Núncio Apostólico sublinhou, na Catedral de Évora, a profunda ligação entre a Arquidiocese e a Igreja de Timor-Leste e afirmou que os restos mortais dos três prelados eborenses regressam agora ao lugar onde serviram a Igreja
A Catedral de Évora acolheu esta quarta-feira, 19 de agosto, a celebração da Eucaristia de trasladação dos restos mortais dos três primeiros prelados de Timor-Leste ligados à Igreja de Évora: D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e Monsenhor Martinho da Costa Lopes.
A celebração foi presidida pelo Núncio Apostólico, D. Andrés Carrascosa Coso, que também proferiu a homilia, na qual destacou a profunda ligação histórica e espiritual entre Évora e Timor-Leste.
“Não é por acaso que esta cerimónia é aqui em Évora”, afirmou, recordando que a relação entre as duas Igrejas se construiu ao longo de décadas: um dos bispos foi auxiliar de Évora, outros foram formados no Seminário e a Arquidiocese continua a acolher jovens timorenses em formação.
Partindo da Palavra de Deus, o Núncio Apostólico recordou que a vida cristã não é vivida para si própria. “Se vivemos, vivemos para o próximo, e se morremos, é para o próximo. Pertencemos ao Senhor”, afirmou, sublinhando que os três prelados “voltam para o lugar onde serviram a Igreja, em missão”.
A trasladação foi assim apresentada não apenas como um momento de memória, mas como um verdadeiro regresso à terra onde estes pastores deram a vida pelo anúncio do Evangelho. “Agora comungam na eternidade do Senhor”, afirmou o Núncio, evocando a missão que desempenharam de introduzir o povo de Deus nos caminhos do Evangelho.
A fé como força no sofrimento
Na sua reflexão, o Núncio Apostólico recordou também a história recente de Timor-Leste, marcada por décadas de sofrimento, mas onde a fé se revelou “uma força extraordinária”.
A Igreja, afirmou, tornou-se lugar de esperança e de defesa da dignidade humana, promovendo a paz, a reconciliação e novos horizontes para o povo timorense. Um caminho que exigiu “coragem, perseverança e grandeza de coração”.
Neste contexto, deixou uma mensagem particularmente forte sobre o verdadeiro significado da paz: “A verdadeira paz não nasce do esquecimento, mas da verdade; não nasce da vingança, mas do perdão”.
Evocando São João Paulo II, recordou igualmente uma das suas afirmações mais marcantes: “Não há paz sem justiça e não há justiça sem perdão”.
Uma Igreja jovem e cheia de esperança
D. Andrés Coso destacou ainda a realidade atual de Timor-Leste, uma nação soberana que continua a enfrentar desafios, mas que possui uma população jovem e uma Igreja marcada pela vitalidade da fé.
A existência de numerosas vocações sacerdotais e religiosas foi apresentada como um dos frutos de uma fé viva e como sinal de esperança para o futuro da Igreja timorense.
Ao recordar as visitas dos últimos Pontífices a Timor-Leste, estabeleceu também uma ligação entre dois momentos fundamentais da história recente do país.
Em 1989, São João Paulo II encontrou um povo profundamente marcado pelo sofrimento, mas firme na fé. Trinta e cinco anos depois, o Papa Francisco encontrou uma realidade profundamente transformada: uma Igreja em missão, chamada a promover a unidade, a fortalecer a fé dos jovens e a preservar a memória das suas raízes.
Para o Núncio Apostólico, a primeira visita “promoveu a esperança” e a segunda “confirmou-a”, constituindo ambas um sinal para toda a Ásia.
“Os pastores passam, Cristo permanece”
A trasladação dos restos mortais dos três prelados foi igualmente interpretada como expressão da gratidão da Igreja de Timor-Leste por aqueles que a serviram.
O Núncio Apostólico sublinhou que este gesto revela “uma Igreja viva que sabe agradecer a quem lhe serviu”, uma Igreja que conserva uma profunda gratidão e mantém vivo o empenho na missão.
A ligação entre as Igrejas de Portugal e de Timor-Leste foi também valorizada através da língua portuguesa, entendida como um elemento que continua a aproximar os dois povos e a fortalecer a colaboração entre as comunidades cristãs.
Dentro de poucos dias, os restos mortais de D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e Monsenhor Martinho da Costa Lopes chegarão finalmente a Timor-Leste.
Nas palavras finais da homilia, deixou uma síntese particularmente significativa do sentido desta trasladação: “Os pastores passam, Cristo permanece, o Evangelho continua a ser anunciado”. Invocou a proteção de Nossa Senhora da Conceição, para que acompanhe este regresso carregado de significado e ajude o povo timorense a permanecer “firme na esperança e generoso na caridade”.
