Responsável pela Pastoral do Turismo e das Peregrinações da Arquidiocese de Évora defende formação para acolhedores e guias-intérpretes e quer transformar o património religioso numa experiência humana e espiritual
Rosário Silva
A proximidade da Capital Europeia da Cultura Évora 2027 está a mobilizar a Pastoral do Turismo e das Peregrinações da Arquidiocese de Évora, que vê no aumento esperado de visitantes uma oportunidade para valorizar o património religioso da região, mas também um desafio ao nível da formação de quem acolhe e acompanha turistas e peregrinos.
Para o padre Nelson Fernandes, responsável por este secretariado criado há cerca de um ano, o turismo religioso não pode limitar-se à visita de monumentos ou à apreciação artística dos edifícios. O objetivo passa por proporcionar uma experiência mais profunda, capaz de revelar a dimensão humana, cultural e espiritual do património.
“A Pastoral do Turismo tem de ter por base, em primeiro lugar, um bom acolhimento”, afirma. “Quem está a acolher é o rosto da igreja, é o rosto do edifício. A forma como recebe as pessoas faz toda a diferença.”
Segundo o sacerdote, a visita a uma catedral, a uma igreja ou a um santuário não se esgota na contemplação da beleza arquitetónica. “O nosso património, além da beleza estética, tem a sua catequese. Dá-nos uma formação”, sublinha.
O desafio consiste em ajudar os visitantes a descobrir aquilo que está para além das pedras, das imagens e das obras de arte. “Primeiro imprime-se, depois exprime-se”, explica. “A pessoa sai do monumento e leva consigo aquelas paredes, aquelas histórias. Mesmo que seja de forma discreta, isso acaba por produzir o seu efeito.”
Entre os projetos considerados prioritários pela Pastoral do Turismo e das Peregrinações está a formação dos profissionais e voluntários que recebem visitantes nos principais espaços religiosos da Arquidiocese.
“Precisávamos de formação para aqueles que recebem os grupos, seja na Catedral, seja em São Francisco, seja nos santuários”, defende.
Para o padre Nelson Fernandes, não basta possuir conhecimentos históricos ou artísticos. É igualmente importante desenvolver competências relacionais e de acolhimento.
“Se um guia-intérprete for uma pessoa simpática e dinâmica, a sua mensagem chegará certamente ao coração. Pode haver quem tenha muita formação, mas se faltar esta dimensão humana terá muito mais dificuldade em chegar às pessoas”, observa.
A preparação de quem trabalha diariamente com turistas é vista como uma das chaves para o sucesso de Évora 2027. “Se o nosso rosto for rosto de esperança, a esperança chegará a quem nos visita”, resume.
Questionado sobre o papel da Igreja durante a Capital Europeia da Cultura, o padre Nelson Fernandes recorre a uma imagem que utiliza frequentemente.
“Muitas vezes saciamos a sede nas fontes e esquecemo-nos de procurar a nascente”, afirma.
Na sua perspetiva, o grande desafio será precisamente ajudar quem visita Évora a descobrir essa “nascente” que está na origem do património religioso, da arte e das tradições que marcaram a identidade do território.
“Só damos aquilo que conhecemos e só amamos aquilo que vivemos interiormente”, refere.
Por isso, considera essencial envolver os guias e todos os que trabalham no acolhimento dos visitantes. “Serão eles o veio condutor. Serão eles a fonte que ajuda a chegar à nascente.”
Uma ponte com os guias-intérpretes
Nos últimos meses, a Pastoral tem vindo a estreitar relações com os guias-intérpretes da região, considerados parceiros fundamentais para transmitir o significado do património religioso.
O trabalho já começou através de ciclos de conferências e visitas aos principais santuários da Arquidiocese, mas deverá intensificar-se nos próximos meses com ações de formação creditadas dirigidas a estes profissionais.
“Temos criado relações de amizade com vários guias-intérpretes do Alentejo e queremos aprofundar esse caminho, sobretudo agora com o Évora 2027”, revela.
As futuras formações procurarão abordar não apenas a história dos monumentos, mas também aspetos ligados à cultura bíblica, à espiritualidade e ao significado religioso dos espaços visitados.
“O património religioso não é só o edifício. É preciso conhecer a história, a cultura bíblica e a vivência que lhe está associada”, explica.
Segundo o sacerdote, os próprios guias têm demonstrado interesse em aprofundar estes conhecimentos. “Eles dizem-nos que não lhes interessa apenas que a formação seja creditada. Querem mesmo aprender.”
Turismo religioso continua a crescer
O responsável pela Pastoral do Turismo e das Peregrinações acredita que o interesse pelo património religioso tem vindo a aumentar, mesmo entre pessoas que não se identificam com uma prática religiosa. “Pode não ser por motivos de fé, mas há sempre uma procura da beleza”, observa.
Para o sacerdote, essa procura constitui um ponto de partida importante para aproximar os visitantes da história, da cultura e dos valores que moldaram o Alentejo ao longo dos séculos.
“Quando entramos numa catedral gótica e olhamos para o alto, há um impulso para procurar algo maior do que nós. No fundo, todos procuramos o bem, a beleza e a verdade.”
E entre as iniciativas desenvolvidas pela Pastoral destaca-se o “Roteiro dos Santuários da Arquidiocese de Évora – Com vagar e com Fé”, cuja terceira edição foi recentemente lançada.
Disponível em português, inglês, francês e espanhol, o roteiro é distribuído nos principais santuários e em unidades hoteleiras da cidade de Évora, reunindo informação sobre locais de devoção, horários de celebrações e propostas de visita.
A publicação inclui também uma mensagem de acolhimento do arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, numa iniciativa que pretende aproximar os visitantes da realidade da Igreja local.
“A Igreja importa-se convosco, a Igreja quer acolher-vos”, resume o padre Nelson Fernandes sobre o espírito do projeto.
Para o responsável pela Pastoral do Turismo e das Peregrinações, esse continua a ser o principal objetivo: fazer do património religioso não apenas um conjunto de monumentos para visitar, mas um espaço de encontro, hospitalidade e descoberta.
