetivos principais apoiar os núcleos paroquias no âmbito da pastoral da saúde, reúne uma vez por mês a fim de preparar as atividades que vai implementar ao longo do ano. Numas destas reuniões decidimos realizar novamente uma atividade mais alargada a destinatários para além dos núcleos paroquiais, sobretudo a profissionais e voluntários que trabalham no âmbito da Saúde, em lares, hospitais, centros de saúde, ipss etc. Esta atividade faz parte da programação anual desta comissão que em regra é realizada anualmente. Porque os acontecimentos mundiais são avassaladores e trágicos, sendo que o ambiente de tristeza, ansiedade e desânimo se projetam e podem influenciar muitas vezes aqueles que cuidam pessoas nas mais variadas situações de doença ou que acompanham pessoas idosas. Após alguma discussão sobre a temática que poderíamos oferecer este ano, ao lermos um pequeno texto de Pedro Chagas Freitas publicado nas suas redes socias como título “Só os deuses que sorriem nos salvam” a propósito do encantador e expressivo sorriso do Papa Francisco, decidimos tratar a temática do humor nos cuidados de saúde. Existe já bastante investigação nesta área e um dos professores que nos vai acompanhar (Prof. Luís
Sousa) é um dos peritos nacionais e doutorado nesta temática e a Dra. Marisa Silva e o Mark Mekelburg que estão no programa desenvolvem trabalho prático no acompanhamento de pessoas onde utilizam o humor como estratégia que reforça a humanização nos cuidados de saúde. Sabemos que a utilização do humor nos cuidados de saúde exige conhecimentos e competências próprias para além de bom senso, sensibilidade e empatia uma vez que cada pessoa reage de forma diferente conforme a sua própria sensibilidade, a sua cultura ou o seu estado de saúde, pelo que aceitação de uma estratégia deste tipo ou mesmo a resposta desencadeada é sempre diferente de pessoa para pessoa, exigindo uma intervenção com uma perícia enorme na sua utilização. Os estudos de investigação indicam que o humor como estratégia de cuidados de saúde pode provocar uma aproximação afetiva dos intervenientes, facilitando o bem-estar emocional, podendo reduzir a ansiedade ou minimizando agentes de stress, para além de fortalecer a relação empática entre o profissional e a pessoa em situação de doença. Dizia o Pedro Chagas naquele excerto que nos serviu de reflexão, que o Papa Francisco nos mostrou que o sorriso, por vezes, sabe mais que todos os tratados.

Pode parecer estranho falar de humor quando estamos perante a doença, o sofrimento ou a fragilidade. Como se pode usar o humor sem desvalorizar aquilo que a pessoa está a viver?
A investigação nesta área não revela que existe desvalorização dos sentimentos da pessoa em situação de doença, revela mesmo que é bastante útil na gestão das emoções no percurso de doença. Mark Mekelburg pela sua experiência no acompanhamento de crianças e suas famílias em situação de doença terminal, reforça a ideia da utilidade do humor na gestão do sofrimento mesmo que este sofrimento seja extremo e terminal. Recordo que já há bastantes anos, numa jornada da Pastoral da Saúde, este autor esteve connosco e mostrou-nos o que acabo de dizer com a sua própria experiência. Este ano volta a estar connosco para nos ajudar com a sua experiência prática, a reforçar a ideia de que a utilização do humor é uma estratégia nobre nos cuidados de saúde e é usada há bastante tempo nos hospitais e centros de saúde. Existem equipas bastante preparadas para a sua implementação. Alguns estudos nesta área revelam que o humor apresenta benefícios nas organizações e sobretudo nos cuidados de saúde, já que os profissionais mostram menos níveis de stress e estão mais motivados e satisfeitos com os resultados dos seus cuidados, formando equipas mais produtivas e mais coesas. Outros estudos revelam também que na vida de cada um de nós e nos nossos percursos de doença a utilização do humor pode ajudar a promover o bem-estar, a lidar com situações difíceis e desagradáveis, a reduzir a tensão, o stress e o desconforto podendo mesmo a aumentar a tolerância à dor e a fortalecer o sistema imunitário.

Na sua experiência enquanto responsável pela Pastoral da Saúde, que importância têm os pequenos gestos de proximidade, como uma palavra, uma conversa ou um sorriso, na vida de quem está doente ou se sente sozinho?
Há bastantes anos que os membros da comissão diocesana, no contacto com os núcleos paroquias, trabalham este aspeto da importância da proximidade com as pessoas que visitamos, idosos ou famílias em sofrimento ou em isolamento. Privilegiámos em muitas sessões de contacto nos diversos locais da diocese, a formação/informação sobre a relação de ajuda e as suas atitudes fundamentais: a compreensão empática, a consideração positiva ou aceitação incondicional e a autenticidade ou congruência, com a escuta ativa como estratégia fundamental. Não queremos formar profissionais, mas pretendemos fazer passar alguma informação para que os visitadores de doentes das paróquias da diocese estejam mais habilitados no contacto com as pessoas que visitavam. A relação de ajuda pode ajudar a “caminhar juntos”, ajudante e ajudado, numa atitude de confiança e de gratuidade, procurando juntos os sinais indicadores da boa direção, compartilhando os anseios e as esperanças, numa atitude de grande humildade e realismo por parte de quem se aproxima do doente. O Papa Francisco na sua mensagem do dia mundial do doente de 2019, lembrou-nos que o visitador de doentes é um amigo desinteressado, a quem se podem confidenciar pensamentos e emoções, através da escuta afetiva ele cria as condições para que o doente deixe de ser objeto passivo de cuidados para se tornar sujeito ativo e protagonista duma relação de reciprocidade, capaz de recuperar a esperança, mais disposto a aceitar as terapias.

Quais são hoje os principais desafios que a Pastoral da Saúde encontra no acompanhamento dos doentes, das famílias e também de quem trabalha nos cuidados de saúde?
Após o longo período de isolamento fruto da epidemia do Covid e da impossibilidade de contacto com os doentes e famílias, as equipas paroquiais de visitadores de doentes tiveram um retrocesso considerável. Muitos dos visitadores eram pessoas idosas e também doentes cuja saúde ficou também atingida por esta situação de doença tão grave em muitos casos. Nessa altura a equipa reunia online e aconselhámos as equipas não deixarem de contatar as famílias mesmo pelo telefone quando isso fosse possível, contudo em muitos casos não foi.

A comissão diocesana ofereceu um IPad a cada serviço do Hospital de Évora para que os doentes conseguissem contactar as suas famílias. Sabemos que os profissionais de saúde viviam momentos muito complicados e não conseguimos apurar a eficácia desta última medida, mas conseguimos saber que muitos doentes e famílias foram contactados pelo telefone pelos membros das equipas paroquiais durante esse período. Neste momento estamos a tentar reerguer e reanimar as equipas paroquiais de visitadores doente em toda a diocese, sabemos que muitas paróquias já retomaram há algum tempo a sua assistência a doentes e famílias no âmbito da pastoral da saúde, mas outras estão ainda um pouco em processo de desenvolvimento. A Comissão diocesana tem também como objetivo de motivar todos os voluntários para esta área pastoral. Nunca deixamos de nos deslocar as várias zonas da diocese para contatar os membros destas equipas e para os apoiar com informações e motivação para o exercício das suas funções pastorais.

Que mensagem gostariam que os participantes levassem consigo destas jornadas e, sobretudo, que pudesse depois passar para o seu quotidiano junto de quem precisa de ser cuidado?
Gostaríamos que os participantes pudessem refletir sobre a eficácia do humor nos cuidados que prestam, como profissionais ou como voluntários, para que ao longo da sua intervenção possam utilizar o humor como estratégia de aproximação e facilitação da própria intervenção respeitando o processo e as decisões de quem tratamos, cuidados ou visitamos. Aceitar cada pessoa no seu percurso de sofrimento, significa que, seja o que for que decida, nós continuamos a ter uma atitude positiva e a acreditar na sua capacidade de mudança positiva, que pode ou não concretizar-se. Hoje é preciso termos consciência que quando nos aproximamos de um doente, como dizia São João Paulo II, pisamos terreno sagrado. 

Há alguma situação ou história que tenha vivido no âmbito da Pastoral da Saúde que lhe tenha mostrado, de forma particularmente clara, a força que pode ter um sorriso ou um momento de humor?
Numa das Jornadas da Pastoral da Saúde que realizámos já há alguns anos, conforme anteriormente referi, convidamos o Mark Mekelburg da “Operação Nariz Vermelho” para nos falar sobre a sua experiência de acompanhamento de crianças e famílias em situação de sofrimento extremo.
Recordo que este ano o Mark vai estar connosco novamente. Naquele dia o Mark relatou-nos um episódio de uma das suas experiências que encontrei publicada por Andreia Afonso Guerreiro no (NIT.pt) e que podemos partilhar. (…) Era uma segunda-feira e estava no Hospital Garcia de Orta, em
Almada. O Dr. P. P. P. Pipoca e um colega viam pela primeira vez um rapaz. “Quando o encontrámos ele estava sentado na sala mesmo antes de entrar na pediatria. Magrinho, com óculos, cinco anos talvez.
Quando viu os doutores palhaços, começou a gritar, a levantar a mão. Uma semana depois, encontrámos a mesma criança, na mesma situação, e com a mesma reação. Então, procurámos saber qual era a situação daquela criança.” Descobriram que a criança não estava internada, mas, sim, que vinha todas as semanas fazer tratamentos. “Ao fim de um mês, dois, três meses, este menino gritava sempre que nos via.
‘Nunca vai baixar a guarda’”, pensámos. No quarto e quinto mês, os gritos eram cada vez menos intensos. Nunca Nunca conseguimos ficar nem na porta da sala. Ao fim de seis meses, chegámos à porta e o menino não levantou a mão. Olhou para nós e disse: ‘Hammm?’ Ficámos surpreendidos, olhámos um para o outro, e a nossa resposta foi a mesma: ‘Hammm?’ E durante um minuto e meio só dizíamos ‘ham’.
Saímos da porta e saltámos de alegria porque tínhamos conseguido ficar ali à porta em contacto com a criança. Seis meses só para conseguir ficar à porta.” Só um ano depois é que souberam o nome do menino: Pedro (nome fictício). Ao fim de um ano, o Pedro estava apaixonado pelos doutores palhaços. “Ao longo de todos estes anos, quando faço workshops ou palestras, esta é quase sempre a história que conto.” “Esta história tornou-se não só marcante por isto, mas porque o Pedro estava
especialmente apaixonado pelo Dr. P. P. P. Pipoca e pelo Dr. Chocapic. No ano seguinte, faleceu e a sua mãe, sabendo o impacto que os doutores palhaços tiveram no filho, convidou o Dr. Pipoca e o Dr. Chocapic para irem como doutores palhaços ao velório porque foi assim que ele nos conheceu. É uma memória que nunca vou esquecer.”

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