Categoria: Palavra do Arcebispo

29 Fev 2024

Mensagem do Senhor Arcebispo: Visita Pastoral Missionária aos concelhos de Sousel e Borba

Com a alegria do Evangelho saúdo-vos na certeza de que viveis uma fecunda Quaresma a caminho da Páscoa da ressurreição do Senhor.

Ao acolhermos a Palavra de Jesus, o Cristo, experimentamos o júbilo de nos sentirmos enviados ao encontro de todos e de todas quantos sentem sede de Liberdade, Justiça e Paz. Porque o Reino de Deus já está no meio de nós, somos Igreja em saída, acompanhando o Papa Francisco nos desafios que nos faz, de nos encontrarmos connosco próprios, com Deus, com os outros e com toda a Criação. Assim, sentimo-nos convocados pelo Bom Pastor a partir em Missão, na certeza de que só no encontro pessoal será possível testemunhar a beleza libertadora do Evangelho, a qual gerará em nós proximidade e confiança. Iluminados pelo Espírito iniciaremos no próximo dia 3 de março, a Visita Pastoral ao povo santo de Deus que peregrina nos concelhos de Sousel e Borba.

Peço ao Senhor que cada uma das Paróquias saiba ser mãe de coração aberto e que todos “revelemos juntos um novo rosto de Comunidade“, onde Cristo está no centro e a quem todos queremos levar. Porque ecoa em nós a Palavra do Senhor “reconhecerão que sois meus discípulos: Se vos amardes uns aos outros como eu vos amo” (Jo. 13, 35), partimos em Missão como quem quer aprender e servir, e à maneira de Maria proclamarmos: “Fazei tudo o que Ele vos disser“.

Que toda a Arquidiocese de Évora se sinta convocada para esta Visita Pastoral missionária, que concluirá com a Peregrinação Diocesana das Famílias a Vila Viçosa no próximo dia 25 de maio. Se formos fiéis ao convite do Senhor, aí poderemos proclamar com a nossa Padroeira: “Magnificat“! Ela estará sempre presente na sua Imagem Peregrina durante este tempo de visita pastoral que nos trará a graça do encontro com Deus. Unamo-nos todos à volta da Mãe da Igreja e apresentemos-lhe as grandes dores da Humanidade. Que ela nos ensine a sermos o azeite e vinho do bom samaritano.

Que todos sejamos missionários pela oração e com Maria permaneçamos em esperança no cenáculo de Pentecostes.

Com gratidão, imploro para todas as missionárias, missionários e colaboradores desta Visita Pastoral a bênção de Deus.

 

Fátima, em Retiro Quaresmal com os Bispos de Portugal,

20 de fevereiro de 2024, Festa dos Santos Francisco e Jacinto Marto

+ Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora

 

17 Fev 2024

Mensagem do Arcebispo de Évora para a Quaresma 2024 (com vídeo)

Ao Povo Santo de Deus, peregrino em terras do Alentejo e Ribatejo, da Arquidiocese de Évora; seus Presbíteros, Diáconos e Consagrados ao Serviço de Todos, a Paz esteja convosco!

1. A Quaresma que nos prepara para a Páscoa deste ano de 2024, desperta-nos para a necessidade de valorizarmos o nosso encontro pessoal e comunitário com a Misericórdia de Deus. Será a partir desta experiência que renovaremos e fortaleceremos a Paz e a Alegria dos nossos corações e consequentemente, o testemunho humanizado das Comunidades Cristãs em que caminhamos na Fé.

É este o propósito do nosso Ano Pastoral, “Revelar juntos um novo rosto de Comunidade”; para que o Espírito Santo nos molde e amadureça neste propósito de conversão pessoal e comunitário, rezamos e discernimos com a Palavra do Evangelho: «Por isso reconhecerão que sois meus discípulos: Se vos amardes uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 13, 35). Como sabemos, a lei do amor fraterno não é uma novidade das catequeses de Jesus, porém Cristo dá-lhe um novo sentido e uma nova medida, assumindo-se Ele próprio como esse sentido novo e essa nova medida: “(…) como Eu vos amei”. O Seu Amor tem uma única medida, amar sem medida, por isso entrega a Sua vida pela redenção de todos; o Seu Amor tem um único sentido, revelar-nos a Misericórdia do Pai, pois o seu alimento é fazer a vontade do Seu Pai (Cf. Jo 4, 34).

O Mandamento Novo sugere a Nova Aliança. Lei e Aliança consideram-se duas noções paralelas, assim Jesus, ao dizer, “(…) Dou-vos”, actua não como simples intermediário de Deus, à maneira de Moisés e dos Profetas, mas com autoridade própria e em nome próprio, como Filho de Deus e Salvador. É o Verbo de Deus que nos revela a Nova e Eterna Aliança. Deste modo, a nossa pertença a Jesus e com Ele ao Pai exige-nos a conversão e vivência desta Palavra: “Por isso reconhecerão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros como Eu vos amei”.

2. Os Quarenta Dias a que chamamos Quaresma são um Tempo de Graça, “Kairós”, que se nós quisermos, nos proporcionarão momentos de reflexão e exame de consciência, para que experimentemos a beleza do abraço misericordioso de Deus e a riqueza que nos vem da experiência da vida fraterna, “Ó como é bom viverem os irmãos no Amor de Deus!” (Sal 133, 1).

O ruído em que vivemos com frequência pode-nos roubar a liberdade interior, sobrepondo-se ao nosso discernimento e tornando-nos insensíveis aos sinais dos tempos, «ao grito dos pobres e da terra». Deste modo, somos impedidos de escutar o nosso coração onde Deus fala e ecoam os gritos da solidão e da pobreza de muitos irmãos. Por isso, importa cultivar o jejum face a todos os excessos que nos solicitam exclusiva obsessão e provar o oásis do silêncio interior, onde se tornará possível compreender que a nossa sede corresponde à água-viva da Boa Nova do Senhor. Eis uma oportunidade de excelente terapia que, se quisermos, repito, poderemos usufruir nesta Quaresma.

Oração, jejum e partilha fraterna são os três pilares da Quaresma; desde a mais remota tradição proporcionada pelos Padres do deserto, pelos Monges, Doutores da Igreja e Mendicantes, estas três práticas quaresmais renovarão as nossas vidas e farão das nossas Comunidades eclesiais, “Mães de coração aberto para todos os sedentos de Esperança”. Neste contexto da espiritualidade e da sabedoria cristã, recordo as palavras do nosso amado Papa Francisco, proferidas aos estudantes universitários na JMJ em Lisboa e agora citadas na sua Mensagem Quaresmal: «Procurai e arriscai; sim, procurai e arriscai. Neste momento histórico, os desafios são enormes, os gemidos dolorosos: estamos a viver uma terceira guerra mundial feita aos pedaços. Mas abracemos o risco de pensar que não estamos numa agonia, mas num parto; não no fim, mas no início dum grande espetáculo. E é preciso coragem para pensar assim» (03/VIII/2023). É um mundo novo que nasce, experimentando nós simultaneamente os gritos doridos do mundo velho que morre.

3. No contexto doloroso de violência generalizada e de “guerra mundial feita aos pedaços”, como refere o Santo Padre, proponho que a Renúncia Quaresmal deste ano, se destine às Igrejas do Médio-Oriente, vítimas de guerra e que façamos chegar a essas Comunidades a nossa partilha através da Santa Sé, ao serviço da Caridade do Papa Francisco.

Agradeço todo o esforço, dedicação e generosidade da Igreja Diocesana, nomeadamente da sua Cáritas, da sua Cúria e Economato, que permitiram o envio de 20.000€, correspondente à Renúncia Quaresmal de 2023, para as vítimas dos terramotos ocorridos na Turquia e na Síria. Também este quantitativo foi enviado através do ministério da Caridade do Santo Padre, o Papa Francisco.

Como já é tradição, confio mais uma vez a campanha da Renúncia Quaresmal 2024 à Cáritas Diocesana, aos Reverendíssimos Párocos, aos Serviços Centrais da Arquidiocese e à generosidade de todos os Cristãos, entidades, empresas e pessoas de boa vontade.

Com todos permaneço em comunhão de oração, jejum e caridade. E a todos desejo fecunda Quaresma e Santa Páscoa!

 

+ Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora

 

07 Jan 2024

Saudação de Ano Novo do Arcebispo de Évora à Arquidiocese

Caros Presbíteros Eborenses, Estimados Diáconos, Religiosos e Esperançosos Seminaristas; Caríssimas Famílias, Amados Jovens e Queridas Crianças, votos de fecundo e abençoado ANO NOVO 2024!

Durante muitos decénios, foi tradição da nossa Amada Arquidiocese encher-se o Salão Nobre do então Paço Arquiepiscopal de clero, religiosos e fiéis, assim se dizia, afim de apresentarem ao Venerando Prelado os seus votos de “Ano Bom”. Era um momento muito marcado pela comunhão e gratidão no contexto daqueles tempos, na tarde do Dia de Ano Bom! Todos procurávamos estar e muitos vinham de longe. Era também oportunidade de nos reverermos.

Hoje, sou eu que vou ao encontro de todos para lhes levar o abraço fraterno de gratidão e esperança. E sempre, renovados votos de Bom Ano Novo!

 

1 – Muito obrigado, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Bom e Belo Pastor, pela fidelidade de todos e heroicamente sacrificada de muitos, aos Apelos  do Espírito Santo que sopra e se manifesta em nossa Igreja pelo discernimento sinodal, e nos pede que iluminados pela Palavra de Deus e nutridos pelo Pão da Eucaristia, revelemos aos nossos coetâneos o autêntico Rosto de Cristo Vivo em nossas Comunidades Cristãs, a começar pelas Paróquias, Movimentos Eclesiais, Associações e Grupos Cristãos e chegando até à Casa Arquiepiscopal, Serviços Arquidiocesanos, Comunidades Sacerdotais, Comunidades Religiosas e Seminários. Que transfiguremos os nossos ministérios e serviços, as nossas famílias e a nossa cidadania de modo a que pela nossa maneira de servir e de estar coerentemente, se descubra em nós o reflexo da Luz de Cristo, a qual em si mesma, deseja comunicar-se de modo experimental e partilhado a todos, para que em ninguém impere a escuridão mas brilhe a Luz de Cristo, pois todos aspiramos a ser filhos da Luz e não das trevas.

Que a nossa Arquidiocese seja à maneira de Maria, que hoje celebramos, uma Mãe de coração aberto! Aberto no pronto acolhimento, na escuta atenta, no acompanhamento comprometido de cada pessoa com sua história singular, na inserção atenta à partilha de talentos ao serviço da Humanização.

 

2 – Sim, hoje levo-vos também o abraço da Esperança, pois os jovens ensinaram-nos recentemente que quando escutamos e procuramos discernir os apelos dos Sinais dos Tempos, o Espírito Santo faz-se bússola, âncora e fortaleza, e se colaborarmos com Ele, podemos chegar aonde nunca ousamos imaginar. É deveras importante continuarmos em unidade pós JMJ e juntos, ou seja, sinodalmente, rezarmos e procurarmos discernir com a ajuda do Paraclito, os Sinais dos Tempos, no nosso agora e aqui, para que todos unidos e animados pela criatividade, audácia e generosidade dos jovens, rumemos até ao Ano Santo e Jubilar 2025, para isso nos apontam os Congressos Eucarísticos Nacional de Braga e Internacional de Quito, no Equador.

Acredito que os jovens podem fazer connosco a diferença, ajudando os nossos sonhos a tornarem-se realidade, mais forte e bela do que seria possível fazer com a soma das energias, talentos e capacidades de cada um de nós, pois o Espírito Santo até das nossas limitações soma beleza. Que esta Esperança se experimente e concretize na Visita Pastoral Missionária que se Deus quiser, farei/faremos aos Concelhos de Sousel e Borba. Rezemos por isso.

 

3 – Em Dia de Ano Novo, a Igreja celebra a Solenidade de Maria, Mãe de Deus. Procuremos perceber melhor a mensagem desta solenidade.

De facto, de 22 de Junho a 31 de Julho do ano 431, realizou-se o Primeiro Concílio de Éfeso, na Igreja de S. Maria, na cidade de Éfeso, na Anatólia da Ásia Menor. Hoje Selçuk, na Turquia. Trata-se do terceiro Concílio Ecuménico, reconhecido por Católico, Ortodoxos, “Vellhos” Católicos, Anglicanos, Luteranos e outros grupos Cristãos.

Sendo Papa Celestino I e Imperador Teodósio II, o Patriarca de Constantinopla, Nestório, negou que  Maria fosse Theotokos, Mãe de Deus, mas somente seria Christotokos, ou seja, Mãe de Cristo. O Patriarca ao admitir que Maria fosse apenas a Mãe da natureza humana de Cristo e ao negar que Maria pudesse ser Mãe do Verbo Encarnado, na unidade do Seu Ser, caiu numa grave heresia, condenada pelos cerca de 250 Bispos reunidos  neste Concílio. Os Bispos, sob a presidência de S. Cirilo de Jerusalém, que o Papa Celestino reconheceu na integridade da doutrina e nomeou seu delegado no Concílio, confirmaram os ensinamentos originais do I Concílio de Niceia (325), condenaram os erros cristológicos e mariológicos de Nestório e proclamaram Maria, Mãe de Deus, Theotokos. Eis a alegria da unidade da nossa fé, de novo conseguida neste Concílio, que até hoje com sabor ecuménico continuamos a celebrar. Assim, percebemos como é importante e é maravilhosa a unidade da mesma Fé, e por consequência da Igreja, Esposa de Cristo. Maria é sempre Sinal de Unidade e nunca de divisão, por que é Mãe!

Sabemos que este terceiro Concílio Ecuménico consolidou a paz na Igreja do primeiro milénio, ainda que uma paz somente interior, pois se o Concílio foi celebrado em 431, no ano anterior, 430, já a sede episcopal de S. Agostinho, Hipona, tinha sido devassada pelos Godos que atravessando Roma e vandalizado terras da Gália e da Hespania dominaram Cartago e todo o Norte de África. Como profetizava Santo Agostinho ao terminar a sua vida, precisamente em 430, era um mundo velho que morria, para nascer um mundo novo que já se avizinhava e parecia despontar.

Eis, o olhar do Papa Francisco na sua Mensagem de Ano Novo para estes tempos novos, marcados pelas novas tecnologias chegadas à inteligência artificial. Uma leitura aprofundada, reflectida e partilhada em grupos, mais do que recomendada, considero “obrigatória” para todos os Cristãos atentos aos Novos Tempos, que são já os de hoje. Encontraremos certamente subsídios, inclusivamente nesta página da Arquidiocese e exortando,como vosso Bispo, que as Paróquias, Movimentos Eclesiais e Grupos de Vida se organizem em círculos de leitura partilhada desta Mensagem tão oportuna como atual.

Unidos ao Santo Padre, construamos pontes de diálogo, tolerância, respeito, justiça, inclusão e rezemos juntos pela Paz! E será certamente Bom Ano!

 

+ Francisco José Senra Coelho

Arcebispo de Évora

 

 

30 Dez 2023

Mensagem de Natal 2023 do Arcebispo de Évora (Com Vídeo)

 

MENSAGEM DE NATAL 2023

«Sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 13,35)

 

Estimados Presbíteros, Diáconos, Consagrados, Seminaristas, Famílias, Jovens, Cristãos e Cristãs, dirijo-me a vós como Povo Santo de Deus que peregrina por terras do Alentejo e Ribatejo, Arquidiocese de Évora. Neste tempo de Natal, a todos desejo saúde, paz e bem!

1. É surpreendente contemplar a vontade de Deus ao querer compartilhar a nossa humanidade. Compreendemos nesta vontade de Deus de se fazer um connosco que no meio das nossas noites, há uma voz e uma luz, que rompem a espessura da escuridão e nos garantem o conforto da salvação, o Amor de Deus por cada um de nós e por toda a humanidade.

O desejo de se aproximar desta luz e de a tornar presente no seu quotidiano, levou S. Francisco de Assis a recriar em Greccio, Itália, esse acontecimento em forma de presépio vivo. Segundo a História da Igreja, o primeiro presépio aconteceu há oitocentos anos, em 1223. Sobre ele escreveu S. Boaventura (OFM, 1221-1274), «Três anos antes da morte [S. Francisco] resolveu celebrar com a maior solenidade possível a festa do Nascimento do Menino Jesus, ao pé da povoação de Greccio, a fim de estimular a devoção daquela gente (…). Mandou preparar uma manjedoira com palha, e trazer um boi e um burrito. Convocaram-se muitos Irmãos; vieram inúmeras pessoas; pela floresta ressoaram cânticos alegres… Essa noite venerável revestiu-se de esplendor e solenidade, iluminada por uma infinidade de tochas a arder e ao som de cânticos harmoniosos. O homem de Deus estava de pé diante do presépio, cheio de piedade, banhado em lágrimas e irradiante de alegria. O altar dessa missa foi a manjedoira.

Francisco, que era diácono, fez a proclamação do Evangelho. Em seguida dirigiu a palavra à assembleia, contando o nascimento do pobre Rei, a quem chamou, com ternura e devoção, o Menino de Belém. (…)»

Percebemos que o centro vivo desta encenação foi a Eucaristia celebrada sobre a manjedoira. Ali Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, nasceu de novo. Para sempre a luz do presépio se fez uma com a luz do círio pascal, pois o Natal, a Ressurreição Pascal e o Pentecostes são momentos da mesma revelação do Amor de Deus.

 

2. Este Ano Pastoral 2023/2024 convida-nos a “Revelar juntos um novo rosto de comunidade” e esta proposta diocesana passa por reconstruirmos cada comunidade, a partir da Eucaristia; de facto, «A Eucaristia é o centro da vida cristã para onde tudo converge e donde tudo dimana. Pela celebração eucarística, o Senhor Jesus renova a sua presença entre nós, “até ao fim dos tempos”». Nesta missão há uma palavra que nos guia, qual estrela de Belém: «por isto conhecerão que sois meus discípulos; se vos amardes uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 13,35). Reparamos que Jesus dá à lei do amor fraterno, que não era nova, uma medida nova, Ele próprio, ou seja «… como Eu vos amei (…)». Ele amou-nos, entregando a Sua vida pela redenção de todos. É por isso que com a Eucaristia haveremos de aprender a sermos um com Jesus e a vivermos em sinodalidade, isto é, a caminharmos juntos, percebendo que as diferenças entre nós são riqueza e não estorvo e que os talentos de cada um, postos em comum, fazem acontecer o grande clarão profético da dedicação e do serviço, à maneira de Jesus que nasceu para servir e ser pão de Belém para todos.

 

3. O Papa Francisco recorda-nos: «Se queremos que seja Natal, o Natal de Jesus e da Paz, voltemos o olhar para Belém e fixemo-lo no rosto do Menino que nasceu para nós! E, naquele rostinho inocente, reconheçamos o das crianças que em todas as partes do mundo anseiam pela paz». É neste olhar, que neste Natal vos convido a rezarmos pela Paz, sem deixarmos que a surdez da guerra nos roube a esperança da possibilidade da Paz, a única viabilidade da racionalidade e da sensatez. Uno-me à esperança de todos e desejo que o dom da Paz nasça em cada coração, em cada família, em cada comunidade, em todos os ambientes humanos, para que seja possível a paz universal.

Sonho Natal com os jovens e com suas famílias, a fim de que possam permanecer em suas terras, sem terem de emigrar. Que possam ficar neste interior tão necessitado de renovação do seu tecido social a partir de novas políticas de desenvolvimento e empreendedorismo geradoras de equilíbrio territorial.

Sonho Natal com toda a população deste Alentejo Central que espera pelo novo Hospital e por um Serviço Nacional de Saúde mais próximo e eficiente. Rezo por todos os profissionais de saúde, técnicos e prestadores de socorro, por todos os que diariamente fazem o milagre de que o impossível se torne possível.

Sonho Natal com todos os jovens universitários que acreditam que um dia será possível encontrar alojamento em quantidade e qualidade a preços acessíveis. Rezo por todos os que afincadamente tudo fazem pela concretização desta necessidade urgente.

Sonho Natal para todas as Instituições Sociais que diariamente fazem a multiplicação do pão e complementam a missão das famílias no referente às suas crianças, idosos e pessoas com deficiência. Rezo pela coragem, generosidade e abnegação dos que diariamente repartem o carinho e a ternura pelos mais sós e com menos voz.

Sonho Natal para os refugiados, imigrantes e deslocados, que face à partida das suas terras e face à indiferença da família humana, lhes resta o Céu, a solidariedade e o respeito dos que promovem as palavras Paz, Justiça e Amor.

Que seja Natal! Que aconteça Natal! Que façamos Natal!

+ Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora

 

 

08 Dez 2023

8 de dezembro, Catedral de Évora: Homilia do Arcebispo de Évora na Solenidade da Imaculada Conceição e Ordenação Diaconal de Tomás Dias

HOMILIA DO ARCEBISPO DE ÉVORA

SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO

Basílica Metropolitana de Évora 08/XII/2023

Ordenação Diácono Tomás Dias

Com que alegria celebramos em Tempo de Advento a Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora! Fazemo-lo na contemplação da beleza d’Aquela que, na História da Salvação, nos é oferecida por Cristo como Mãe e Ícone da Igreja e de cada Cristão. Fruto de uma compreensão constante do papel de Maria, o Papa Pio IX, a 8 de dezembro de 1854 definiu solenemente na Bula “Inefabilis Deus” que «a Beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante de sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus omnipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do género humano, foi preservada imune de toda a mancha do pecado original (…)».

Refletindo sobre esta definição, o Papa Francisco explicou-nos que «Maria foi preservada do pecado original, isto é. Daquela fratura na comunhão com Deus e com os outros, e com o que foi criado, que fere profundamente todo o ser humano». Para o Santo Padre, esta fratura «foi sanada antecipadamente na Mãe d’Aquele que veio para nos libertar da escravidão do pecado. A Imaculada está inscrita no desígnio de Deus; é fruto do Amor de Deus que Salva o mundo». O Papa lembra-nos ainda que Maria, proveniente de Nazaré, pequena localidade da Galileia, na periferia de Israel e ainda mais do Império Romano, nunca se distanciou todavia do Amor de Deus, toda a sua vida e todo o seu Ser é um SIM a esse Amor, é um SIM a Deus. Recorda-nos o Bispo de Roma, que «também nós, desde sempre, fomos escolhidos por Deus para viver uma vida santa, livre do pecado. É um projeto do Amor que Deus renova cada vez que nos aproximamos d’Ele, especialmente nos Sacramentos.»

Assim, «contemplando a beleza da nossa Mãe Imaculada, reconhecemos também a nossa vocação mais autêntica e profunda: sermos amados, sermos transformados pelo Amor, sermos tocados e transformados pela beleza de Deus. Deixemo-nos por isso, guardar por ela, para aprendermos a ser mais humildes, e também mais corajosos no seguimento da Palavra de Deus; para colhermos o terno abraço do Seu Filho Jesus, um abraço que nos dá vida, esperança e paz».

O Livro do Génesis, relata-nos a rutura da relação transparente de Deus com a Humanidade, representada em Adão e Eva. Nesta metáfora está representada a sede que a humanidade, constantemente revela, de ocupar o lugar de Deus na criação, de assumir o controlo total do mundo e de dominar o seu próprio destino. Neste contexto bíblico, anuncia-se a vitória de uma Mulher que frequentemente os Padres da Igreja identificam com a Igreja e com Maria. A Mulher é apresentada e é pré-anunciada como a nova Eva, aquela que será a Mãe do Redentor, Aquele que virá repor toda a criação na fidelidade ao projeto original de Deus, no dizer de santo Irineu de Lion, “recapitular todas as coisas em Deus”.

Esta profecia vetero-testamentária cumpre-se em nazaré. Longe dos olhares humanos. Maria é proclamada cheia de Graça. Ao aceitar a Palavra de Deus, Ela dispõe-se a trazer a salvação de Deus o Emanuel ao meio dos homens.

Deus não impõe, mas propõe, como fez com a Virgem de Nazaré. Se n’Ela, Deus quis precisar do seu SIM para que o Verbo de Deus, se formasse e se fizesse homem, Jesus Cristo nascendo como Redentor de todo o Homem e do Homem todo, hoje, a caminho do Natal, a Palavra do Senhor convida-nos a deixarmos que essa mesma Palavra gere Jesus nos nossos corações e nas nossas vidas para que, como discípulos missionários, O possamos anunciar, testemunhar e transmitir, para salvação de muitos e de muitas. Eis o apelo: deixar que Cristo se forme em nós para que sejamos discípulos missionários, com testemunhos de vida contagiantes, sempre na Alegria do Evangelho. «Grande maravilha fez por nós o Senhor, por isso, exultamos de alegria!». É no testemunho desta alegre esperança, que revelamos o rosto sempre novo da Igreja.

O que é singular em Maria tem validade e, sobretudo, luminosidade para a globalidade da Igreja, O que Maria será o que cada Comunidade eclesial é convidada a ser continuamente. Para Cristo, Maria é a segunda Eva, aquela que restaura, pela sua obediência, o que a primeira havia corrompido pela sua desobediência; assim, ela é a verdadeira colaboradora da obra salvífica de Cristo e o “recetáculo” da Igreja, como lembra Santo Ambrósio.

Na segunda leitura, o Apóstolo São Paulo proclama aos Efésios a sua vocação à Santidade, enquanto Filhos de Deus, herdeiros da Eternidade e Pedras Vivas da Igreja de Cristo. A nossa vocação batismal insere-nos na Igreja e faz de cada um de nós membros vivos do Povo de Deus. A eclesialidade é uma referência incontornável para os discípulos missionários: «Não pode ter Deus por Pai, quem não tiver a Igreja por Mãe» ensina S. Cipriano de Cartágo.

Quem quiser encontrar um modelo para a sua vivência batismal e eclesial tem em Maria a referência maior e o auxílio supremo. É que Maria pertence à Igreja, verdade que nem sempre parece ser valorizada. Ela é parte do mesmo Povo santo de Deus que formamos e o membro mais eminente da Igreja, porém não está fora dela ela é connosco, discípula, Mãe, testemunho e Mestra. É Igreja.

Caro Tomás Tomaz da Costa Patrício Dias, a conclusões até então apresentadas pelo Sínodo sobre a Sinodalidade dizem-nos que os Diáconos e presbíteros estão comprometidos nas mais diferentes formas do ministério pastoral: o serviço nas paróquias, a evangelização, a proximidade aos pobres e marginalizados, o compromisso no mundo da cultura e da educação, a missão ad gentes, o estudo teológico, a animação de centros de espiritualidade e muitos outros. Numa Igreja sinodal, os ministros ordenados são chamados a viver o seu serviço ao Povo de Deus numa atitude de proximidade às pessoas, de acolhimento e de escuta de todos e a cultivar uma profunda espiritualidade pessoal e uma vida de oração. São chamados, sobretudo, a repensar o exercício da autoridade seguindo o modelo de Jesus que, «sendo de condição divina, […] esvaziou-se a Si mesmo, assumindo a condição de servo» (Flp 2,6-7). A Assembleia reconhece que muitos presbíteros e diáconos, com a sua dedicação, tornam visível o rosto de Cristo Bom Pastor e Servo.

Um obstáculo ao ministério e à missão é constituído pelo clericalismo. Este nasce da má compreensão do chamamento divino, que leva a concebê-la mais como um privilégio que como um serviço, e manifesta-se num estilo de poder mundano que se recusa a prestar contas. Esta deformação do sacerdócio deve ser contrastada, desde as primeiras fases da formação, através de um contacto vivo com a quotidianidade do Povo de Deus e de uma experiência concreta de serviço às pessoas mais necessitadas. Hoje, não se pode imaginar o ministério do presbítero, a não ser em relação com o Bispo, no presbitério, em profunda comunhão com os outros ministérios e carismas. Infelizmente, o clericalismo é uma atitude que pode manifestar-se não apenas nos ministros, mas também nos leigos.

A autoconsciência das próprias capacidades bem como dos próprios limites é um requisito para se comprometer no ministério ordenado com um estilo de corresponsabilidade. Por isso mesmo, a formação humana deve garantir um percurso de conhecimento realista de si mesmo, que se integre com o crescimento cultural, espiritual e apostólico. Neste percurso, não se deve subvalorizar o contributo da família de origem e da comunidade cristã, dentro da qual o jovem amadureceu a sua vocação, e de outras famílias que acompanham o seu crescimento.

Os presbíteros são os principais cooperadores dos bispos e formam com eles um único presbitério (cf. LG 28); os diáconos, ordenados para o ministério, servem o Povo de Deus na diaconia da Palavra, da liturgia, mas sobretudo da caridade (cf. LG 29). Em relação a eles, a Assembleia exprime, antes de mais, uma profunda gratidão. Consciente de que podem experimentar solidão e isolamento, recomenda às comunidades cristãs que os apoiem com a oração, a amizade, a colaboração.

Caros Irmãs e Irmãos, o Papa Francisco tem insistido na identidade missionária dos discípulos de Jesus Cristo, lembrando-nos que somos discípulos missionários e não discípulos e missionários, pois não existem discípulos não missionários. Ora a missão é a vocação a que o Senhor nos convida a viver na família, na sociedade e na Igreja, por isso a pastoral vocacional é transversal ao catecumenado cristão pré ou pós-batismal, na catequese das diversas etapas da vida, em todas as comunidades cristãs, Associações de fiéis ou movimentos eclesiais.

Na “estrada de Damasco”, Saulo ao encontrar-se com Cristo, descobria simultaneamente o mistério da Comunidade Cristã, «Eu sou Cristo a quem tu persegues nos meus irmãos» (ACT 9, 5) e a sua vocação «Ai de mim se não Evangelizar» (1Cor 9,16), por isso quando nos encontramos com Cristo Ressuscitado, percebemos também o mistério da Igreja e da nossa vocação concreta no contexto da missão.

É sempre tempo favorável, Kairós, para nos abrirmos ao chamamento

do Senhor, ou para renovarmos a alegria do SIM que um dia demos. Eis-nos perante o desafio de renovarmos a Alegria do Evangelho o SIM constantemente dado e de continuarmos a ser Comunidades em saída, instrumentos de Cristo pela convocação e pelo chamamento. Nós somos hoje o “Vem e segue-me” de Cristo!

Que a Imaculada Virgem Maria, esteja sempre presente, como Mãe e educadora nesse SIM.

+ Francisco José Senra Coelho

Arcebispo de Évora

08 Dez 2023

8 de dezembro, em Vila Viçosa: Homilia do Arcebispo de Évora na Solenidade da Imaculada Conceição

ARCEBISPO DE ÉVORA

HOMILIA SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO

VILA VIÇOSA 08/XII/2023

 

Em pleno tempo de Advento, celebramos a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria. Advento é convite incessante para a preparação para o encontro com o Senhor, fazendo de cada celebração litúrgica um encontro com o Senhor; de cada encontro humano, uma oportunidade de crescimento e amadurecimento na humanização; de cada cruz da vida, uma esperança pascal, até que o Senhor venha definitivamente às nossas vidas e, finalmente, ao encontro de toda a Humanidade.

O Advento centra-nos na Esperança e na Vigilância, convidando-nos a caminhar até Cristo. Este caminho faz-se pelo progresso da vida espiritual, numa crescente identificação com o Reino de Deus, proclamado por Cristo. Este caminho exige-nos conversão, para que seja possível a nossa identificação com os valores e critérios do Reino de Deus, proclamado pelo Senhor Jesus. Vigiar sempre, sem nunca deixar de esperar, é a concretização deste espírito de conversão, de metanoia própria da nossa cristificação.

As leituras bíblicas que acabámos de acolher em nossas vidas, convidam-nos a contemplarmos Maria, a Mãe de Jesus, a sua primeira e mais excelsa discípula.

Na primeira leitura, retirada do Livro do Génesis, o autor Sagrado explica, mediante uma narrativa alegórica, repleta de metáforas, e etiológica, a transgressão original, da qual sobressai a repetida tentação da Humanidade prescindir de Deus e de querer ser como Deus. O Evangelho apresenta a Virgem Maria como resposta a esta desordem original e originante. À criação de Eva, por parte de Deus, responde o mesmo Senhor com a nova criação que, em Maria, começa, com a Sua entrega incondicional à vontade de Deus: «Faça-se em mim, segundo a Vossa Palavra». É que Maria sabe que Deus é o Senhor da História e, por isso, é o Senhor da Sua vida.

Um comentador bíblico contemporâneo afirma que, «em Maria, Deus contempla aquilo que gostaria de ver em cada um de nós»; é neste contexto que o Apóstolo Paulo, no passado Domingo, dizia aos Filipenses: «Tenho plena confiança de que Aquele que começou em vós tão boa obra, há-de levá-la a bom termo, até ao dia de Cristo Jesus».

Deus não impõe, mas propõe, como fez com a Virgem de Nazaré. Se n’Ela, Deus quis precisar do seu SIM para que o Verbo de Deus, Jesus Cristo, se formasse e se fizesse homem, nascendo como Redentor de todo o Homem e do Homem todo, hoje, a caminho do Natal, a Palavra do Senhor convida-nos a deixarmos que essa mesma Palavra gere Jesus nos nossos corações e nas nossas vidas para que, como discípulos missionários, O possamos anunciar, testemunhar e transmitir, para salvação de muitos e de muitas. Eis o apelo desta Solenidade, em tempo de Advento: deixar que Cristo se forme em nós para que sejamos discípulos missionários, com testemunhos de vida contagiantes, sempre na Alegria do Evangelho. «Grandes maravilhas fez por nós o Senhor, por isso, exultamos de alegria!».

Na segunda leitura, ouvimos o Apóstolo Paulo proclamar aos Efésios a sua vocação à Santidade, enquanto Filhos de Deus, herdeiros da Eternidade e Pedras Vivas da Igreja de Cristo. A nossa vocação batismal insere-nos na Igreja e faz de cada um de nós membros vivos do Povo de Deus. A eclesialidade é uma referência incontornável para os discípulos missionários: «Que ninguém chame Pai a Deus, se não chamar Mãe à Igreja!»

Na Virgem Maria,  encontramos um modelo para a sua vivência eclesial tem em Maria a referência maior e o auxílio supremo. É que Maria pertence à Igreja, verdade que nem sempre parece ser valorizada. Ela faz parte do mesmo povo que nós. É o membro mais eminente da Igreja, mas não está fora dela. Santo Agostinho, que a proclama «santa e bem-aventurada», não hesita em sustentar que «é mais importante a Igreja do que a Virgem Maria». Precisamente «porque Maria é uma parte da Igreja, membro santo, membro excelente, membro supereminente, mas, apesar disso, membro do corpo total».

O que é singular em Maria tem validade e, sobretudo, luminosidade para a globalidade da Igreja, O que Maria foi é o que a Igreja é convidada a ser continuamente. Para Cristo, Maria é a segunda Eva, aquela que restaura, pela sua obediência, o que a primeira havia corrompido pela sua desobediência; assim, ela é a verdadeira auxiliar da obra salvífica de Cristo e o “recetáculo” da Igreja, como lembra Santo Ambrósio.

Os Padres da Igreja gostam de sublinhar que Maria é, ao mesmo tempo, Virgem e Mãe: virgem, pois preserva o seu corpo para a encarnação da Palavra divina, no seio da fé – tornando-se, assim, mãe de uma forma inimitável. Maria é a figura-tipo da Igreja, não como mera “prefiguração”, mas, sim, enquanto arquétipo, isto é, enquanto “ideia” realizada de forma perfeita e inigualável e é, por isso mesmo, na sua ação pessoal, no seio da comunhão dos santos, a única que é perfeitamente adequada e coextensiva à eficácia da Igreja como “auxiliar” de Cristo. A missão de Maria reside na sua maternidade. Ela é a mãe dos membros de Cristo porque, pelo seu dom de amor «contribuiu para que nasçam na Igreja os crentes». Os Padres conciliares quiseram retomar esta ideia ao afirmarem, na Constituição Dogmática Lumen Gentium: «No mistério da Igreja, a qual é também com razão chamada mãe e virgem, a bem-aventurada Virgem Maria foi adiante, como modelo eminente e único de virgem e de mãe», com Aquela que foi sempre de Deus, desde o seu primeiro instante, pela Sua Imaculada Conceição.

A nossa Arquidiocese no seu Plano Pastoral para este ano, tão valorizado pelo 53º Congresso Eucarístico Internacional de Quito, no Equador, a decorrer de 8 a 15 de Setembro de 2024, e o Congresso Eucarístico Nacional previsto para Braga também no próximo ano entre os dias 31 de Maio, 1 e 2 de Junho, leva-nos a centrar a nossa atenção na Eucaristia.

De facto, a celebração da Eucaristia, sobretudo ao domingo, é a forma primeira e fundamental com a qual o Santo Povo de Deus se reúne e se encontra. Onde não for possível celebrá-la, a comunidade, mesmo desejando-a, recolhe-se à volta da celebração da Palavra. Na Eucaristia celebramos um mistério de graça do qual não somos nós mesmos os artífices. Chamando-nos a participar do seu Corpo e do seu Sangue, o Senhor torna-nos um só corpo entre e nós e com Ele.

Minhas Irmãs e meus Irmãos, a Eucaristia é o centro da vida cristã para onde tudo converge e donde tudo dimana. Pela celebração eucarística o Senhor Jesus renova a sua presença entre nós “até ao fim dos tempos”. Nela se torna presente Cristo Salvador, se torna manifesto o ministério sacerdotal e se exprimem os serviços e ministérios laicais. Na Eucaristia, a comunidade louva o Senhor, reza e implora as graças e bênçãos para a sua vida. Sem a vida nova que brota da Eucaristia, a comunidade perde vigor e o entusiasmo da fé vai-se desvanecendo irremediavelmente.

A Virgem Maria, Senhora do Pentecostes e Mãe educadora da nossa Fé, convida-nos a renovarmos as nossa vidas Cristificando-as a partir do dom da Eucaristia. Eis o seu convite: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.

É sempre tempo favorável, Kairós, para nos abrirmos ao chamamento do Senhor, ou para renovarmos a alegria do SIM que um dia demos. Com Maria, Mãe intercessora, façamos a entrega de nossas vidas a Cristo, a fim de por Ele darmos um SIM radical expressa vontade do Pai”. Eis-nos perante o desafio de nos renovarmos na Alegria do Evangelho, pelo SIM continuamente dado às exigências de uma Igreja em saída. Nós somos hoje  resposta comprometida ao convite de Cristo: “Vem e segue-me”! Da Eucaristia partimos e à Eucaristia voltamos!

Que a Imaculada Virgem Maria, esteja sempre presente, como incentivo e educadora na edificação da Comunidades Sinodais pelas quais se mostre o verdadeiro rosto do Pai revelado por Jesus Cristo.

 

+ Francisco José Senra Coelho

Arcebispo de Évora

18 Mai 2023

A Palavra do nosso Arcebispo: EUTANÁSIA? Não à “negociabilidade da vida”

Ao falar de Eutanásia, estamos a tocar no sentido do dom maior que, para nós crentes, Deus confiou ao Ser Humano: a vida. Sendo dom, ela é também tarefa, pois devemos preservá-la, respeitando a sua sacralidade e não a dispondo de modo arbitrário.

O Criador respeita a vida do Ser Humano. A Bíblia é – de longe- o livro que mais respeita o Ser Humano. Se a “espremermos”, o que sai? Sangue! Porque o que ela contém é VIDA!

A vida humana não pode ser encarada de modo subjetivo em que cada qual a usa e dispõe do modo que quer. O Ser Humano não vive isolado, mas em relação, não vive para si mesmo, mas a sua vida tem uma referência transpessoal e de responsabilidade na sociedade e para o bem comum. Embora inseridos num mundo tão heterogéneo, a vida de cada um de nós é única é irrepetível.

Desde a sua conceção até à morte natural, a pessoa humana tem missão a cumprir, tem “utilidade”. Mesmo na debilidade e no sofrimento, não é “peso”, mas dom e sabedoria para os outros, pois a sua dignidade não é diminuída nem nunca se perde.

Perante este valor intrínseco e “inviolável” da vida humana – que a Constituição Portuguesa reconhece no artigo 24º, nº. 1-, como querer colocá-la de um modo tão superficial num “jogo” de vontade da Pessoa perante a dor e o sofrimento? Por que motivo a sociedade, reclamadora de tantos direitos e garantias, está a tratar de modo tão leviano o pressuposto de todos os direitos e bens terrenos? Queremos que o Estado de direito tenha um bom e eficaz sistema de saúde que garanta o diagnóstico e tratamento dos doentes sempre com a finalidade de defesa da vida humana. Não será a eutanásia uma oposição e até mesmo negação da medicina?

Na etimologia grega, Eutanásia significa “boa morte”. Hoje tem-se definido a eutanásia como «uma intervenção para terminar a vida de alguém, a seu pedido (informado, consciente e reiterado), quando este apresente sofrimento intolerável, estando em fim de vida».

 

Eliminar a dor, ou aniquilar a vida?

Assim, a eutanásia não é a eliminação da dor, mas a aniquilação da vida. A eutanásia não é a humanização do sofrimento e do fim da vida, mas a legalização da morte programada. A eutanásia é um modo fácil e ilusório de encarar o sofrimento, pois não reclama nem exige da sociedade a compaixão, o amor e a solidariedade para com os doentes. Neste contexto cultural, voltado para o “eu”, é difícil o Ser Humano sair de si mesmo e viver a compaixão, isto é, inclinar-se perante o sofrimento do outro, sofrer com ele, ser sinal de humanização.

O Ser Humano, instintivamente, luta pela vida e pela sua preservação; luta para que ela tenha qualidade e se possa prolongar ao máximo no tempo. Não é a eutanásia a negação disto mesmo? Será absolutamente seguro afirmar que é autêntica a manifestação de vontade dos doentes terminais que pedem a eutanásia? Nunca pode haver esta garantia absoluta.

Podem ser vários os fatores para “pedir a morte”: ideia instantânea, momento de desespero, intenção de viver sem dor e sem sofrimento, falta de carinho e de amor dos familiares e amigos, a solidão e o abandono.

A opção deve ser sempre pela vida e nunca pela morte. Morrer com dignidade não é programar a morte, mas programar a vida com condições humanamente dignas: a proximidade e o amor dos entes queridos, a ajuda dos cuidados que a medicina, hoje tão avançada, nos propõe e oferece.

Dizer sim à vida e não à legalização da eutanásia é afirmar que a vida é sagrada; é perceber que todos têm direito aos cuidados médicos e paliativos; é restabelecer a confiança na medicina e nos profissionais da saúde; é educar a sociedade para os valores do altruísmo, da solidariedade e da fraternidade; é construir uma sociedade que olha para a vida humana como dom inviolável.

 

Perguntas legítimas a uma proposta

É à luz do mistério pascal de Jesus Cristo que nós, os crentes, devemos encontrar o sentido para a vida e para o sofrimento. A vida comporta sempre sofrimento: dele não podemos fugir, mas nele encontramos um desafio que nos faz crescer em humanidade. A eutanásia não faz parte do projeto da vida cristã. Porém, o assunto em questão não se esgota na perspetiva religiosa cristã.

Como vemos pela definição de “Eutanásia”, os defensores da sua legalização propõem que evitemos o sofrimento inútil, através de uma morte digna e assistida. Surgem perguntas legítimas a esta proposta.

O que será sofrimento inútil e por isso mesmo intolerável? O que comporta ele para além da dor, e como se pode medir para avaliar? Num contexto, onde «o conhecimento científico duplica praticamente de quatro em quatro anos» (Lucien Israel, Contra a Eutanásia, Paulus, 2016, p. 22), e onde os cuidados paliativos mais eficazes e o avanço da medicina encontram novas respostas à dor, como se definirão as fronteiras do “sofrimento inútil”? Como conciliam a dita liberdade de morrer com o dever de matar? Quem garante o rigor e a não corrosão das fronteiras da ética e da deontologia de cuidar da vida e de a não matar e o uso e o abuso de ‘eutanasiar’? Não haverá também nesta questão a aplicação da regra comum que a ‘oferta’ aumenta a ‘procura’ e que negociar a vida pode ser uma porta aberta para a sua banalização? Não será que ‘a vontade de morrer’ de muitos doentes apenas exprime estados patológicos superáveis perfeitamente e de vários modos?

 

Equipas médicas, doentes e cuidadores

Com todo respeito pelos que divergem desta compreensão da vida e procurando fazer caminho com todos eles na busca das melhores respostas para os problemas em aberto da dor e do sofrimento humanos, parece-me devermos concluir que só o que humaniza responde às questões humanas. Nesta perspetiva, e porque a Medicina não é uma ciência reduzida a máquina de elaborar diagnósticos e prescrever medicamentos, importa que o paciente possa depositar a sua confiança na consciência do seu médico e da equipa que com ele o trata. Claro, que a confiança advém de vários fatores técnico-profissionais; mas nunca o paciente com plena consciência se alheia ou prescinde da humanidade médica.

Neste âmbito, o médico não é apenas mandatário de maiorias sociológicas que fazem e desfazem Leis, nem das disposições subjetivas impostas pelos seus pacientes; é uma pessoa de consciência e com exigências deontológicas previamente assumidas. A confiança no ato médico gera a segurança do paciente em momentos muito vulneráveis e descompensados das suas vidas, por isso as balizas inegociáveis da vida devem ser dados adquiridos da ética em que se fundamentam os valores civilizacionais da Dignidade da Pessoa Humana.

Perante a dor humana e com as possibilidades paliativas atuais, em alguns casos é legítima a pergunta: Quem sofre mais, o doente, ou aqueles que o rodeiam, incluindo os seus cuidadores e entes queridos em situação de perca? O valor da Vida não merecerá de todos esta partilha com o paciente?

Certamente, os médicos e suas equipas têm o dever de nunca se renderem à morte, mas de infundirem ao doente esperança, vontade e força de lutar; atitudes assentes no valor da confiança médica, pois, se «existem doenças incuráveis, não existem doenças intratáveis».

Numa Europa e num País envelhecido, nunca poderemos evitar legitimidade da pergunta: e se a eutanásia e tudo o que gira à sua volta evolui para uma «solução económica» e «uma solução técnica» para um dos maiores problemas da atualidade e parece que do seu futuro? Será desonesta esta interrogação? É que nesta questão da negociabilidade da Vida Humana, sabe-se como começa, mas nunca se sabe como acaba. Que o diga o século XX.

 

+ Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora

 

Nota: Artigo publicado na Revista Bíblica – N.º 369