Arcebispo de Évora abriu o novo ano pastoral apelando a uma Igreja fiel à sua herança, mas capaz de se renovar e de responder, com criatividade e espírito de serviço, aos desafios do presente
R. Silva/P. Azadinho
“Uma linguagem, um dicionário, uma gramática entendível”. Foi assim que D. Francisco Senra Coelho apontou esta manhã, em Évora, uma das exigências que considera fundamentais para a Igreja no tempo presente: continuar fiel a Cristo e à sua história, mas ser capaz de falar de forma compreensível aos homens e mulheres de hoje.
O Arcebispo de Évora abriu neste 5 de outubro o novo ano pastoral da Arquidiocese, numa sessão que reuniu a Igreja Diocesana nos Salesianos de Évora e marcou também a apresentação do plano pastoral 2026-2027, primeiro ano de um novo triénio.
Na sua primeira reflexão perante a assembleia, D. Francisco colocou Cristo no centro de toda a caminhada que agora começa. Mais do que reconhecer Jesus como uma figura determinante da história da humanidade, a Igreja é chamada, afirmou, a fazer a experiência de Cristo como presença viva e próxima, capaz de responder à procura e às inquietações do coração humano.
“Para nós, Jesus não é um ilustre. Para nós, Jesus é caminho, verdade e vida”, afirmou, lembrando que a missão da Igreja passa por levar Cristo no “mistério que celebra, no anúncio que proclama e no testemunho que apresenta”.
É também nesse testemunho que, segundo o Arcebispo, cada cristão é chamado a tornar presente Cristo no mundo. “Cada um de nós leva na sua vida Cristo. E espelha-o, reflete-o e apresenta-o aos outros”, disse.
D. Francisco Senra Coelho quis, sobretudo, aproximar esta reflexão do quotidiano. Defendeu que não basta falar de Cristo como uma figura do passado ou como alguém que marcou a história há dois mil anos. É necessário reconhecê-lo no “hoje, no agora e no aqui existencial”.
“Cada um de nós leva na sua vida Cristo. E espelha-o, reflete-o e apresenta-o aos outros”
“É muito importante que nesta Assembleia, neste Cenáculo Diocesano, esteja tão vivo Cristo no meio de nós, possamos dizer que Ele é nosso contemporâneo e que Ele é nosso conterrâneo no metro quadrado da nossa vida, da nossa existência”, afirmou.
É a partir dessa experiência que deve nascer a ação pastoral da Igreja. E aqui deixou um alerta à Diocese: por mais iniciativas, atividades ou projetos que sejam realizados, tudo pode perder sentido se Cristo deixar de estar no centro.
“Se nós fizermos tudo da nossa parte, mas sem Ele, esgotámo-nos. A nossa ação pastoral esgota-se e nós esgotámo-nos. A fecundidade é Ele”, afirmou.
A imagem da fecundidade esteve, aliás, presente em vários momentos da reflexão, com o Prelado a pedir que a ação da Igreja não seja entendida apenas como uma sucessão de atividades ou como uma questão de eficácia, mas como um caminho que exige abertura a Deus, oração e disponibilidade.
Fidelidade e renovação
No arranque deste novo ciclo pastoral, o Arcebispo colocou também em evidência uma tensão que deverá marcar a caminhada da Diocese: a necessidade de preservar a fidelidade à herança cristã sem deixar de responder às circunstâncias concretas do presente.
“Vamos pedir ao Senhor para sermos uma Igreja fiel”, afirmou, evocando o testemunho de todos aqueles que, ao longo de dois mil anos, transmitiram à Igreja a herança de Cristo e do Evangelho.
Mas essa fidelidade, sublinhou, não significa imobilismo.
“Respondendo ao nosso tempo, sendo a Igreja de Cristo para o hoje da nossa geração, com toda a criatividade, com todo o sentido de serviço”, afirmou.
É neste ponto que surgiu uma das expressões mais marcantes da intervenção: a necessidade de encontrar “uma linguagem, um dicionário, uma gramática entendível” para os contemporâneos.
Para D. Francisco, a Igreja deve ser capaz de comunicar a sua mensagem de forma que seja compreendida pelas pessoas do seu tempo, sem abdicar daquilo que recebeu. Uma renovação que, defendeu, deve acontecer “na fidelidade”, fazendo com que a Igreja seja “sempre renovada”.
“Respondendo ao nosso tempo, sendo a Igreja de Cristo para o hoje da nossa geração, com toda a criatividade, com todo o sentido de serviço”
“Não somos donos, somos apenas servidores”, afirmou ainda o Arcebispo, numa frase que sintetiza a responsabilidade que atribui à comunidade cristã: receber uma herança, cuidar dela e colocá-la ao serviço das pessoas e do tempo presente.
A reflexão de D. Francisco incluiu também um apelo à paciência e à capacidade de esperar. Num contexto em que muitas vezes a ação é medida pelos resultados imediatos, o Arcebispo lembrou que a construção da Igreja não se faz de forma automática ou mecânica.
“Devemos construir pedra a pedra, com paciência, com sentido de espera do tempo de Deus”, afirmou.
“Não é o nosso tempo da eficácia, mas é o tempo, o kairos de Deus”, acrescentou, defendendo que o Reino “não se constrói de modo mecânico”, mas através do testemunho e da humildade.
A oração, a vida interior, a comunhão e a fraternidade assumem, por isso, um papel essencial neste caminho. O Prelado pediu à Diocese que saiba ser “irmãos no mandamento novo do amor, no perdão e na fraterna unidade uns com os outros”.
No início de um novo triénio pastoral, o Arcebispo de Évora terminou com um desejo para o caminho que agora se inicia: “Que o Senhor nos dê um ano pastoral muito fecundo”, conduzido e iluminado por Cristo ressuscitado e pelo Espírito Santo.
Um ano que, na sua visão, deverá ser vivido não apenas através das iniciativas que a Diocese venha a concretizar, mas sobretudo através da capacidade de cada cristão se colocar ao serviço, de construir comunidade e de tornar a presença de Cristo reconhecível no mundo de hoje.
Sob o tema “Comunidade Cristã: Fidelidade e Renovação”, o novo Plano Pastoral pretende reforçar a vida das comunidades e a participação dos seus membros, com particular atenção à formação dos agentes pastorais e à criação ou revitalização das estruturas de participação.
