Arcebispo de Évora em Mourão: “Não podemos deixar estas populações entregues a si próprias”

Rosário Silva

D. Francisco alerta para degradação na Aldeia da Luz, apela à intervenção da EDIA e reforça o papel da Igreja junto dos mais frágeis 

O Arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, deixou um apelo direto às autoridades para que não esqueçam a realidade vivida na Aldeia da Luz e no concelho de Mourão, alertando para problemas estruturais e sociais que continuam por resolver mais de duas décadas após a construção da nova aldeia. 

Em declarações no final da visita pastoral ao concelho de Mourão, o prelado chamou a atenção para o estado de degradação de alguns edifícios, considerando que existem sinais “prematuros” de desgaste. O exemplo mais evidente, sublinhou, é o Santuário de Nossa Senhora da Luz, reconstruído em memória da igreja original submersa pela barragem de Alqueva, mas que hoje apresenta infiltrações e fragilidades estruturais. “Está numa situação muito lamentável”, afirmou, defendendo uma intervenção conjunta entre paróquia, autarquias, Arquidiocese e a EDIA, a Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva. 

O alerta estende-se também às habitações da ‘nova’ Aldeia da Luz, onde, segundo referiu, são visíveis problemas que vão além da manutenção corrente. “É uma construção que denota fragilidade”, disse, dando voz às preocupações da população. “Eu faço minha a voz de muitos que são sem voz”, acrescentou. 

Num território marcado pelo envelhecimento e pela saída dos mais jovens, D. Francisco Senra Coelho destacou o sentimento de solidão que afeta muitos idosos. “As pessoas dizem: ‘Sr. Arcebispo, nós estamos sozinhos’”, relatou, sublinhando a importância de uma presença próxima e continuada. Para o arcebispo, este é um dos papéis essenciais da Igreja: acompanhar, encorajar e fazer sentir às pessoas que não estão esquecidas. 

Essa proximidade concretiza-se no terreno, através do trabalho das irmãs missionárias e dos sacerdotes, que visitaram todas as casas durante a missão, encontrando-se com os mais frágeis, os doentes, os enlutados e as famílias em situação de pobreza. “É uma Igreja que bate à porta, que entra, que escuta e que caminha com as pessoas”, sintetizou. 

O arcebispo abordou também os desafios de convivência social no concelho, nomeadamente a integração da comunidade cigana, que representa uma percentagem significativa da população escolar. Reconhecendo que se trata de um processo ainda em construção, defendeu a necessidade de reforçar pontes, com o contributo de diferentes áreas, incluindo a Igreja, numa abordagem que convoque dimensões sociais, culturais e educativas. 

Neste contexto, apontou várias frentes de ação comum: o combate à pobreza, à violência doméstica e às dependências, bem como a valorização da escola e da educação. Destacou ainda o papel das cantinas escolares, que garantem refeições completas e funcionam como espaço de atenção às necessidades das crianças, num território onde “há muita humanização e cuidado”. 

Apesar das dificuldades, D. Francisco Senra Coelho sublinhou o lado mais luminoso da comunidade. “Mourão é uma terra que tem sabor a afeto”, afirmou, destacando a preocupação genuína das pessoas umas com as outras. Uma realidade que, na sua perspetiva, deve ser acompanhada por políticas públicas atentas e por uma presença contínua das instituições. 

Sem pretender substituir-se ao Estado, o arcebispo deixou claro o papel da Igreja: estar no terreno, escutar e alertar. “Estamos juntos na luta pela qualidade de vida e pela presença do afeto junto das pessoas”, concluiu. 

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