Da esperança à reconciliação: os principais momentos da visita de Leão XIV à França

O Papa Leão XIV concluiu, esta segunda-feira, 28 de setembro, a sua quinta viagem apostólica internacional, que o levou durante quatro dias a Paris, Lourdes e Metz. Sob o lema «Para que o mundo tenha vida», a visita foi marcada por encontros com autoridades, jovens, peregrinos, bispos, vítimas de abusos e representantes de diferentes religiões, deixando uma mensagem centrada na dignidade da pessoa humana, na defesa da vida, na paz e na missão evangelizadora da Igreja.

A viagem começou em Paris, onde Leão XIV foi recebido pelo Presidente da República Francesa, Emmanuel Macron. No Palácio do Eliseu, o Papa destacou a responsabilidade da França na construção da paz e na defesa da dignidade humana, apelando ao respeito pela vida, pelos direitos e pelas liberdades de todas as pessoas. Alertou também para os riscos associados a uma utilização da ciência e da tecnologia desligada de critérios éticos, referindo, entre outras questões, a inteligência artificial, a manipulação genética e a eutanásia.

Ainda em Paris, na sede da UNESCO, Leão XIV aprofundou a reflexão sobre a inteligência artificial e a relação entre tecnologia e pessoa humana. O Papa alertou para o risco de uma sociedade que avalie as pessoas segundo critérios de eficiência e produtividade, defendendo que a dignidade humana não pode ser reduzida a algoritmos ou ao desempenho. A educação, a cultura, a ciência e a cooperação internacional foram apresentadas como instrumentos ao serviço da humanidade.

Foto: Mustafa Yalcin – Anadolu
Foto: Mustafa Yalcin – Anadolu
Uma Igreja de portas abertas

Na Catedral de Notre-Dame, durante a celebração das Vésperas, o Papa convidou a Igreja a ser uma comunidade aberta, capaz de acolher e acompanhar aqueles que se encontram nas suas periferias. A catedral restaurada tornou-se, nas suas palavras, um símbolo de unidade e de uma Igreja chamada a ser espaço de acolhimento, respeito, sentido e encontro.

FOTO: vatican-mediavatican-media-catholic-press-photoipa-agency.netsipa-usa-via-reuters-connect

O primeiro dia terminou no Stade de France, em Saint-Denis, diante de cerca de 80 mil jovens. Num encontro marcado pelo diálogo e pela oração, Leão XIV falou das inquietações que atravessam as novas gerações — a fragilidade das relações, a precariedade dos projetos de futuro, o cansaço digital, as alterações climáticas e a situação económica e internacional.

Aos jovens, pediu que não se deixem aprisionar pela procura permanente de aprovação e pelos «likes», convidando-os a descobrir na fé e no serviço gratuito um caminho para a verdadeira liberdade. Sublinhou também que o anúncio do Evangelho não pode ser separado do amor por aqueles que pensam ou acreditam de maneira diferente.

«Não guardeis a fé só para vós»

No sábado, a Eucaristia celebrada na Praça da Concórdia reuniu centenas de milhares de pessoas. Na homilia, Leão XIV refletiu sobre a sede de sentido, verdade e realização que habita o coração humano.

Partindo da imagem da sede, o Papa afirmou que muitas das satisfações oferecidas pela sociedade não conseguem preencher o vazio interior do ser humano. Apontou Cristo como resposta à sede mais profunda de comunhão com Deus e desafiou os católicos franceses a não guardarem a fé para si mesmos, mas a fazerem dela uma fonte de esperança para os outros.

Evocando a longa história cristã da França e o testemunho de santos e figuras ligadas à caridade e à missão, Leão XIV apelou a uma Igreja capaz de continuar a irradiar «vida, paz e amor».

Foto: Deutsche Presse-Agentur GmbH via Reuters
Lourdes: esperança no meio da dor

A segunda etapa da viagem foi Lourdes, onde o Papa rezou diante da Gruta das Aparições, confiando a Nossa Senhora a França e o mundo. Na oração, pediu pela paz, pelos direitos humanos, pela concórdia e pelo fim da violência e do ódio.

Na manhã de domingo, durante a Missa no Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, Leão XIV apresentou aquele lugar como um espaço onde a esperança pode nascer mesmo no meio da doença, da dor e das provações. Convidou os peregrinos a serem «missionários da esperança» e a testemunharem a ternura de Deus nas famílias, nas comunidades e na sociedade.

Em Lourdes, o Papa encontrou-se também com os bispos franceses, a quem pediu coragem, audácia e criatividade missionária. Reconhecendo os erros e feridas da Igreja, particularmente no que diz respeito aos abusos, exortou os bispos a tratar essas feridas com verdade e caridade.

Foto: REUTERS/Stephane Mahe

Num encontro privado, Leão XIV escutou ainda sete vítimas de abusos cometidos por membros do clero e da Igreja em França. O Papa ouviu individualmente os seus testemunhos de sofrimento e as suas propostas para impedir que situações semelhantes voltem a acontecer, reiterando o compromisso da Igreja na proteção dos mais vulneráveis.

Metz e o futuro da Europa

A última etapa da viagem levou o Papa a Metz, cidade marcada pela história dos conflitos entre França e Alemanha e terra natal de Robert Schuman, um dos fundadores do projeto europeu.

Num encontro inter-religioso, Leão XIV destacou o papel das religiões na defesa da dignidade humana e na construção da paz. Recordando Schuman, apresentou o diálogo como caminho para transformar fronteiras e divisões em pontes de encontro e esperança.

No encontro «Nas raízes da Europa pela paz e pela unidade», o Papa colocou em evidência a responsabilidade do continente europeu na promoção da paz, da democracia e da reconciliação. A Europa, afirmou, é chamada a superar as divisões e a construir uma unidade que respeite a diversidade.

A reconciliação só é possível com a coragem de quebrar a cadeia do ressentimento.

Na Missa conclusiva, celebrada na Catedral de Santo Estêvão, Leão XIV retomou o tema da reconciliação. Numa região marcada por guerras e fronteiras que durante séculos dividiram povos, afirmou que «a reconciliação só é possível com a coragem de quebrar a cadeia do ressentimento».

O Papa rejeitou as lógicas de vingança e de retaliação e apresentou o amor que cuida do outro como caminho de salvação. Evocou ainda alguns dos fundamentos da tradição cristã que considera importantes para o futuro europeu: a dignidade e o valor inviolável da vida humana, a liberdade, a família, a atenção aos pobres e vulneráveis, o acolhimento do estrangeiro e o respeito pelos idosos.

Ao terminar a viagem, Leão XIV deixou, assim, uma mensagem que atravessou os quatro dias em França: perante as feridas da sociedade, as divisões políticas, as guerras e as incertezas do futuro, a resposta cristã passa pela esperança, pelo encontro, pelo cuidado da pessoa humana e pela construção paciente da paz.

Com o lema «Para que o mundo tenha vida», a visita à França apresentou-se, deste modo, como um apelo à Igreja para sair ao encontro das pessoas e como um convite à Europa para reencontrar caminhos de diálogo, reconciliação e fraternidade.

FOTO CAPA: Foto: REUTERS/Christian Hartmann

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